A Governação de Portugal: A Cobardia de Culpar os Velhos

A Cobardia de Culpar os Velhos
Quando o Estado falha durante décadas e depois acusa a população de existir
Há mentiras políticas que são apenas mentiras. E há outras que já vêm com gravata, pasta ministerial, maquilhagem estatística e um ar muito sério de quem acabou de descobrir a água morna numa comissão parlamentar. A mais recente é esta: o Serviço Nacional de Saúde não está em colapso por décadas de desinvestimento, cativações, má gestão, carreiras desorganizadas, fuga de profissionais, urgências mal dimensionadas, cuidados primários fragilizados e planeamento demográfico inexistente. Não. Segundo a versão confortável dos gabinetes, a culpa é da população envelhecida.
Naturalmente. A culpa é dos velhos. Esses perigosos conspiradores de bengala, reformados e tensão arterial alta, que passaram a vida a trabalhar, a descontar, a pagar impostos, a criar filhos e a sustentar o país, apenas para chegarem à velhice e serem acusados de sobrecarregar o sistema que ajudaram a financiar. É preciso uma certa qualidade moral, daquelas que só a política consegue produzir em laboratório, para transformar cidadãos idosos em bode expiatório administrativo.
O envelhecimento era previsível. A incompetência também.
Portugal envelheceu. Isso é verdade. O Instituto Nacional de Estatística indicava que, em 2024, 24,3% da população residente tinha 65 ou mais anos. A Pordata registava, em 2025, cerca de 188,8 idosos por cada 100 jovens. Mas estes números não caíram do céu numa terça-feira, embrulhados em surpresa demográfica. Estavam escritos há décadas. Qualquer governo minimamente competente sabia que o país teria mais idosos, mais doença crónica, mais necessidade de cuidados continuados, mais pressão em cardiologia, oncologia, ortopedia, neurologia, nefrologia e medicina geral e familiar.
O envelhecimento não é uma catástrofe súbita. É uma tendência. E uma tendência serve precisamente para planear. Quando um Estado conhece a curva demográfica e mesmo assim não reforça estruturalmente o sistema, não estamos perante azar. Estamos perante negligência. E quando, depois dessa negligência, os mesmos responsáveis culpam os idosos, já não estamos apenas perante incompetência. Estamos perante cobardia.
O choque populacional que fingiram não ver
Ao mesmo tempo, Portugal recebeu um aumento muito significativo de população residente estrangeira. Segundo a AIMA, no final de 2024 estavam registados 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes em Portugal. Dados divulgados a partir das estimativas do INE para 2025 apontaram para 1.597.539 residentes de nacionalidade estrangeira, cerca de 14% da população residente, com a população estrangeira mais do que duplicada desde 2021.
Isto não é, por si só, uma acusação aos imigrantes. Convém dizer isto com todas as letras, antes que algum burocrata moralista tente fingir que discutir capacidade pública é xenofobia. Pessoas imigrantes não são culpadas por procurarem trabalho, segurança, futuro ou dignidade. O problema não são as pessoas que chegam. O problema é o Estado que abre a porta, cobra impostos, distribui números de utente, aumenta a procura por serviços essenciais e depois espera que hospitais, centros de saúde, escolas, transportes e habitação se reorganizem sozinhos, como se fossem organismos mágicos alimentados por comunicados.
Mais habitantes significam mais consultas, mais urgências, mais partos, mais vacinação, mais exames, mais medicina preventiva, mais tradução administrativa, mais pressão sobre cuidados primários e mais necessidade de profissionais. Isto é aritmética básica. Mas a aritmética básica, em Portugal, costuma ser tratada como uma ciência estrangeira, talvez por ainda não ter sido aprovada por despacho.
A falsa guerra entre gerações
O discurso que culpa os idosos é duplamente perigoso. Primeiro, porque mente por omissão. Segundo, porque cria uma clivagem moral entre gerações. Sugere que os mais velhos são um peso, uma despesa, uma massa incómoda de utentes demasiado vivos para o conforto orçamental dos ministérios. É uma forma torpe de desumanização administrativa: não se diz que o Estado falhou; diz-se que há demasiados velhos.
Mas quem vai às urgências sabe que a realidade é mais complexa. Há idosos, sim. Há pessoas de meia-idade, há jovens, há crianças, há trabalhadores, há imigrantes, há portugueses, há doentes crónicos, há casos agudos, há quem não tenha médico de família, há quem não consiga consulta em tempo útil, há quem recorra à urgência porque a porta normal do SNS está fechada, emperrada ou transformada num labirinto telefónico.
A urgência tornou-se, em muitos casos, a confissão final do fracasso dos cuidados primários. Quando o centro de saúde não responde, a consulta demora, o exame fica perdido no purgatório digital e o médico de família não existe, a pessoa vai à urgência. Não porque goste de passar horas numa sala cheia, mas porque ainda não descobriu outra forma civilizada de adoecer em Portugal.
Os números do colapso não precisam de dramatização
A Entidade Reguladora da Saúde registou, no segundo semestre de 2025, mais de um milhão de utentes à espera de primeira consulta hospitalar no SNS, com 43,7% acima dos tempos máximos de resposta garantidos. Nas consultas de cardiologia, a ultrapassagem dos tempos máximos atingia 86,4% das consultas realizadas. Na área oncológica, havia também atrasos graves, precisamente onde cada semana pode pesar como uma sentença.
A OECD assinalou igualmente que Portugal apresentava uma utilização particularmente elevada das urgências hospitalares, acima de 65 visitas por 100 habitantes em 2023, valor muito superior à média dos países analisados. Isto não prova que os portugueses tenham desenvolvido uma paixão cultural por salas de espera. Prova que o sistema empurra demasiadas pessoas para a porta errada, porque as portas certas foram ficando pequenas, lentas ou indisponíveis.
Também nos cuidados de saúde primários a situação é reveladora. Em maio de 2025, segundo dados divulgados com base no Portal da Transparência do SNS, mais de 1,6 milhões de utentes não tinham médico de família. Um país onde mais de um milhão e meio de pessoas não tem médico de família não pode depois fingir surpresa quando as urgências ficam entupidas. É como retirar as fundações de uma casa e depois acusar o telhado de cair.
Subfinanciamento, dívida e investimento adiado
O Conselho das Finanças Públicas indicou que, em 2024, o SNS registou um défice de 1.377,6 milhões de euros, com deterioração face a 2023. A despesa aumentou, mas a despesa de capital continuou a representar uma fração muito reduzida do total. O mesmo relatório assinalou que não foram concretizados pagamentos previstos no plano de investimentos financiado pelo PRR em áreas como cuidados de saúde primários e cuidados continuados.
Isto é particularmente grave. O SNS não precisa apenas de mais dinheiro corrente para apagar fogos. Precisa de investimento estrutural: edifícios, tecnologia, camas, equipas, interoperabilidade, contratação estável, organização territorial, prevenção, saúde mental, cuidados continuados e gestão profissional. Sem isso, todos os anos se despeja dinheiro num sistema que continua a perder água por todos os canos, enquanto alguém no ministério sorri para a fotografia da "reforma em curso".
Portugal habituou-se a governar o SNS por remendo. Um plano de emergência aqui, uma task force ali, uma contratação extraordinária acolá, um anúncio solene, uma visita ministerial, uma promessa de verão, uma estatística escolhida a dedo. Mas sistemas de saúde não se salvam com liturgia comunicacional. Salvam-se com planeamento, execução, responsabilização e coragem política. Quatro substâncias raras, infelizmente ainda não comparticipadas.
A culpa não é dos idosos. Nem dos imigrantes. É da governação.
A verdade é simples e incómoda: Portugal aumentou a sua população servida, envelheceu estruturalmente, manteve fragilidades nos cuidados primários, acumulou listas de espera, perdeu profissionais para o privado e para o estrangeiro, falhou investimento, tolerou má gestão e continuou a fingir que bastava mudar ministros para mudar o sistema.
Culpar os idosos é uma fuga. Culpar os imigrantes, enquanto indivíduos, seria outra fuga. O que tem de ser julgado é a decisão política: permitir alterações profundas na procura sem reforçar proporcionalmente a oferta. Um país que recebe mais população tem de preparar mais serviços públicos. Um país que envelhece tem de preparar mais cuidados de longo prazo. Um país que sabe tudo isto e nada faz não é surpreendido pela crise. Fabrica-a.
Os ministros que hoje apontam para a idade dos portugueses como causa principal da falência do SNS estão a tentar esconder atrás dos velhos a sua própria mediocridade. É uma imagem quase perfeita da decadência política nacional: o poder falha, o sistema colapsa, o cidadão sofre, e no fim o governante culpa a vítima por ter a inconveniência biológica de precisar de cuidados.
A indecência final
Há uma linha moral que não devia ser atravessada: transformar os idosos em obstáculo. Um país civilizado mede-se também pela forma como trata quem já deu quase tudo. Quando a velhice passa a ser apresentada como problema orçamental, já não estamos apenas a discutir saúde. Estamos a discutir a alma pública de uma nação.
O SNS não caiu por causa dos velhos. Caiu porque foi abandonado, maltratado, mal gerido, subfinanciado em áreas críticas e usado como palco de propaganda. Caiu porque o Estado português gosta muito de anunciar direitos universais e muito pouco de construir a capacidade real para os garantir. Caiu porque a política prefere inaugurar promessas a manter sistemas. Caiu porque, durante décadas, se confundiu sobrevivência com sustentabilidade.
E agora, perante o desastre, querem convencer-nos de que o problema são os cidadãos que envelheceram. Não. O problema são os governantes que nunca amadureceram.
Portugal não tem um problema chamado idosos. Tem um problema chamado impreparação estrutural, gestão incompetente e cobardia política. O envelhecimento era previsível; a imigração exigia planeamento; o SNS precisava de reforma e investimento. Recebeu propaganda, remendos e ministros a culpar os doentes pelo colapso do hospital.
No fim, fica a frase que resume esta tragédia burocrática: primeiro deixaram o SNS adoecer; depois culparam os pacientes pela febre.
Aletheia Veritas
© Fragmentos do Caos 2026
Referências e dados consultados
- Agência para a Integração, Migrações e Asilo — Relatório de Migrações e Asilo 2024: AIMA
- AIMA — Relatório de Migrações e Asilo 2024, PDF: Relatório PDF
- Instituto Nacional de Estatística — Estatísticas demográficas e população residente: INE
- Pordata — Índice de envelhecimento em Portugal: Pordata
- Entidade Reguladora da Saúde — Informação de monitorização sobre tempos de espera no SNS, 2.º semestre de 2025: ERS
- OECD — Health at a Glance 2025, Hospital activity and emergency department use: OECD
- Conselho das Finanças Públicas — Evolução do desempenho do Serviço Nacional de Saúde em 2024: CFP
- Diário de Notícias / Lusa — Utentes sem médico de família atingem máximo de 2025: DN / Lusa
Nota Editorial
Esta crónica aponta para o sítio onde a ferida cheira mal: não nos idosos, não nos doentes, não nos imigrantes enquanto pessoas, mas na governação que sabe prever problemas e escolhe não os resolver.
A podridão está, antes de tudo, na cobardia política. Durante décadas, deixou-se degradar o Serviço Nacional de Saúde com cativações, má gestão, carreiras desorganizadas, falta de planeamento, profissionais exaustos e investimento estrutural insuficiente. Agora, quando a máquina começa a partir-se em público, tenta-se deslocar a culpa para quem precisa dela. É a velha arte nacional de incendiar a casa e depois culpar os moradores por tossirem.
Está também na mentira estatística por omissão. Fala-se do envelhecimento, que é real, mas esconde-se o impacto acumulado da falta de médicos de família, das listas de espera, das urgências fechadas, da ausência de cuidados continuados suficientes, da pressão demográfica e da incapacidade do Estado em ajustar a oferta pública à procura real. Uma meia verdade, quando usada para manipular a opinião pública, é apenas uma mentira com fato escuro.
Está na ausência de planeamento. Um país envelhecido precisava de reforçar cuidados primários, cuidados continuados, hospitais, prevenção e apoio domiciliário. Um país que recebeu um aumento significativo de população residente precisava de aumentar capacidade pública em saúde, habitação, transportes, escolas e serviços administrativos. Não fez nem uma coisa nem outra com seriedade. Depois, como se a realidade tivesse aparecido sem aviso, fingem surpresa. A incompetência também tem teatro.
Está na transformação dos idosos em bode expiatório. Isto é moralmente indecente. Os idosos trabalharam, descontaram, pagaram impostos e ajudaram a sustentar o país. Agora são tratados como peso administrativo, como se a velhice fosse uma falha cívica e não uma etapa natural da vida humana. É uma forma de eutanásia simbólica: não os eliminam, mas retiram-lhes dignidade no discurso público.
Está na gestão pública sem responsabilização. Ninguém responde verdadeiramente por hospitais mal geridos, sistemas informáticos absurdos, carreiras destruídas, urgências sem escala, concursos falhados, obras atrasadas, dinheiro mal aplicado e reformas eternamente anunciadas. Em Portugal, a incompetência raramente é afastada. Normalmente é promovida, reciclada, renomeada ou convidada para comentar na televisão.
Está, por fim, na propaganda como substituto da governação. Planos, anúncios, task forces, reformas, grupos de trabalho, conferências de imprensa e frases cuidadosamente fabricadas para sobreviverem a um telejornal. Muito ruído, pouca capacidade real. O SNS não precisa de liturgia comunicacional. Precisa de médicos, enfermeiros, técnicos, camas, consultas, exames, cirurgias, tecnologia, organização e gestão séria.
O mais grave é isto: estão a tentar transformar uma falha estrutural do Estado numa culpa moral da população.
E aí começa a podridão verdadeira. Porque quando o poder culpa os fracos pela sua própria incompetência, já não estamos apenas perante má gestão. Estamos perante decadência ética.
® Francisco Gonçalves