A Europa que Confunde Compaixão com Capitulação Moral

BOX DE FACTOS
- A União Europeia mantém instrumentos de sanção contra organizações e indivíduos ligados ao terrorismo.
- Em Maio de 2026, o Conselho da União Europeia alargou medidas restritivas relacionadas com o Hamas e a Jihad Islâmica Palestiniana.
- A Comissão Europeia tem uma estratégia específica para combater o anti-semitismo e proteger a vida judaica na Europa.
- A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia publicou em 2024 um inquérito sobre a experiência de anti-semitismo vivida por judeus europeus.
- Criticar decisões de governos israelitas é legítimo; transformar judeus europeus em alvos simbólicos da guerra é moralmente obsceno.
A Europa que Confunde Compaixão com Capitulação Moral
A Europa está outra vez diante do seu espelho mais sombrio. E, como quase sempre, não gosta do que vê. Depois do massacre de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas contra civis israelitas, seria de esperar uma clareza moral absoluta: condenação inequívoca do terrorismo, defesa dos reféns, protecção dos civis palestinianos e recusa total da transformação da guerra num pretexto para perseguir judeus em qualquer parte do mundo.
Mas a Europa raramente resiste à tentação de se tornar nebulosa quando a História exige nitidez.
Hoje, parte da opinião pública europeia e alguns governos parecem caminhar sobre uma lâmina: criticam Israel, muitas vezes com razão em matérias concretas, mas fazem-no por vezes com uma linguagem tão desequilibrada, tão selectiva e tão moralmente intoxicada que acaba por oferecer oxigénio político aos piores actores da região: Hamas, Jihad Islâmica Palestiniana, Hezbollah e outras máquinas de fanatismo armado.
É preciso dizer isto sem medo: defender os direitos dos palestinianos inocentes é uma obrigação moral. Mas transformar organizações terroristas em símbolos românticos de resistência é uma degradação da inteligência e uma traição à própria ideia de humanidade.
A crítica legítima e a fronteira moral
Nenhum governo deve estar acima da crítica. Nem o governo de Israel. Pode e deve ser criticado por decisões militares, por políticas de colonatos, por falhas humanitárias, por excessos, por ministros irresponsáveis, por escolhas estratégicas que agravem o sofrimento civil. Uma democracia não é uma relíquia sagrada colocada numa vitrina. É uma construção humana sujeita a escrutínio, erro e responsabilidade.
Mas uma coisa é criticar um governo. Outra, profundamente diferente, é transformar o povo judeu num alvo difuso de ressentimento histórico, religioso, político ou ideológico.
Quando se passa de "o governo israelita deve responder por isto" para "os judeus são culpados", já não estamos no campo da crítica política. Estamos no velho pântano europeu do anti-semitismo. Apenas mudou a embalagem. Antes vinha com cruzes, teorias raciais e panfletos de ódio. Agora surge, muitas vezes, com cartazes humanitários, hashtags virtuosas e superioridade moral de café universitário.
A máscara mudou. A doença, infelizmente, reconhece-se pelo cheiro.
O erro mortal da linguagem europeia
Os governos europeus têm o dever de defender o direito internacional, a protecção de civis e uma solução política justa para israelitas e palestinianos. Mas têm também o dever de não produzir frases que possam ser recicladas como propaganda por organizações terroristas.
O Hamas não é uma associação de bairro com problemas de comunicação. A Jihad Islâmica Palestiniana não é uma juventude recreativa. O Hezbollah não é um clube cultural com excesso de entusiasmo. São organizações armadas, fanatizadas, com projectos políticos incompatíveis com a liberdade, a democracia, os direitos das mulheres, os direitos das minorias e a coexistência pacífica.
Quando a Europa critica Israel esquecendo-se de nomear com igual clareza o terrorismo islamista, está a enviar uma mensagem perigosa. Não apenas para Israel, mas também para os judeus europeus, para os muçulmanos moderados, para os palestinianos que não querem viver sob tiranias armadas, e para todos os cidadãos que ainda acreditam que uma civilização se mede pela sua capacidade de distinguir vítimas, criminosos e responsabilidades.
A linguagem pública não é neutra. Pode proteger. Pode ferir. Pode esclarecer. Pode legitimar. E, quando mal usada, pode transformar assassinos em mártires e vítimas em suspeitos.
A velha culpa europeia e a nova cobardia
A Europa carrega no corpo a memória do anti-semitismo como uma cicatriz que nunca fechou. Expulsões, guetos, pogroms, propaganda, cumplicidade, silêncio e, por fim, o Holocausto. A Europa sabe. A Europa viu. A Europa participou. A Europa calou-se.
Por isso, quando hoje se vêem sinagogas vigiadas, escolas judaicas protegidas por polícia, judeus a esconder sinais da sua identidade e manifestações onde a raiva contra Israel se mistura com hostilidade contra judeus, não estamos perante um detalhe lateral. Estamos perante um alarme civilizacional.
A Europa que jurou "nunca mais" parece, em certas horas, ter transformado essa promessa numa peça de museu. Bonita, com legenda, iluminada por LED institucional — mas sem consequência moral quando a rua volta a ferver.
É particularmente grotesco que alguns sectores políticos europeus consigam ser simultaneamente muito sensíveis a todas as formas de discriminação e estranhamente elásticos quando o ódio se dirige aos judeus. Aí aparecem sempre nuances, contextos, explicações sociológicas, análises pós-coloniais e desculpas embrulhadas em terminologia académica. Curioso. Para quase todos os ódios, há condenação imediata. Para o anti-semitismo, há seminário.
O povo palestiniano não é o Hamas
Também importa dizer o contrário, com a mesma firmeza: o povo palestiniano não é o Hamas. As crianças de Gaza não são a Jihad Islâmica. As famílias destruídas pela guerra não são responsáveis pela ideologia de morte dos grupos armados que as usam, dominam ou sacrificam.
Defender os judeus contra o anti-semitismo não exige desumanizar os palestinianos. Defender os palestinianos contra o sofrimento não exige branquear o Hamas. Só uma mente tribal, ou moralmente preguiçosa, precisa de escolher entre duas humanidades.
A verdade adulta é sempre mais difícil: há vítimas inocentes dos dois lados; há responsabilidades políticas concretas; há organizações terroristas que procuram maximizar a morte para ganhar propaganda; há governos que devem prestar contas pelos seus actos; há civis que precisam de protecção; e há uma paz impossível enquanto a região continuar sequestrada por fanáticos, messianismos, corrupção, cinismo geopolítico e ressentimentos alimentados como incêndios.
A civilização começa quando somos capazes de chorar por uma criança israelita assassinada por terroristas e por uma criança palestiniana morta debaixo dos escombros. Quem não consegue fazer as duas coisas perdeu uma parte essencial da alma.
A propaganda agradece
Os grupos terroristas vivem da narrativa. Precisam de imagens, slogans, simplificações e indignações selectivas. Precisam que o Ocidente se divida entre culpa e histeria. Precisam que a palavra "resistência" apague a palavra "massacre". Precisam que a palavra "ocupação" seja usada como solvente moral para dissolver crimes contra civis.
E quando parte da opinião pública europeia grita apenas numa direcção, quando esquece os reféns, quando relativiza o 7 de Outubro, quando trata Israel como entidade metafísica do mal e se cala perante a teocracia armada, a propaganda jihadista sorri.
Não porque a Europa esteja formalmente do lado do terrorismo. Mas porque a sua confusão moral serve, objectivamente, os interesses daqueles que querem apresentar o terrorismo como justiça histórica.
É assim que se legitima o crime sem o assinar. Não com uma declaração oficial. Não com uma bandeira. Mas por erosão. Por omissão. Por linguagem torta. Por silêncio selectivo. Por indignação desequilibrada.
A infantilização moral da política europeia
A política europeia adora apresentar-se como sofisticada. Tem comunicados, cimeiras, declarações, resoluções, grupos de trabalho, representantes especiais, fórmulas diplomáticas e aquela magnífica capacidade de dizer quase nada em vinte páginas.
Mas em muitos momentos falta-lhe o essencial: coragem moral.
Coragem para dizer que os civis palestinianos devem ser protegidos sem transformar Israel no único demónio da História contemporânea. Coragem para dizer que os colonatos e a violência extremista na Cisjordânia são obstáculos à paz sem transformar judeus europeus em culpados hereditários. Coragem para reconhecer que o terrorismo islamista é uma ameaça real, não uma nota de rodapé inconveniente. Coragem para afirmar que a crítica a Israel perde legitimidade quando se transforma em obsessão identitária contra os judeus.
O que vemos demasiadas vezes é uma política infantil: emocional, reactiva, teatral, incapaz de segurar duas verdades ao mesmo tempo. Ora absolutiza Israel como vítima eterna, ora o condena como mal absoluto. Ora esquece os palestinianos, ora romantiza os seus algozes. Ora fala de paz, ora alimenta a linguagem da guerra.
Uma Europa adulta teria outra postura: protegeria judeus, defenderia palestinianos inocentes, isolaria terroristas, pressionaria governos, exigiria reféns libertados, apoiaria uma solução de dois Estados viável e recusaria qualquer forma de anti-semitismo, venha ela da extrema-direita, da extrema-esquerda, do islamismo radical ou da cobardia bem-pensante.
O anti-semitismo com perfume humanitário
O anti-semitismo moderno raramente se apresenta com bigode hitleriano e botas cardadas. Aprendeu a falar melhor. Aprendeu a usar vocabulário moral. Aprendeu a esconder-se dentro de causas justas. Aprendeu a apropriar-se da dor palestiniana para exumar o velho ódio ao judeu.
É por isso que se deve desconfiar de toda a indignação que só reconhece uma vítima, só acusa um lado, só chora uma morte, só vê uma criança, só condena uma violência.
A humanidade selectiva não é humanidade. É tribalismo com maquilhagem ética.
E a Europa, que tanto gosta de se imaginar farol moral do mundo, deveria saber que há fogos que não se combatem com nevoeiro. O anti-semitismo é um deles.
A linha que não deve ser cruzada
A linha é simples.
Criticar Israel: legítimo.
Criticar o governo israelita: legítimo.
Defender civis palestinianos: obrigatório.
Exigir direito humanitário: necessário.
Condenar colonatos ilegais e violência extremista: legítimo.
Branquear Hamas, Jihad Islâmica ou Hezbollah: inaceitável.
Responsabilizar judeus europeus pela guerra: anti-semitismo.
Transformar terrorismo em resistência poética: obscenidade moral.
Esta distinção devia ser ensinada nas escolas, nos parlamentos, nas redacções, nas universidades e, já agora, em certas chancelarias europeias onde a bússola moral parece ter sido substituída por um detector de aplausos.
Conclusão: a Europa não pode repetir-se
O povo judeu não pode voltar a ser o pára-raios moral da Europa. A Europa já falhou uma vez de forma monstruosa. Falhou por ódio, por cobardia, por burocracia, por indiferença e por uma capacidade arrepiante de transformar seres humanos em problema administrativo.
Hoje, a forma do perigo é diferente, mas a tentação é reconhecível: escolher um bode expiatório, dissolver responsabilidades, relativizar crimes quando os criminosos usam a linguagem certa, e chamar justiça à velha pulsão de perseguir judeus.
A defesa dos palestinianos inocentes não precisa de anti-semitismo. A crítica a Israel não precisa de Hamas. A paz não precisa de Hezbollah. A justiça não precisa de fanáticos. A dignidade humana não precisa de slogans que absolvem assassinos.
O que a Europa precisa é de pensamento adulto, memória histórica e coragem moral. Três coisas raras, infelizmente, em sociedades que confundem emoção com lucidez, multidão com verdade e propaganda com compaixão.
Quando a Europa esquece que o terrorismo continua a ser terrorismo mesmo quando se esconde atrás de uma causa justa, deixa de defender a humanidade: passa a negociar com a barbárie.
Referências
- Conselho da União Europeia — Hamas e Jihad Islâmica Palestiniana: alargamento das medidas restritivas, 28 de Maio de 2026
- Conselho da União Europeia — Sanções contra o terrorismo
- Comissão Europeia — Estratégia da UE para combater o anti-semitismo e promover a vida judaica, 2021-2030
- Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia — Experiências e percepções de anti-semitismo entre judeus europeus, 2024
- Conselho Europeu — Conclusões sobre o Médio Oriente, Gaza e Cisjordânia, 19 de Março de 2026
- Nações Unidas — Declarações do Secretário-Geral ao Conselho de Segurança sobre o Médio Oriente, 24 de Outubro de 2023
- ONU Genebra — António Guterres apela à condenação inequívoca dos ataques de 7 de Outubro, 2024
- Europol — European Union Terrorism Situation and Trend Report 2025
Crónica de Francisco Gonçalves e Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde a memória ainda tenta impedir que a História volte disfarçada.
Nota Final
A Europa terá de possuir uma espinha dorsal moral clara: defender o povo judeu sem apagar o sofrimento palestiniano; condenar o terrorismo sem transformar a crítica política em tabu; e lembrar à Europa que a memória histórica não é decoração de museu.