O Ocidente, Israel e a Paz Impossível Enquanto as Milícias Mandarem nos Estados

BOX DE FACTOS
- A Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 2006, apelou ao fim das hostilidades entre Israel e Hezbollah, ao reforço da UNIFIL e ao controlo do sul do Líbano pelo Estado libanês.
- A mesma arquitectura diplomática defendia que não deveriam existir armas nem autoridade no Líbano fora do Estado libanês.
- Hamas e Hezbollah constam da lista norte-americana de Foreign Terrorist Organizations do Departamento de Estado dos EUA.
- A Reuters noticiou que Israel tem negociado com os EUA a possibilidade de manter presença militar no sul do Líbano por razões de segurança.
- A União Europeia apelou ao fim das acções militares, à retirada do Hezbollah do sector a sul do Litani e à retirada de Israel do território libanês.
- A Associated Press noticiou a fragilidade do cessar-fogo entre Israel e Líbano e as tentativas de retomar negociações para um acordo mais amplo.
O Ocidente, Israel e a Paz Impossível Enquanto as Milícias Mandarem nos Estados
Há uma estranha facilidade moral no Ocidente contemporâneo: condenar Israel é rápido, quase automático, por vezes até performativo; enfrentar as estruturas armadas que mantêm o Médio Oriente em estado permanente de combustão é mais lento, mais incómodo e muito menos fotogénico.
A Europa e parte do Ocidente tornaram-se especialistas em comunicados. Condenam, lamentam, apelam, exortam, reiteram, sublinham, manifestam profunda preocupação e, terminado o exercício literário, regressam à confortável distância das chancelarias. É uma forma curiosa de diplomacia: muita gramática, pouca coragem. Uma espécie de bombeiro que escreve poemas à frente da casa em chamas.
O problema é que Israel não vive dentro de um comunicado. Vive cercado por ameaças reais, por organizações armadas, por grupos financiados e treinados por potências regionais, por túneis, mísseis, drones, arsenais escondidos em zonas civis e milícias que falam em resistência enquanto mantêm populações inteiras como escudo, reféns e argumento propagandístico.
Nada disto apaga o sofrimento dos civis palestinianos. Nada disto apaga a tragédia dos libaneses que vêem o seu país arrastado para guerras que não escolheram. Nada disto absolve automaticamente todas as decisões militares de Israel. Mas também nada disto permite a fraude moral de tratar Israel como o único actor responsável pela instabilidade da região.
Porque não é.
O Líbano: um Estado usurpado por uma força armada
O Hamas não é um mal-entendido político. O Hezbollah não é uma associação de bairro com uma ala militar um pouco entusiasmada. São organizações armadas, ideológicas, estruturadas, apoiadas por redes externas, capazes de sequestrar territórios, destruir a soberania de Estados frágeis e transformar civis em matéria-prima da guerra.
O Líbano é o exemplo trágico dessa realidade. Um país antigo, culto, cosmopolita, belíssimo, atravessado por comunidades diversas e por uma história rica, foi sendo progressivamente convertido num Estado diminuído, condicionado e usurpado por uma força armada que não responde plenamente ao Estado libanês.
O Hezbollah é, em muitos aspectos, um Estado dentro do Estado. E quando uma milícia armada tem mais capacidade militar efectiva do que as instituições nacionais, a soberania deixa de ser conceito político e passa a ser decoração constitucional.
A Resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em 2006, apontava para uma ideia simples: não deveria haver no Líbano autoridade armada fora do Estado libanês; a zona entre a Linha Azul e o rio Litani deveria estar livre de forças armadas não autorizadas; e o desarmamento dos grupos armados deveria ser parte essencial da estabilização do país.
Quase duas décadas depois, a realidade continua a rir-se do papel. O papel aguenta tudo. Os civis é que não.
A hipocrisia diplomática ocidental
Aqui entra a hipocrisia ocidental. Quando Israel responde militarmente, a condenação chega depressa. Quando o Hezbollah se rearma, entrincheira, instrumentaliza o Líbano e ameaça Israel, a linguagem torna-se subitamente mais prudente, mais redonda, mais cobarde.
O Ocidente, que tanto gosta de falar de soberania, parece sofrer de timidez selectiva quando a soberania libanesa é violada por uma milícia apoiada pelo Irão. A palavra "soberania" serve muito bem em conferências, tratados e discursos. Fica bonita. Tem gravidade. Mas perde subitamente peso quando obriga a enfrentar organizações armadas reais.
A pergunta essencial é esta: como pode haver paz se um Estado não controla as armas no seu próprio território?
Como pode o Líbano ser verdadeiramente soberano se uma força armada decide, por cálculo próprio ou por interesse externo, quando arrastar o país para a guerra?
Como pode Israel aceitar a sua segurança entregue à boa vontade de grupos que não reconhecem plenamente o seu direito a existir em segurança?
E como pode a Europa pretender ser actor moral quando condena os efeitos da guerra, mas hesita perante as suas causas?
Hamas: a tragédia palestiniana sequestrada
O mesmo raciocínio aplica-se ao Hamas. Gaza não foi apenas palco de sofrimento. Foi também território capturado por uma organização que transformou a causa palestiniana numa máquina de guerra, repressão interna, fanatismo ideológico e martírio administrado.
O povo palestiniano tem direito a dignidade, Estado, liberdade e futuro. Mas esse futuro jamais será construído por uma organização que investe em túneis, foguetes, doutrinação e morte, enquanto a população civil paga o preço em ruínas, luto e desespero.
É esta a tragédia moral que muitos se recusam a enfrentar: defender os direitos dos palestinianos exige também libertá-los do Hamas. Defender o Líbano exige também libertá-lo do Hezbollah. Defender a paz exige desarmar quem vive politicamente da guerra.
Mas isso é mais difícil do que gritar contra Israel numa praça europeia.
A realidade não cabe no teatro moral europeu
A Europa gosta de causas limpas, narrativas simples e vítimas sem contradições. O Médio Oriente, infelizmente, não cabe nesse teatrinho moral. Há sofrimento real dos civis palestinianos. Há sofrimento real dos civis libaneses. Há medo real dos civis israelitas. Há terrorismo real. Há ocupação, história, trauma, fanatismo, geopolítica, religião, poder, dinheiro, armas e propaganda.
Tudo ao mesmo tempo, como se a realidade tivesse decidido escrever o seu próprio labirinto.
Por isso, qualquer análise séria tem de recusar duas cegueiras.
A primeira cegueira é a que transforma Israel num actor sempre inocente, imune a crítica, incapaz de erro, excesso ou abuso. Isso não é análise. É idolatria política.
A segunda cegueira, hoje muito mais elegante nas capitais europeias, é a que transforma Israel no culpado universal, apagando o papel do Hamas, do Hezbollah, do Irão e das redes terroristas que alimentam a guerra permanente. Isso também não é análise. É cobardia com perfume humanitário.
O caminho sério é outro.
Segurança de Israel e dignidade palestiniana não são incompatíveis
Israel tem direito à sua segurança. Os palestinianos têm direito à sua dignidade e a uma solução política real. O Líbano tem direito a recuperar a soberania sequestrada. Os civis, de todos os lados, têm direito a não viver debaixo de foguetes, bombardeamentos, túneis, ruínas e discursos inflamados.
Mas nada disto será possível enquanto milícias armadas continuarem a dominar territórios, capturar Estados e funcionar como extensões regionais de potências externas.
O Ocidente tem, portanto, uma escolha.
Pode continuar no teatro habitual: condena Israel quando há imagens insuportáveis, lamenta os mortos, pede contenção, promete ajuda humanitária, faz reuniões, emite comunicados e depois regressa à sua velha passividade estratégica.
Ou pode, finalmente, agir sobre a raiz do problema: cortar redes de financiamento, impedir o rearmamento, pressionar seriamente o Irão, reforçar instituições estatais legítimas, apoiar o Exército libanês como força nacional, exigir o desarmamento efectivo do Hezbollah, impedir que o Hamas volte a capturar Gaza e construir uma arquitectura regional onde a segurança de Israel e a dignidade palestiniana não sejam tratadas como objectivos incompatíveis.
Porque não são incompatíveis.
O que é incompatível com a paz
O que é incompatível com a paz é fingir que organizações terroristas podem ser integradas eternamente no cenário político sem consequências.
O que é incompatível com a paz é aceitar Estados falhados ou capturados como se fossem normalidade regional.
O que é incompatível com a paz é exigir contenção a Israel sem exigir desarmamento aos que o atacam.
O que é incompatível com a paz é chorar os mortos apenas depois de se ter tolerado, durante anos, a máquina que os produz.
A paz não nascerá de slogans. Não nascerá de manifestações emocionais. Não nascerá de comunicados europeus escritos em linguagem de veludo diplomático. A paz nascerá, se nascer, quando houver coragem para enfrentar os actores armados que vivem da guerra e para reconstruir Estados capazes de proteger os seus próprios cidadãos.
Epílogo: menos milícias, mais soberania
O Líbano precisa de Estado. Gaza precisa de libertação política e civil. Israel precisa de segurança. Os palestinianos precisam de futuro. A região precisa de menos mártires e mais instituições. Menos foguetes e mais escolas. Menos milícias e mais soberania. Menos fanáticos e mais estadistas.
E o Ocidente precisa de recuperar uma coisa antiga, hoje quase arqueológica: clareza moral.
Essa clareza não consiste em aplaudir tudo o que Israel faz. Também não consiste em condenar Israel para fugir à responsabilidade de enfrentar o terrorismo. Consiste em dizer, sem medo, que os civis não devem ser usados como escudos, que Estados não podem ser sequestrados por milícias, que o terrorismo não é resistência, que a segurança de Israel é legítima, que a dignidade palestiniana é necessária e que o Líbano não pode continuar refém de uma força armada que decide a guerra em nome de outros.
Enquanto isto não for dito e praticado, a paz continuará a ser apenas uma palavra bonita depositada sobre escombros.
E o Ocidente continuará a fazer aquilo que melhor sabe fazer nos dias de hoje: condenar as consequências daquilo que não teve coragem de impedir.
Referências internacionais
- United Nations Security Council — Resolution 1701 (2006), sobre Israel, Líbano, Hezbollah, UNIFIL e controlo do sul do Líbano: UN Security Council Resolution 1701
- Reuters — Israel em conversações com os EUA sobre a manutenção de presença militar no sul do Líbano: Reuters
- Reuters — Pressão dos EUA sobre o Líbano para uma decisão formal de desarmamento do Hezbollah: Reuters
- Reuters — Hezbollah rejeita plano de cessar-fogo e retirada do sul do Líbano: Reuters
- Associated Press — Explicação sobre o cessar-fogo Israel-Líbano e as negociações para acordo mais amplo: Associated Press
- Council of the European Union — Declaração da UE sobre Israel e Líbano, apelando ao fim das acções militares, à retirada do Hezbollah do sector a sul do Litani e à retirada de Israel do território libanês: Council of the European Union
- U.S. Department of State — Lista oficial de Foreign Terrorist Organizations, incluindo Hamas e Hezbollah: U.S. Department of State
- Council on Foreign Relations — Perfil analítico sobre o Hezbollah, o seu papel no Líbano e a ligação ao Irão: Council on Foreign Relations
Nota editorial: Este artigo não pretende negar o sofrimento de civis palestinianos, libaneses ou israelitas. Pelo contrário: parte precisamente da defesa dos civis para denunciar a hipocrisia de uma diplomacia ocidental que condena frequentemente os efeitos da guerra, mas hesita perante as causas que a tornam cíclica: milícias armadas, Estados capturados, terrorismo, financiamento externo e ausência de soberania efectiva.
Texto:
Francisco Gonçalves
Com apoio editorial de : Augustus Veritas
A verdade que as tribos não querem admitir é que a realidade não cabe nos seus slogans. Israel tem direito à segurança; os palestinianos têm direito à dignidade; o Líbano tem direito à soberania; e os civis de todos os lados têm direito a não serem usados como combustível da guerra. Mas nenhuma paz será possível enquanto milícias armadas, como o Hamas e o Hezbollah, continuarem a capturar povos, territórios e Estados em nome de uma guerra sem fim.