Portugal em Modo Esmola: tragicomédia nacional em vários actos e muitos recibos

O país do chapéu na mão, da festa no quintal e da estratégia integrada para justificar porque nada mudou. Uma fábula nacional para adultos cansados, contribuintes pacientes e futuros adiados.

Nota de abertura:
Portugal não tem problema em receber ajuda. O problema começa quando transforma a ajuda em rotina, a rotina em cultura e a cultura em desculpa. A Europa manda fundos, o país promete futuro, mas demasiadas vezes entrega remendos, inaugurações, consultorias, rotundas, discursos e uma nova temporada do fado do desgraçadinho.

Portugal descobriu há décadas uma forma muito original de estar no mundo: não como país adulto, estratégico, produtivo e responsável, mas como aquele primo afastado que aparece sempre à porta da Europa com uma expressão triste, uma pasta cheia de justificações e uma frase pronta:

"É só uma ajudinha, desta vez é que vai ser."

E a Europa, coitada, lá vai abrindo a carteira. Fundos para modernizar. Fundos para qualificar. Fundos para digitalizar. Fundos para recuperar. Fundos para resistir. Fundos para convergir. Fundos para inovar. Fundos para a floresta. Fundos para as cheias. Fundos para a seca. Fundos para a transição energética. Fundos para a transição digital. Fundos para a transição da transição, porque uma boa transição portuguesa nunca deve acabar antes de alimentar três gabinetes, cinco consultoras e uma cerimónia com croquetes.

Portugal recebe.

Portugal agradece.

Portugal promete.

Portugal recomeça.

E, passados uns anos, volta ao mesmo balcão europeu, de chapéu na mão e ar ofendido, como se o subdesenvolvimento fosse uma calamidade natural e não uma obra colectiva com direcção técnica, fiscalização duvidosa e inauguração ministerial.

O fado do desgraçadinho institucional

O verdadeiro fado nacional já não é o da saudade.

É o fado do desgraçadinho.

Aquele fado em que o país canta, com voz trémula, que é pequeno, periférico, velho, pobre, injustiçado, abandonado, ardido, inundado, endividado, mal amado pela produtividade e traído pela geografia.

A letra muda pouco:

"Ai Europa, que eu sou tão pobre,
ai fundos, que eu preciso tanto,
ai convergência, que estás longe,
ai produtividade, que desencanto."

Depois entra a guitarra portuguesa.

Entra a lágrima oficial.

Entra o primeiro-ministro de ocasião.

Entra o ministro das Finanças com ar de quem está a gerir uma mercearia durante uma tempestade bíblica.

Entra a conferência de imprensa.

Entra a palavra "resiliência", essa bengala verbal de quem não sabe resolver mas sabe aguentar.

E o país, comovido consigo próprio, declara:

"Não temos culpa. Somos assim."

Maravilhoso. A irresponsabilidade com acompanhamento musical.

A esmola como modelo económico

Convém esclarecer: o problema não é receber fundos europeus.

Países inteligentes recebem fundos, investem, modernizam, industrializam, qualificam, reformam, criam valor e depois ficam mais fortes.

Portugal, com aquele génio particular para complicar o simples, muitas vezes recebe fundos como quem recebe uma herança inesperada e decide logo remodelar a sala, comprar uma televisão enorme, pagar umas dívidas antigas, fazer uma rotunda nova, contratar uma consultoria estratégica e anunciar um programa com nome em inglês.

A ideia era construir futuro.

Mas o futuro, esse ingrato, exige trabalho continuado.

E Portugal, quando ouve "trabalho continuado", sente logo uma ligeira indisposição burocrática.

Então inventou uma solução mais confortável: usar a ajuda externa não como trampolim, mas como almofada.

Não serve para saltar mais alto. Serve para cair menos depressa. Um feito atlético de sofá.

As grandes prioridades nacionais

Quando há dinheiro, o país divide-se entre várias prioridades estratégicas.

Primeira prioridade: fazer um plano.

Segunda prioridade: criar uma entidade para acompanhar o plano.

Terceira prioridade: criar uma plataforma digital onde ninguém consegue entrar sem recuperar a senha três vezes e amaldiçoar a linhagem do Estado.

Quarta prioridade: organizar uma sessão pública sobre o impacto do plano.

Quinta prioridade: contratar estudos para avaliar se o plano está alinhado com outros planos.

Sexta prioridade: perceber que o prazo europeu está a acabar.

Sétima prioridade: gastar depressa.

O resultado é uma espécie de atletismo administrativo: os primeiros anos são aquecimento, os últimos meses são corrida desesperada para executar verbas antes que Bruxelas faça perguntas desagradáveis, essa mania irritante dos financiadores de querer saber onde foi parar o dinheiro.

O país que confunde betão com desenvolvimento

Portugal tem uma relação sentimental com o betão.

Quando não sabe o que fazer, constrói.

Constrói estradas onde faltam empresas.

Constrói rotundas onde faltam médicos.

Constrói pavilhões onde faltam alunos.

Constrói centros interpretativos onde falta economia real.

Constrói equipamentos que depois não sabe manter.

Constrói edifícios bonitos para serviços que continuam lentos.

É uma fé profunda: se houver uma placa, uma fita e uma fotografia, talvez o desenvolvimento apareça por osmose.

O problema é que o desenvolvimento, ao contrário dos ministros, não aparece só porque há inauguração.

Um país desenvolvido não é um país cheio de obras. É um país onde as obras servem uma estratégia.

Portugal, muitas vezes, fez o contrário: transformou a estratégia numa desculpa para a obra.

O turismo, essa vaca sagrada de chinelos

Depois há o turismo.

Portugal tornou-se especialista em vender sol, simpatia, sardinhas, miradouros, azulejos, pastéis, rendas impossíveis e a ilusão de que o país está próspero porque há filas para entrar num eléctrico.

O turismo é importante, claro. Traz receita, emprego, visibilidade, movimento.

Mas quando um país se apoia demasiado no turismo, começa a transformar-se num cenário onde os habitantes locais são figurantes mal pagos.

Lisboa vira postal.

O Porto vira postal.

O Algarve vira postal.

A habitação vira alojamento.

O salário vira gorjeta com descontos.

A economia vira serviço de quarto.

E depois o país admira-se que os jovens não consigam viver nas cidades onde trabalham.

"Que estranho", diz a elite de copo na mão, enquanto explica que o mercado é dinâmico.

Dinâmico é o jovem a mudar de casa dos pais para o aeroporto.

Empresários de risco zero

Portugal também tem uma fauna económica fascinante: o empresário de risco zero.

É uma espécie muito particular. Em público, defende o mercado livre, a iniciativa privada, a redução do Estado e a flexibilidade laboral. Em privado, adora subsídios, incentivos, regimes especiais, perdões, garantias públicas, resgates discretos e contratos com o Estado.

É liberal até ao primeiro prejuízo.

Depois torna-se devoto da solidariedade nacional.

Quando há lucro, é mérito privado.

Quando há prejuízo, é problema sistémico.

Quando há dividendos, é empreendedorismo.

Quando há falência, é preciso proteger empregos.

Quando há impostos, o Estado é confiscatório.

Quando há apoios, o Estado é parceiro estratégico.

Uma beleza moral. Até dá vontade de mandar fazer uma estátua, desde que seja paga pelo contribuinte, naturalmente.

A banca, esse casino com bombeiros públicos

A banca portuguesa também nos deu lições inesquecíveis.

Durante anos, alguns bancos foram tratados como templos de seriedade, cheios de administradores graves, relatórios elegantes, auditorias suaves e discursos sobre confiança.

Depois, quando a coisa rebentava, descobria-se que afinal havia buracos, imparidades, operações obscuras, créditos amigos, offshore aqui, exposição ali, gestão criativa acolá.

E então entrava o cidadão comum.

Não para receber dividendos.

Para pagar a factura.

É o modelo nacional da socialização do desastre: quando tudo corre bem, a festa é privada; quando tudo corre mal, a conta é patriótica.

O contribuinte, esse animal doméstico do Estado, lá aparece sempre com o cartão multibanco moral.

O fisco dos mansos e dos poderosos

Portugal é também um país muito severo com quem não pode fugir.

O trabalhador por conta de outrem paga antes de ver o dinheiro. A pequena empresa declara até o ar que respira. O pensionista não escapa. O consumidor paga IVA como quem acende velas num altar fiscal.

Já os grandes esquemas, as grandes fugas, as engenharias fiscais, as rendas protegidas e os caminhos sofisticados do dinheiro têm outra elegância.

Não fogem. "Optimizaram."

Não escondem. "Planeiam."

Não aldrabam. "Estruturam fiscalmente."

É lindo.

O pobre deve.

O remediado paga.

O pequeno empresário sofre.

O poderoso optimiza.

E depois dizem que falta receita para melhorar serviços públicos.

Falta receita, sim. Mas também falta vergonha, fiscalização, justiça e uma pá muito grande para limpar o estrume acumulado no estábulo fiscal da respeitabilidade.

A justiça em modo caracol aposentado

Nenhuma comédia portuguesa estaria completa sem a justiça.

A justiça portuguesa não anda. Contempla.

Move-se com aquela dignidade lenta de quem não quer chegar demasiado cedo ao destino, porque isso criaria precedentes perigosíssimos.

Processos arrastam-se. Recursos multiplicam-se. Prescrições aparecem como cogumelos depois da chuva. Grandes casos tornam-se novelas. Pequenos cidadãos desistem pelo cansaço. Quem tem dinheiro aguenta. Quem não tem, aprende que a justiça também é uma prova de resistência económica.

É uma justiça que, muitas vezes, trata o tempo como se fosse acessório.

Mas o tempo é tudo.

Justiça tarde demais é injustiça com carimbo.

E num país onde a justiça é lenta, o abuso ganha confiança. A corrupção ganha tempo. A fraude ganha estratégia. A incompetência ganha mandato.

A justiça fraca é uma incubadora de atrevimento.

O cidadão acomodado e o "é o que há"

Depois há o cidadão.

Aqui convém não ser injusto. Muitos portugueses não são acomodados por preguiça moral. São esmagados por salários baixos, rendas altas, impostos, horários longos, transportes cansativos, serviços públicos lentos, burocracia e décadas de promessas falhadas.

Mas também há uma doença cultural: o famoso "é o que há".

O hospital demora? É o que há.

A escola falha? É o que há.

A justiça não funciona? É o que há.

O salário não chega? É o que há.

A casa é impossível? É o que há.

O país arde? É o que há.

O político falha? São todos iguais.

E assim a mediocridade agradece.

Poucas frases serviram tanto a incompetência nacional como "é o que há". Devia estar escrita em muitos gabinetes públicos, emoldurada, com iluminação suave:

"É o que há: lema oficial da resignação portuguesa."

As crises como oportunidade de pedir mais

Portugal tem ainda uma arte sofisticada: transformar cada crise numa nova candidatura.

Há incêndios? Apoio.

Há cheias? Apoio.

Há seca? Apoio.

Há crise energética? Apoio.

Há crise bancária? Apoio.

Há pandemia? Apoio.

Há inflação? Apoio.

Há baixa produtividade? Programa.

Há pobreza? Estratégia.

Há habitação? Pacote.

Há interior abandonado? Plano de valorização.

Tudo isto pode ser necessário. Mas quando um país vive permanentemente em modo pedido, alguma coisa falhou no modo preparação.

A crise devia ensinar.

Em Portugal, muitas vezes, apenas reabre candidaturas.

O jantar da oportunidade perdida

A velha frase satírica dizia: "gastar tudo em mulheres e vinho."

No caso português, sejamos justos: o cardápio é mais sofisticado.

Gasta-se em consultorias e inaugurações.

Em plataformas e estudos.

Em rotundas e pavilhões.

Em programas e observatórios.

Em gabinetes e assessorias.

Em compensações e remendos.

Em festas de modernização sem modernidade.

Em estratégias de futuro escritas por quem não sabe entregar presente.

Não é vinho barato. É champanhe institucional servido em copos de plástico.

E a conta vai para o contribuinte.

O país que podia ser rico e prefere estar explicado

O mais cómico, se não fosse trágico, é que Portugal não está condenado a isto.

Tem talento.

Tem localização.

Tem mar.

Tem universidades.

Tem clima.

Tem cultura.

Tem segurança relativa.

Tem empresas boas.

Tem investigadores.

Tem técnicos competentes.

Tem gente trabalhadora.

Tem diáspora.

Tem acesso europeu.

Tem capacidade de atrair pessoas e investimento.

Mas prefere estar explicado.

Portugal explica tudo.

Explica porque não cresce mais.

Explica porque os salários são baixos.

Explica porque a justiça demora.

Explica porque os jovens emigram.

Explica porque arde.

Explica porque falta habitação.

Explica porque a produtividade é fraca.

Explica porque os fundos não chegam ao essencial.

Explica tão bem que quase nos esquecemos de perguntar:

Então e resolver?

Resolver é que estraga o debate.

A grande ópera do pedinte respeitável

No fim, Portugal parece aquele senhor de família antiga, casaco gasto mas postura nobre, que passa a vida a pedir ajuda aos vizinhos enquanto explica que descende de navegadores.

"Fomos grandes", diz ele.

Pois fomos.

Mas hoje não se paga a renda com caravelas.

O país vive entre a memória imperial, a burocracia republicana, a dependência europeia, a economia de serviços, a justiça cansada, a banca resgatável, a floresta inflamável e a juventude aeroportuária.

E ainda há quem estranhe que estejamos na cauda da Europa.

Estranho seria o contrário.

Conclusão: sair do modo esmola

Portugal precisa de sair do modo esmola.

Não porque deva recusar apoios, fundos ou solidariedade. Isso seria infantil.

A questão é outra: cada ajuda deve servir para reduzir a próxima dependência, não para alimentar o mesmo ciclo.

Fundos europeus deviam criar autonomia.

Apoios contra incêndios deviam criar prevenção.

Ajudas nas cheias deviam corrigir planeamento.

Investimento público devia gerar produtividade.

Educação devia reter talento.

Justiça devia proteger os honestos.

Fiscalidade devia ser exigente com todos, não feroz com uns e criativa com outros.

Empresários deviam assumir risco verdadeiro.

Governantes deviam responder por resultados.

O país do fado do desgraçadinho tem de acabar.

Não por falta de poesia.

Mas por excesso de factura.

Portugal não precisa de cantar melhor a própria miséria. Precisa de deixar de a administrar como tradição.

A Europa pode ajudar.

O Estado pode investir.

Os fundos podem apoiar.

Mas nenhum subsídio substitui carácter. Nenhuma ajuda substitui estratégia. Nenhum plano substitui execução. Nenhuma esmola constrói futuro se o país continuar a confundir sobrevivência com desenvolvimento.

Portugal tem de deixar de pedir como vítima aquilo que desperdiça como irresponsável.

E talvez nesse dia, finalmente, o fado mude de tom.

Menos choradinho.

Mais trabalho.

Menos mão estendida.

Mais coluna vertebral.

Menos "coitadinho de nós".

Mais "agora fazemos como deve ser".

Seria uma revolução.

Tranquila, produtiva e insuportável para muita gente que vive muito bem da tristeza nacional.

Nota Editorial

Esta crónica usa o humor como bisturi, não como anestesia. O tema é sério: a dependência portuguesa de fundos, apoios, remendos e explicações sucessivas tornou-se parte de uma cultura política e económica que demasiadas vezes evita a pergunta essencial: que resultados foram realmente entregues?

O problema não está em receber ajuda europeia ou solidariedade externa. O problema está em receber ajuda sem romper com os mecanismos que produzem atraso, baixa produtividade, pobreza persistente, fragilidade institucional e dependência recorrente.

Um país adulto usa fundos para ganhar autonomia. Um país em modo esmola usa fundos para prolongar o mesmo modelo com outra decoração. Portugal precisa de sair desta segunda categoria, por decência, por inteligência e por sobrevivência histórica.

A ironia serve para dizer aquilo que a linguagem oficial evita: não há futuro construído sobre mão estendida, baixa exigência, desperdício, desculpas elegantes e resignação colectiva. O futuro exige estratégia, execução, responsabilidade e carácter.

Aletheia Veritas
Fragmentos do Caos
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