Portugal: "É Isto a Democracia?"

BOX DE FACTOS
- José Saramago deixou uma pergunta que continua a ferir a consciência pública: "É isto a democracia?"
- A democracia não pode ser apenas voto periódico, marketing político e gestão de aparências.
- Quando a corrupção se repete, a justiça demora e o povo fica reduzido a espectador, a pergunta torna-se inevitável.
É Isto a Democracia?
José Saramago tinha o dom terrível de transformar uma frase simples numa pedra lançada contra a vitrina limpa das certezas oficiais.
"É isto a democracia?"
A pergunta parece pequena. Mas dentro dela cabe um país inteiro.
Cabe o cidadão que vota e depois desaparece da vida pública, reduzido a contribuinte, utente, número de processo, senha de atendimento e espectador cansado de debates onde tudo muda de tom para que nada mude de fundo.
Cabe a política transformada em carreira, os partidos transformados em máquinas, os aparelhos transformados em destino, as promessas transformadas em anúncios, os escândalos transformados em casos isolados e a vergonha transformada em comunicado sereno.
Há eleições. Há parlamento. Há tribunais. Há imprensa. Há instituições. Há discursos sobre Estado de direito. Há cerimónias, bandeiras, datas históricas, cravos em lapelas e palavras graves ditas com o ar certo.
Mas uma democracia não vive apenas de forma.
Vive de substância.
Vive de participação real, de justiça célere, de igualdade perante a lei, de responsabilidade política, de transparência, de vergonha pública e de um povo que não seja chamado apenas para legitimar, de tempos a tempos, aquilo que depois não controla.
Quando a corrupção se repete, quando as buscas se tornam rotina, quando os poderosos se protegem por entre recursos, prescrições e silêncios cúmplices, quando a pobreza é administrada em vez de combatida e quando a inteligência crítica é tratada como incómodo, a pergunta regressa.
O voto é indispensável. Mas o voto sem participação é pouco. O voto sem justiça é frágil. O voto sem responsabilidade é teatro. O voto sem povo entre eleições é apenas uma autorização temporária concedida a profissionais da permanência.
Talvez Saramago incomodasse tanto porque não aceitava confundir democracia com coreografia institucional.
E talvez a pergunta continue viva porque Portugal continua a dar-lhe demasiadas razões para respirar.
Uma democracia digna desse nome não deve temer esta pergunta.
Deve temer apenas não conseguir respondê-la.
Referência
- Correio da Manhã — entrevista a José Saramago, "Já não celebro o 25 de Abril": consultar entrevista
Fragmentos do Caos
Texto de Francisco Gonçalves .
Porque a democracia não se mede apenas pelas urnas que abre, mas pelas consciências que não consegue calar.