BOX DE FACTOS

  • O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra-se a 10 de Junho.
  • O 25 de Abril de 1974 abriu caminho à liberdade política, à democracia constitucional e ao fim da ditadura.
  • Portugal conquistou liberdade, eleições, pluralismo e direitos fundamentais.
  • Mas uma democracia não se mede apenas por cerimónias, medalhas e discursos: mede-se pela dignidade concreta do povo.
  • A pergunta essencial permanece: que país estamos a construir com a liberdade que herdámos?

Portugal entre o Fado, o Futebol e a Cerimónia

Um país que transforma o povo em plateia e o futebol em religião civil ainda não cumpriu Abril. Apenas mudou a decoração do palco.

Portugal vive tempos estranhos. Não porque lhe falte liberdade formal, essa conquista maior que Abril arrancou ao medo, à censura e ao silêncio. Vive tempos estranhos porque parece, demasiadas vezes, ter trocado a cidadania pelo espectáculo, a exigência pelo entretenimento, a sociedade civil pela bancada e a memória histórica por cerimónias onde a elite se contempla a si própria com a solenidade de quem acredita estar a salvar a pátria entre dois cortes-de-fita.

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, seria natural que a nação se interrogasse sobre o seu destino, a sua cultura, a sua diáspora, a sua língua, a sua soberania, a sua economia, a sua escola, a sua justiça e o seu futuro. Mas Portugal parece preferir, muitas vezes, a liturgia confortável: discursos oficiais, medalhas, hinos, fotografias de ocasião, palavras altas e consequências baixas.

Cerimónia do 10 de Junho com desfile oficial e povo a assistir ao fundo
10 de Junho: A pátria oficial desfila prante a plateia das elites; o país real observa ao fundo como paisagem e mero figurante.

Há uma pátria de cerimónia e há uma pátria real. A primeira aparece bem vestida, iluminada, protocolar, com lugares reservados, condecorações, sorrisos e palavras muito redondas. A segunda espera por consulta, procura casa, conta o salário, vê os filhos emigrar, enfrenta rendas impossíveis, serviços públicos cansados, tribunais lentos e um Estado que ainda trata o cidadão como se fosse um estorvo administrativo.

Entre uma e outra, vai crescendo uma distância perigosa. E essa distância não se resolve com mais uma sessão solene. A civilização, como se sabe, adora acreditar que uma boa mesa presidencial resolve aquilo que décadas de incompetência deixaram apodrecer. É comovente, de uma forma quase veterinária.

Os Heróis do Relvado e o Silêncio da Sociedade Civil

Não há nada de errado em celebrar jogadores e treinadores de futebol. O talento merece reconhecimento. A disciplina, o esforço, a excelência, a capacidade competitiva e a projecção internacional são valores importantes. O problema começa quando uma sociedade reserva quase todo o seu altar simbólico ao futebol, enquanto deixa na sombra os seus professores, cientistas, médicos, engenheiros, operários, agricultores, cuidadores, programadores, artistas, investigadores, pequenos empresários e cidadãos que sustentam o país todos os dias sem câmaras, patrocínios ou estádios cheios.

Portugal transformou o futebol numa espécie de religião civil. Tem santos, procissões, cânticos, excomunhões, milagres, ídolos, relíquias e uma liturgia televisiva permanente. Há heróis nacionais com chuteiras, há treinadores tratados como generais romanos, há jogadores convertidos em património emocional colectivo.

Nada disto seria dramático se, ao lado desse reconhecimento, existisse igual reverência pela inteligência, pela ciência, pela invenção, pelo ensino, pela produção, pelo cuidado e pela coragem cívica. Mas não existe. Ou existe pouco. Demasiado pouco.

O investigador que descobre, o professor que forma, o médico que resiste, o técnico que mantém sistemas críticos vivos, o empresário que cria emprego real, o operário que domina o ofício, o agricultor que segura a terra, o cuidador que protege os frágeis, esses raramente ocupam o centro simbólico da nação. São úteis, naturalmente. Portugal gosta muito dos úteis, desde que não peçam reconhecimento, salário digno ou lugar no palco.

A sociedade civil tornou-se decorativa. É chamada para assistir, aplaudir, votar, pagar e, em dias especialmente generosos, participar numa consulta pública cujo destino já parece decidido antes de o primeiro cidadão escrever a primeira frase.

A Pátria entre o Fado e o Futebol

Portugal continua suspenso entre o fado e o futebol: entre a melancolia cantada e a euforia televisiva. De um lado, a saudade organizada; do outro, a catarse colectiva. Pelo meio, uma sociedade que tem dificuldade em transformar tristeza em projecto e entusiasmo em construção.

O fado ensina-nos a beleza da perda. O futebol ensina-nos a vertigem da vitória. Mas falta-nos, demasiadas vezes, a cultura da obra persistente, silenciosa e exigente. A cultura de construir durante décadas. A cultura de transformar conhecimento em indústria, escola em pensamento, liberdade em responsabilidade, território em riqueza, talento em soberania.

Somos capazes de cantar a dor e de celebrar o golo. Mas continuamos demasiado frágeis na arte adulta de organizar um país justo, competente e criador. Pequeno detalhe, claro. Quase nada. Só a diferença entre uma nação que se emociona e uma nação que se cumpre.

Talvez por isso tantas cerimónias oficiais pareçam atravessadas por uma espécie de necrologia patriótica. Fala-se dos mortos, das datas, das glórias, das memórias, dos símbolos, das figuras, das medalhas. Tudo legítimo. Tudo necessário, até certo ponto. Mas onde está a pergunta viva? Onde está a exigência? Onde está o sobressalto? Onde está o país que se recusa a ficar embalsamado em discursos?

A Elite que se Medalha a Si Própria

Há em Portugal uma velha tendência para a celebração circular das elites. A elite política, administrativa, económica, cultural e institucional encontra-se, distingue-se, saúda-se, condecora-se, inaugura-se e fotografa-se. Tudo com muita dignidade, naturalmente. A dignidade, neste país, é muitas vezes uma palavra que aparece quando falta coragem.

O povo fica à parte. Agora com liberdade, sim. Com voto, sim. Com televisão, redes sociais, jornais, manifestações e pluralismo, sim. Mas muitas vezes sem pão suficiente, sem habitação acessível, sem poder real, sem presença efectiva nas decisões que lhe moldam a vida.

Mudou o regime, mudou a linguagem, mudou o protocolo, mudou a decoração institucional. Mas por vezes permanece uma sombra antiga: a ideia de que o país se governa de cima, se explica de cima, se comemora de cima e se distribui simbolicamente de cima.

Abril prometeu outra coisa.

Abril prometeu que o povo deixaria de ser cenário. Prometeu que o cidadão deixaria de ser figurante. Prometeu que a liberdade não seria apenas o direito de assistir à cerimónia, mas a possibilidade real de participar na construção do país.

E é aqui que a ferida se abre: há portugueses que sentem que aquele país oficial não é o país que Abril prometeu. Sentem-no no preço da casa. No salário que não chega. No filho que parte. No hospital que demora. Na justiça que se arrasta. Na escola que se desgasta. Na repartição que humilha. Na política que gira sobre si própria como uma máquina de produzir lugares, explicações e desilusões.

A Liberdade sem Chão

A liberdade é uma conquista imensa. Mas a liberdade sem chão torna-se frágil. Um homem livre que não consegue pagar casa vive numa liberdade amputada. Uma família livre que trabalha e não consegue viver com dignidade habita uma democracia incompleta. Um jovem livre que emigra por não encontrar futuro no seu país carrega no passaporte uma acusação silenciosa contra a nação que o formou.

O povo português tem hoje liberdade. Mas uma parte dele continua sem pão suficiente, sem habitação digna, sem estabilidade, sem reconhecimento e sem horizonte. E uma democracia que permite essa distância entre promessa e vida concreta começa a parecer-se demasiado com um palco bonito montado sobre alicerces cansados.

Não é nostalgia autoritária dizer isto. Pelo contrário. É precisamente por valorizarmos Abril que devemos recusar a sua transformação em relíquia decorativa. Abril não pode servir apenas para discursos de aniversário. Não pode ser apenas cravo, memória e frase bonita. Abril tem de ser casa, salário, escola, saúde, justiça, cultura, participação, competência e futuro.

Caso contrário, arriscamo-nos a ter uma democracia formalmente livre, mas socialmente resignada. Uma democracia onde o povo vota, mas não sente que decide. Onde fala, mas não sente que é escutado. Onde participa, mas apenas nas margens. Onde a liberdade existe, mas a vida continua estreita.

O Velho Cerimonial com Roupa Nova

O antigo regime tinha o seu cerimonial: a autoridade, a ordem, a pátria oficial, a reverência, o silêncio, a distância entre governantes e governados. Abril rompeu com esse mundo. Mas algumas mentalidades sobrevivem muito bem às revoluções. São como certas ervas daninhas institucionais: mudam de vaso, mas continuam a crescer.

Hoje há liberdade, imprensa livre, eleições, crítica, oposição e pluralismo. Isso é essencial e deve ser defendido sem ambiguidades. Mas também há uma persistente cultura de verticalidade, de deferência, de distância, de encenação. O poder ainda gosta demasiado de palco. E o povo ainda é demasiadas vezes convidado apenas para assistir.

A diferença é que agora o cerimonial já não veste a rigidez cinzenta do autoritarismo. Veste a linguagem democrática, a comunicação institucional, a modernidade gráfica, os painéis de debate, as conferências, os eventos, os relatórios, as estratégias, as agendas e as palavras novas para velhos vícios.

Chamam-lhe governação. Muitas vezes parece administração da continuidade. Chamam-lhe reforma. Muitas vezes parece rearrumação de cadeiras. Chamam-lhe visão estratégica. Muitas vezes parece PowerPoint com ambição importada e execução doméstica em modo sonâmbulo.

O Heroísmo que Falta Celebrar

Um país adulto precisa de alargar a sua ideia de heroísmo.

Herói não é apenas quem marca golos, levanta taças ou vence campeonatos. Herói é também quem ensina uma criança a pensar. Quem trata um doente com humanidade. Quem desenvolve tecnologia num país que tantas vezes prefere importar soluções e exportar talento. Quem investiga em silêncio. Quem cuida dos idosos. Quem mantém uma empresa viva sem se ajoelhar perante a chico-espertice. Quem denuncia abusos. Quem preserva a integridade quando tudo à volta convida à desistência moral.

Herói é quem constrói país sem precisar de pedestal.

E talvez o drama português seja este: celebramos muito os que brilham no espectáculo e pouco os que sustentam a civilização. Como se a nação fosse feita apenas de emoção, bandeiras e golos, e não também de laboratórios, oficinas, escolas, hospitais, bibliotecas, explorações agrícolas, empresas, tribunais, servidores informáticos, redes eléctricas, transportes, cuidadores e cidadãos lúcidos.

O futebol dá alegria. O país precisa dela. Mas a alegria não substitui justiça. A vitória desportiva não substitui habitação. A glória internacional de um atleta não substitui a ausência de uma estratégia nacional de desenvolvimento. A lágrima no hino não substitui a coragem política.

O País que Abril Prometeu

O país que Abril prometeu não era um país perfeito. Nenhuma revolução séria promete o paraíso sem vender também alguma ilusão pelo caminho. Mas Abril prometeu uma ruptura com a submissão. Prometeu uma cidadania mais adulta. Prometeu que o povo deixaria de ser administrado como massa silenciosa.

E, no entanto, muitos portugueses sentem hoje que continuam fora da sala onde se decide o essencial. Chamam-nos para votar, naturalmente. Chamam-nos para pagar, constantemente. Chamam-nos para aplaudir, quando convém. Mas raramente são chamados para participar a sério na construção de um projecto nacional.

A democracia portuguesa precisa de deixar de tratar o povo como plateia. Precisa de o reconhecer como autor. Não apenas como eleitor. Não apenas como contribuinte. Não apenas como consumidor de serviços públicos. Autor.

Porque uma nação não é apenas um Estado, um Governo, uma bandeira, uma selecção nacional, uma cerimónia ou uma elite institucional. Uma nação é uma comunidade de destino. E quando essa comunidade sente que o destino lhe é servido já cozinhado por outros, começa a retirar-se interiormente. Continua presente no mapa, mas ausente da esperança.

Do País Espectador ao País Autor

Portugal precisa de passar do país espectador ao país autor.

Precisa de celebrar menos a encenação e mais a criação. Menos a medalha e mais o mérito. Menos o gabinete e mais a obra. Menos a liturgia e mais a consequência. Menos a saudade e mais a vontade.

Não se trata de rejeitar a memória. Seria absurdo. Um povo sem memória é uma criatura sem profundidade, pronta a acreditar em qualquer vendedor de futuros instantâneos. Mas a memória só é digna quando alimenta futuro. Quando se transforma em exigência. Quando impede a repetição da pequenez.

Camões não precisa de mais discursos vazios. Precisa de um país que saiba ler, pensar e criar. Abril não precisa de mais cravos protocolares. Precisa de uma democracia que chegue à vida concreta. Portugal não precisa de mais elites a celebrar-se entre si. Precisa de um povo colocado no centro da construção nacional.

E o futebol, por mais belo que seja, não pode continuar a ser o principal lugar onde Portugal imagina grandeza. A grandeza de um país mede-se também pela forma como trata os seus velhos, forma os seus jovens, protege os seus frágeis, recompensa o seu trabalho, organiza a sua justiça, cuida da sua saúde, liberta a sua escola e transforma talento em futuro.

Que Portugal deixe de ser apenas uma saudade bem escrita
e volte a ser uma vontade bem construída.

Nota Final

No Dia de Portugal, talvez devêssemos ter a coragem de fazer uma pergunta simples, brutal e necessária:

O que fizemos, afinal, da liberdade que Abril nos entregou?

Se a resposta for apenas cerimónia, futebol, fado, medalhas e discursos, então estamos a falhar. Não por falta de passado, mas por falta de futuro. Não por falta de talento, mas por falta de organização. Não por falta de povo, mas por excesso de elites convencidas de que representar o país é o mesmo que se representarem a si próprias diante do país.

Portugal ainda tem brasas debaixo da cinza. Há gente capaz, honesta, criadora, exigente e livre. Há professores que resistem, médicos que cuidam, cientistas que investigam, técnicos que constroem, trabalhadores que sustentam, jovens que ainda querem acreditar, emigrantes que continuam ligados à terra, cidadãos que não desistiram.

Talvez falte apenas isto: deixar de tratar essa gente como ruído de fundo e começar a reconhecê-la como a verdadeira matéria da nação.

Um país que põe o povo na bancada e a elite no palco pode ter liberdade. Mas ainda não cumpriu a democracia.

Referências editoriais: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas; Revolução de 25 de Abril de 1974; Assembleia Constituinte; Constituição da República Portuguesa de 1976; reflexão crítica sobre cidadania, sociedade civil, representação democrática e cultura pública portuguesa.

Texto: Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e conceptual: Augustus Veritas.
Publicação: Fragmentos do Caos

Nota Editorial

Portugal vive partido em dois: um país em nuvem, onde os políticos se celebram; e um país no chão, onde o povo trabalha, paga, espera e resiste.

A magistrada Maria José Morgado resumiu, com uma dureza quase cirúrgica, uma das grandes doenças morais da República portuguesa: há políticos que entram pobres na vida pública e, ao fim de alguns anos, aparecem milionários. A formulação, noticiada pela RTP, referia a existência de "políticos pobres que ao fim de uns anos estão milionários", no contexto da defesa de uma lei contra o enriquecimento ilícito.

Não é a riqueza que ofende. O que ofende é a suspeita de riqueza fabricada à sombra do Estado, do cargo, da influência, da informação privilegiada, dos ajustes convenientes, das portas giratórias e dessa maravilhosa engenharia nacional onde o serviço público, por vezes, parece transformar-se numa rampa privada de acumulação patrimonial.

Isto define bem a pequenez de certa gente que governa um povo muito maior do que ela. Um povo que trabalhou, emigrou, construiu, pagou impostos, criou filhos, enterrou pais, suportou crises, bancos falidos, promessas recicladas, austeridades, burocracias e discursos sobre sacrifício vindos, frequentemente, de quem nunca sacrificou grande coisa para lá da paciência alheia.

Naturalmente, nem todos os políticos são iguais. Ainda há gente séria na vida pública. Mas a podridão, quando se instala, não precisa de maioria. Basta-lhe ocupar os lugares certos, calar as perguntas certas e proteger os interesses certos.

A política devia ser missão, serviço e responsabilidade. Quando se transforma em carreira de extracção, deixa de servir a República e passa a alimentar uma pequena aristocracia de ocasião, muito hábil a falar em povo enquanto administra, com notável eficiência, o seu próprio futuro.

Uma República onde alguns entram pobres na política e saem inexplicavelmente ricos não falha apenas na ética. Falha na dignidade perante o povo que diz representar.

Referência editorial: declarações de Maria José Morgado noticiadas pela RTP em Março de 2009 sobre enriquecimento ilícito e políticos que, entrando pobres na vida pública, surgem anos depois milionários.

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