A Cegueira que Governa Portugal

Quando a produtividade é confundida com sermão, e o trabalho com penitência nacional

Fragmentos do Caos

Há frases políticas que não são apenas frases. São radiografias. Mostram, com uma crueldade involuntária, o esqueleto mental de quem governa. Quando um primeiro-ministro diz aos portugueses que é preciso baixar impostos sobre o trabalho, mas que os portugueses têm de trabalhar mais e ser mais produtivos, não está apenas a defender uma política económica. Está a revelar uma forma de olhar para o país.

E que olhar é esse?

É o olhar de quem confunde o trabalhador com uma variável de Excel. É o olhar de quem vê a produtividade como uma espécie de virtude moral, não como resultado de investimento, tecnologia, organização, gestão, educação, capitalização empresarial, justiça eficiente, Estado simples e estratégia económica. É o olhar de quem acredita que um país pobre em salários, cansado em horas, desiludido em expectativas e esvaziado de jovens qualificados precisa sobretudo de uma palestra sobre esforço.

Segundo o próprio Portal do Governo, Luís Montenegro afirmou que "vale a pena trabalhar e vale a pena trabalhar mais porque o retorno do seu esforço é maior", enquadrando essa ideia na redução do IRS, na fiscalidade sobre o trabalho, nos incentivos ao desempenho e na necessidade de tornar Portugal mais produtivo e inovador.

A frase podia parecer apenas uma fórmula política. Mas em Portugal, onde a realidade gosta de desmentir slogans com a elegância de uma parede de betão, ela torna-se sintoma de uma cegueira mais profunda.

O mito cansado do povo que não trabalha

Portugal não é improdutivo porque os portugueses sejam preguiçosos. Essa caricatura é cómoda, antiga e profundamente injusta. Portugal é improdutivo porque tem uma estrutura económica frágil, empresas demasiado pequenas, capital escasso, gestão frequentemente amadora, baixa incorporação tecnológica, pouca inovação aplicada, burocracia pesada, justiça lenta, habitação absurda, salários que expulsam talento e um Estado que muitas vezes funciona como uma máquina de desgaste em vez de uma plataforma de desenvolvimento.

Mas dizer isto exige coragem. Exige enfrentar interesses instalados. Exige dizer às empresas que algumas não têm um problema de trabalhadores, têm um problema de gestão. Exige dizer ao Estado que a produtividade também se perde em licenças, pareceres, autorizações, portais que falham, organismos duplicados e funcionários atirados para sistemas informáticos desenhados por alguém que aparentemente odeia a espécie humana.

Exige dizer à elite política que cinquenta anos de fundos europeus não criaram uma economia robusta porque o país confundiu infra-estrutura com desenvolvimento e despesa com visão.

Muito mais fácil é dizer: trabalhem mais.

A frase é simples, directa, moralmente confortável. Tem aquele aroma antigo de sermão dominical misturado com consultoria barata. O povo ouve, baixa a cabeça e pensa talvez que a culpa é sua. Trabalhou, mas devia ter trabalhado mais. Produziu, mas devia ter produzido melhor. Pagou impostos, mas devia ter agradecido. Viu os filhos emigrar, mas devia ter sido mais resiliente. Aguentou rendas impossíveis, transportes degradados, serviços públicos exaustos, salários baixos e burocracias humilhantes, mas afinal faltou-lhe entusiasmo competitivo.

Que maravilha. O país falha por cima, mas a factura desce sempre para baixo.

Produtividade não é suor: é valor por hora

A cegueira que governa Portugal nasce precisamente daqui: da incapacidade crónica de distinguir esforço individual de modelo colectivo. Um trabalhador pode esforçar-se imenso dentro de uma empresa mal gerida e continuar a produzir pouco valor por hora. Um país inteiro pode trabalhar muitas horas e continuar pobre se estiver preso a sectores de baixo valor acrescentado.

Produtividade não é suor. Produtividade é valor criado por unidade de tempo. É fazer melhor, não apenas fazer mais. É produzir conhecimento, tecnologia, escala, processos inteligentes, marcas fortes, exportações sofisticadas, serviços avançados, indústria moderna, ciência aplicada, dados úteis, energia competitiva, justiça previsível e administração pública funcional.

Produtividade é quando uma hora de trabalho deixa de ser apenas esforço e passa a ser multiplicada por capital, organização e inteligência.

A OCDE tem sido clara neste diagnóstico. No seu Economic Survey Portugal 2026, assinala que a produtividade laboral portuguesa permanece cerca de 17% abaixo da média da OCDE. Aponta ainda que uma parte significativa do emprego na economia empresarial está concentrada em microempresas, muitas vezes com falta de competências profissionais de gestão e baixo investimento em tecnologia e inovação.

Ou seja: o problema não está no trabalhador que chega cedo, sai tarde e ainda leva o cansaço para casa. O problema está num sistema produtivo que frequentemente transforma esforço humano em baixo valor económico.

A moral do sacrifício como política económica

Em Portugal insiste-se demasiado na moral do sacrifício. A velha ladainha: o povo tem de se adaptar, o trabalhador tem de ser flexível, os jovens têm de aceitar mobilidade, os mais velhos têm de se actualizar, os pobres têm de esperar, os doentes têm de compreender, os contribuintes têm de pagar, os emigrados têm de voltar, os professores têm de aguentar, os médicos têm de resistir, os empresários sérios têm de sobreviver e os cidadãos têm de acreditar.

Enquanto isso, a máquina política continua a produzir slogans como quem fabrica enchidos discursivos.

A baixa de impostos sobre o trabalho pode ser necessária. Aliás, é necessária. Um país que taxa fortemente rendimentos baixos e médios está a penalizar a sua própria base produtiva. Reduzir IRS pode aliviar famílias, melhorar incentivos e devolver algum oxigénio a quem trabalha.

Mas não basta.

Baixar impostos sem transformar a economia é como abrir a janela de uma casa a arder e anunciar uma política pública de ventilação.

O problema está na confusão entre alívio fiscal e estratégia produtiva. Menos impostos podem ajudar. Mas não criam, por si só, empresas inovadoras. Não reformam tribunais. Não modernizam administrações. Não aumentam escala empresarial. Não tornam gestores competentes. Não resolvem a habitação. Não impedem a emigração. Não constroem cadeias de valor. Não geram ciência aplicada. Não substituem capital. Não fazem nascer produtividade por milagre, como se o PIB fosse uma aparição de Fátima com relatório trimestral.

A reforma laboral e a velha tentação de culpar o trabalhador

O Governo tem apresentado a reforma laboral como parte da resposta à baixa produtividade, à competitividade e à necessidade de adaptação da economia. A Reuters noticiou que a proposta mexia em mais de uma centena de artigos do Código do Trabalho e incluía medidas como facilitar despedimentos com justa causa, permitir compensação em vez de reintegração em certos casos de despedimento ilegal e flexibilizar regras de outsourcing.

Os sindicatos criticaram a proposta por poder fragilizar direitos laborais e aumentar insegurança. O Governo defendeu-a como instrumento de modernização e competitividade. Eis a velha tragédia portuguesa: sempre que o país fala de produtividade, aparece alguém a descobrir que o problema pode ser resolvido tornando o trabalhador mais frágil.

Mas uma economia moderna não nasce do medo. Pode nascer algum lucro temporário do medo, alguma margem artificial, alguma compressão salarial, algum gráfico satisfeito. Mas não nasce produtividade verdadeira de trabalhadores inseguros, mal pagos, sem casa, sem tempo, sem formação e sem horizonte.

Flexibilizar trabalhadores é fácil. Transformar o modelo produtivo é difícil. E Portugal, fiel à sua vocação histórica para escolher a porta errada com solenidade, continua frequentemente a preferir o fácil.

Trabalhar melhor exige governar melhor

Portugal precisa de trabalhar melhor, não apenas mais. E trabalhar melhor significa governar melhor.

Significa ter políticas industriais inteligentes. Significa apostar em tecnologias abertas, inteligência artificial, automação, energia, biotecnologia, semicondutores, cibersegurança, mar, espaço, saúde digital, agricultura de precisão, robótica e software. Significa ligar universidades a empresas sem transformar a inovação num labirinto de candidaturas. Significa que os fundos europeus devem criar capacidade produtiva duradoura, não apenas consultorias, rotundas, programas-piloto e relatórios com fotografias de ministros.

Significa também reformar a gestão pública. Um Estado moderno não é um Estado que muda o logotipo do portal. É um Estado que responde, cruza dados, elimina redundâncias, mede resultados, responsabiliza chefias e trata cidadãos e empresas como entidades adultas.

Portugal fala muito de digitalização, mas ainda confunde frequentemente desmaterializar papel com transformar processos. Digitalizar a estupidez é apenas tornar a estupidez mais rápida, e por vezes nem isso conseguem.

A improdutividade do próprio sistema

A cegueira governativa está em pedir produtividade aos portugueses sem olhar para a improdutividade do próprio sistema. Está em exigir flexibilidade ao trabalhador enquanto o Estado continua rígido. Está em pedir ambição aos jovens enquanto lhes oferece rendas impossíveis. Está em pedir inovação às empresas enquanto as enterra em burocracia. Está em pedir investimento enquanto mantém justiça lenta e custos de contexto elevados. Está em pedir mérito enquanto preserva redes de influência, nomeações convenientes e carreiras políticas em circuito fechado.

Há aqui uma inversão moral obscena: o cidadão é sempre chamado a corrigir as falhas do sistema, mas o sistema raramente se responsabiliza pelo que faz ao cidadão.

A Comissão Europeia, nos documentos do Semestre Europeu para Portugal, assinala fragilidades persistentes relacionadas com competências, qualificações e desajustamentos no mercado de trabalho que limitam a produtividade. A OCDE, por seu lado, insiste na necessidade de melhorar formação ao longo da vida, gestão de competências, investimento, inovação e eficiência do Estado.

Nada disto se resolve com sermões. Resolve-se com arquitectura económica.

O país que desperdiça inteligência

Portugal tem inteligência. Tem técnicos. Tem investigadores. Tem programadores. Tem engenheiros. Tem médicos. Tem professores. Tem trabalhadores competentes. Tem empresários sérios. Tem jovens brilhantes que não querem discursos sobre esforço; querem condições para não terem de escolher entre dignidade e aeroporto.

A tragédia é que o país continua a governar-se como se o século XXI fosse uma versão com fibra óptica do século XX. Fala-se de inovação, mas protege-se a rotina. Fala-se de produtividade, mas tolera-se má gestão. Fala-se de mérito, mas recompensa-se proximidade. Fala-se de crescimento, mas continua-se dependente de turismo, imobiliário, baixos salários e fundos europeus. Fala-se de futuro, mas administra-se o presente como quem gere uma mercearia cansada.

A cegueira que governa Portugal não é falta de olhos. É falta de visão.

Olhos há muitos. Câmaras, gabinetes, assessores, estudos, comissões, observatórios, institutos, relatórios, dashboards, conferências, cimeiras e discursos. Visão é outra coisa.

Visão é perceber que produtividade não se exige como penitência; constrói-se como sistema. Visão é compreender que o trabalhador português não é o problema central. É muitas vezes a vítima mais visível de um modelo económico estreito, de uma elite política previsível e de uma estrutura empresarial que demasiadas vezes quer competitividade sem transformação.

Uma nova gramática económica

Portugal precisa de uma nova gramática económica. Uma que substitua a moral do esforço pela inteligência da criação de valor. Uma que deixe de tratar salários apenas como custo e passe a vê-los também como consequência e motor de produtividade real. Uma que entenda que baixar impostos é útil, mas insuficiente.

Sem educação exigente, formação contínua, tecnologia, capital, justiça eficiente, boa gestão, energia competitiva, escala empresarial e Estado simples, não há milagre fiscal que nos salve.

Trabalhar mais pode ser necessário em certos momentos. Mas quando um país passa décadas a dizer ao povo que tem de trabalhar mais, talvez o problema já não esteja no povo.

Talvez esteja em quem governa, em quem gere, em quem decide, em quem desperdiça, em quem captura, em quem promete e em quem nunca responde pelo fracasso.

Menos sermões, mais cabeça

Portugal não precisa de mais sermões sobre produtividade.

Precisa de menos cegueira no poder.

Precisa de um Estado que não seja obstáculo, de empresas que não tenham medo da modernidade, de políticos que não confundam slogan com estratégia e de uma sociedade que pare de aceitar que a culpa desça sempre para quem trabalha.

Porque há uma coisa que os governantes parecem esquecer: os portugueses já trabalham. Muitos trabalham muito. O que falta é um país que saiba fazer valer esse trabalho.

E essa, pelos vistos, continua a ser a parte mais difícil.

Não por falta de braços.

Por falta de cabeça.


Por : Francisco Gonçalves
Porque é a ausência de bom-senso e de vergonha, que mais fazem falta a Portugal.
© Fragmentos do Caos 2026

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