Portugal não precisa de mais radares. Precisa de cidadãos.

Quando a falta de civismo se torna a principal causa invisível da insegurança rodoviária

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos | Julho de 2026


"Um radar mede quilómetros por hora. A consciência mede o grau de civilização de um povo."

Nota Editorial

Há temas que regressam ciclicamente ao debate público. A sinistralidade rodoviária é um deles. Sempre que uma sucessão de acidentes choca o país, repetem-se as mesmas respostas: mais radares, mais fiscalização, novos limites de velocidade e alterações ao Código da Estrada.

Estas medidas podem produzir resultados positivos em determinados contextos. Contudo, tornam-se insuficientes quando ignoram aquilo que está na origem de muitos comportamentos de risco: a falta de educação cívica, o desconhecimento das regras e a crescente ausência de responsabilidade individual.

As estradas portuguesas são um reflexo da sociedade portuguesa. A forma como conduzimos revela muito mais do que a nossa perícia ao volante. Revela respeito, disciplina, sentido comunitário e consciência dos deveres para com os outros.

O Fragmentos do Caos entende que nenhuma estratégia séria de segurança rodoviária ficará completa enquanto a formação cívica não voltar a ocupar um lugar central na educação e na cultura democrática.


A política da espuma

Durante décadas, sucessivos governos responderam ao problema da sinistralidade rodoviária com um conjunto previsível de medidas: mais radares, mais multas, campanhas ocasionais de sensibilização, alterações ao Código da Estrada e redução dos limites de velocidade.

É uma estratégia politicamente cómoda. Produz impacto mediático imediato, transmite uma imagem de ação governativa e permite apresentar resultados quantificáveis através do número de fiscalizações e autos levantados.

Mas permanece uma pergunta incómoda: estaremos realmente a resolver o problema ou apenas a gerir as suas consequências?

A raiz continua esquecida

Depois de quase cinquenta anos de experiência ao volante nas estradas portuguesas, a conclusão impõe-se: existe um défice profundo de civismo e de cultura rodoviária que nenhuma fiscalização conseguirá substituir.

Todos os dias encontramos prioridades ignoradas, mudanças de direção sem utilização dos indicadores, distâncias de segurança inexistentes, ultrapassagens irresponsáveis, circulação distraída pelo telemóvel e velocidades inadequadas às condições da estrada.

Estes comportamentos não resultam apenas da velocidade. Resultam, sobretudo, da forma como cada cidadão encara as suas responsabilidades perante os outros.

Democracia não significa apenas direitos

Ao longo de décadas foi-se instalando uma visão empobrecida da cidadania, frequentemente centrada nos direitos e muito menos exigente quanto aos deveres.

Uma democracia madura exige responsabilidade individual. Exige respeito pelas regras comuns. Exige compreender que a liberdade termina precisamente onde começa a segurança e a liberdade dos restantes cidadãos.

As estradas constituem um dos melhores espelhos dessa realidade.

Educar continua a ser mais difícil do que multar

É mais simples instalar um radar do que construir uma cultura de responsabilidade.

É mais fácil alterar um artigo do Código da Estrada do que investir, durante anos, na educação cívica das novas gerações.

Uma verdadeira estratégia nacional deveria integrar educação rodoviária contínua nas escolas, campanhas permanentes de civismo, reciclagem periódica dos conhecimentos dos condutores e uma cultura institucional baseada no exemplo.

Sem essa transformação cultural continuaremos, inevitavelmente, a discutir todos os anos os mesmos números, as mesmas vítimas e as mesmas soluções insuficientes.

Conclusão

A segurança rodoviária não começa nos radares.

Começa na consciência de cada cidadão.

Enquanto persistirmos em combater apenas os sintomas, ignorando as causas profundas, Portugal continuará a pagar um preço demasiado elevado em vidas humanas.

Os governos continuarão provavelmente a instalar radares.

Mas o investimento verdadeiramente transformador continuará por fazer: formar cidadãos conscientes, responsáveis e respeitadores da vida humana.


Referências

  • European Commission — Road Safety Statistics and Annual Reports.
  • European Transport Safety Council (ETSC) — PIN (Road Safety Performance Index) Reports.
  • OECD / International Transport Forum — Road Safety Annual Report.
  • World Health Organization (WHO) — Global Status Report on Road Safety.
  • Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) — Relatórios de Sinistralidade Rodoviária.
  • Observatório Europeu da Segurança Rodoviária (European Road Safety Observatory).
  • Código da Estrada Português.

"Uma sociedade revela o seu verdadeiro grau de civilização na forma como conduz. Nenhum radar substitui a educação. Nenhuma multa substitui a consciência."

Leitura essencial : Um Manual para a Liberdade no Século XXI
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