Quitó e o Tractor

Memória de uma infância feliz, entre carris, campos, estrelas e o amor daqueles que me deram o melhor lugar do universo.

Fragmento autobiográfico de Francisco Gonçalves para Fragmentos do Caos, 2026

Os meus pais não eram ricos. Eram simples funcionários da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. Mas deram-me uma infância tão rica de amor, liberdade e descobertas que, mesmo hoje, não consigo imaginar que o universo me pudesse ter confiado melhores pais.

Uma casa junto à linha

Eu tinha menos de um ano quando o meu pai assumiu o lugar de assentador da via e a minha mãe se tornou guarda de uma passagem de nível, nos arredores de Alcains. Foram colocados numa casa da CP situada a cerca de dois quilómetros da estação ferroviária e a quatro quilómetros da vila.

A nossa casa era modesta, mas sólida e confortável. Tinha dois quartos e uma sala. Do outro lado da linha existia outra pequena construção, onde funcionavam a cozinha e o forno a lenha. Não havia luxo, mas nunca me faltou aquilo de que verdadeiramente precisava. Tive alimento, abrigo, liberdade, carinho e a certeza absoluta de ser amado.

Os carris atravessavam o nosso pequeno mundo. Por eles passavam os comboios, sacudindo o silêncio dos campos e levando consigo pessoas e destinos que eu ainda não conhecia. A passagem de nível era simultaneamente fronteira e janela: separava caminhos, mas abria a imaginação para tudo o que poderia existir para lá daquela paisagem.

Um aparente deserto cheio de gente

Os nossos vizinhos mais próximos viviam noutra casa da CP, a menos de um quilómetro, onde morava o subchefe de via, colega do meu pai. A sua filha, já com cerca de vinte anos, acompanhou alguns dos meus primeiros anos e foi ela quem me baptizou com o nome que ficaria ligado à minha infância: Quitó.

Nas proximidades existia também uma grande quinta, proprietária de muitos dos terrenos que nos rodeavam. Produziam excelentes queijos, leite, pão e carne de borrego. Os donos e os trabalhadores tornaram-se parte da nossa pequena comunidade. Entre eles, a guarda que substituía a minha mãe e as pessoas ligadas à ferrovia, fui crescendo rodeado por adultos que me tratavam com uma ternura simples e natural.

Visto de longe, aquele lugar poderia parecer isolado. Para mim, porém, era um território infinito. Havia campos, serras, caminhos de terra, poços de regadio, fontanários, animais, máquinas e céus nocturnos onde as estrelas pareciam estar mais próximas do que em qualquer outro lugar.

Foi ali que comecei a descobrir o mundo. Observava tudo com uma curiosidade que nunca mais me abandonaria. Tentava perceber como funcionavam as coisas, de onde vinha a água, como germinavam as plantas, por que motivo as máquinas se moviam e até onde poderiam conduzir os caminhos que desapareciam no horizonte.

O homem do tractor

Entre os trabalhadores da quinta havia um tractorista que se tornou uma das figuras inesquecíveis da minha infância. Levava-me consigo enquanto lavrava os campos e, por vezes, colocava-me ao colo para que eu pudesse segurar o volante.

Eu teria apenas três anos, mas aquela máquina fascinava-me. Observava atentamente os seus gestos. Via como acelerava e desacelerava, como movimentava a alavanca das mudanças, como carregava na embraiagem e como fazia rodar a chave da ignição.

Para os adultos, talvez eu estivesse apenas entretido. Na realidade, estava a estudar o sistema. O tractor era uma enorme criatura mecânica, feita de ferro, ruído, gasóleo e movimento. Cada comando produzia um efeito. Cada gesto obedecia a uma sequência. Muito antes de conhecer computadores, começava já a aprender que as máquinas funcionavam através de lógica, procedimentos e relações de causa e efeito.

A grande aventura de Quitó

Certo dia, à hora do almoço, o tractorista estacionou o tractor nas traseiras da nossa cozinha e foi comer. Num momento de extraordinária confiança na humanidade, deixou as chaves na ignição.

Depois de almoçar, encontrei a máquina à minha espera. Não havia ninguém por perto e, aos três anos, eu já considerava possuir experiência suficiente para assumir o comando de um veículo agrícola.

Subi para o tractor, desengatei as mudanças e rodei a chave. O motor acordou com um rugido e começou a vomitar fumo. Aquele som não me assustou. Pelo contrário, confirmou que o procedimento estava correcto.

Como os meus pés não chegavam confortavelmente aos pedais, coloquei-me de pé sobre a embraiagem. Engatei a primeira velocidade e accionei o acelerador de mão, situado junto ao volante. O tractor começou a mover-se.

Durante alguns instantes, fui provavelmente o mais jovem tractorista da região de Alcains e, seguramente, o único sem autorização, seguro ou qualquer noção administrativa das consequências.

Felizmente, o verdadeiro tractorista apareceu a tempo. Salvou-me a mim, salvou o tractor e talvez tenha evitado que a minha carreira profissional começasse prematuramente com um acidente agrícola de proporções memoráveis.

Naquele dia não aprendi apenas a conduzir um tractor. Aprendi que compreender uma máquina não significa ainda dominar todos os caminhos por onde ela nos pode levar.

A infância onde tudo começou

Esta foi apenas uma das muitas aventuras que vivi naquele lugar. Passeava sozinho pelos campos e pelas pequenas serras em redor, descobria fontanários, observava os poços de regadio, seguia os trabalhos agrícolas e interrogava tudo o que encontrava.

Tinha liberdade, mas nunca estive verdadeiramente desamparado. Havia sempre um olhar adulto, uma palavra amiga, uma mão pronta a proteger-me. Cresci num tempo em que uma comunidade inteira podia cuidar de uma criança, mesmo sem transformar esse cuidado numa obrigação formal ou numa declaração pública de virtudes.

Hoje compreendo que aquela paisagem foi o meu primeiro laboratório. A passagem de nível, os carris, as ferramentas do meu pai, o forno a lenha, os campos, as estrelas e o tractor ensinaram-me a observar, a experimentar e a procurar a lógica escondida nas coisas.

Talvez tenha nascido ali uma parte importante da pessoa que viria a ser. Antes dos computadores, dos sistemas e da programação, existiram aquelas máquinas simples e robustas. Antes dos algoritmos, houve gestos repetidos, sequências, mecanismos e consequências. Antes do conhecimento técnico, existiu o espanto.

Mas aquilo que guardo com maior ternura não são apenas as aventuras. É a memória dos meus pais. Pessoas simples, trabalhadoras e boas, que fizeram de uma casa modesta junto à linha o lugar mais seguro do mundo.

Não me deram riqueza material. Deram-me raízes, liberdade, curiosidade e amor. Ensinaram-me, sem discursos, que a dignidade não depende do dinheiro e que uma infância feliz pode nascer numa pequena casa ferroviária, rodeada por campos e aparentemente distante de tudo.

Quando recordo Alcains, volto a ouvir os comboios, o motor do tractor e o vento sobre os campos. Volto a ver a luz da cozinha, o forno a lenha e os rostos daqueles que me protegeram. E, por breves instantes, volto a ser o Quitó: um pequeno rapaz diante de um universo imenso, convencido de que todas as máquinas podiam ser compreendidas e todos os caminhos estavam ainda por descobrir.

Os meus pais já não estão fisicamente comigo. Permanecem, porém, em cada memória que me devolve a essa infância feliz. E enquanto eu conseguir recordar o amor que me deram, aquela casa junto à passagem de nível continuará habitada.

Francisco Gonçalves

Fragmentos do Caos, 2026

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.