A Elite da Moral Alheia

A aristocracia moral que vê todas as causas distantes, mas permanece cega perante a vida concreta dos portugueses.

Há em Portugal uma elite que vive num estado permanente de exaltação moral.

É uma elite urbana, mediática, académica e cultural que se apresenta como representante natural do progresso, da liberdade, da tolerância e da consciência universal. Fala em nome dos pobres, dos trabalhadores, das minorias, dos refugiados e das vítimas de todas as guerras, embora raramente partilhe com essas pessoas os riscos, os salários, os bairros, os hospitais, as escolas ou as dificuldades concretas da vida.

É uma esquerda de consciência larga e memória curta.

Consegue comover-se profundamente com tragédias ocorridas a milhares de quilómetros, mas permanece estranhamente indiferente perante a pobreza silenciosa que cresce à porta de casa. Organiza manifestos, vigílias, conferências, abaixo-assinados e debates sobre grandes causas internacionais, mas parece não ouvir o trabalhador português que, depois de quarenta anos de descontos, recebe uma pensão incapaz de pagar a renda, a energia e os medicamentos.

É uma elite capaz de reconhecer todas as formas de opressão, excepto aquelas que sustentam o seu próprio conforto.

Sabe explicar ao país inteiro como deve pensar, falar, votar, acolher, sentir e até indignar-se. A sua especialidade não é resolver problemas. É distribuir certificados de virtude e sentenças de condenação moral.

Quem levanta dúvidas sobre imigração, integração, habitação, capacidade dos serviços públicos ou pressão sobre os salários não merece uma resposta. Merece um rótulo.

É xenófobo, reaccionário, populista, ignorante ou simplesmente indigno de participar na conversa.

O método é antigo e eficaz: quando faltam argumentos, criminaliza-se a pergunta.

A solidariedade paga pelos outros

Esta elite pratica uma forma particularmente confortável de generosidade: a generosidade financiada pelos outros.

Defende políticas cujos custos recaem sobretudo sobre trabalhadores, pequenos empresários, moradores de bairros populares e utilizadores dos serviços públicos. Pessoas que enfrentam escolas sobrelotadas, hospitais saturados, rendas incomportáveis, salários estagnados e transportes insuficientes.

Nos seus próprios círculos, porém, as consequências são mais discretas.

Vivem frequentemente em zonas protegidas, recorrem a serviços privados, beneficiam de redes profissionais influentes e possuem rendimentos que amortecem os impactos das políticas que recomendam ao resto da sociedade.

É fácil proclamar que todas as fronteiras são desumanas quando nunca se dependeu de um salário mínimo para disputar um quarto numa periferia.

É simples defender uma imigração sem critérios quando não se vive num bairro onde cinco pessoas concorrem por cada casa disponível.

É muito elegante acusar os outros de falta de solidariedade quando a solidariedade é paga pelos impostos de quem recebe muito menos.

Esta moralidade tem algo de obsceno.

Não por defender pessoas vulneráveis, o que seria digno, mas por transformar qualquer preocupação legítima dos portugueses num pecado ideológico.

O cidadão comum não é ouvido. É corrigido.

Não é convidado para o debate. É colocado no banco dos réus.

A liberdade com proprietário

A mesma elite que proclama a liberdade de expressão considera frequentemente intolerável qualquer expressão que não confirme as suas convicções.

Defende a liberdade, desde que seja a sua.

Defende a diversidade, desde que não inclua diversidade de pensamento.

Defende o debate, desde que as conclusões estejam previamente aprovadas.

Quando as suas posições são contestadas, surgem imediatamente palavras destinadas a encerrar a conversa: discurso de ódio, desinformação, extremismo, narrativa perigosa ou ameaça à democracia.

Alguns destes conceitos descrevem problemas reais. Mas, nas mãos de quem se julga moralmente superior, tornam-se instrumentos de controlo político e cultural.

A liberdade passa então a ter porteiro.

Entram as opiniões autorizadas. As restantes ficam à porta, devidamente catalogadas e vigiadas.

A democracia reduz-se a um ritual estranho em que todos podem falar, desde que digam aquilo que a elite considera aceitável.

A compaixão selectiva

Esta incoerência torna-se particularmente visível nos conflitos internacionais.

É inteiramente legítimo defender os direitos do povo palestiniano, condenar a morte de civis, criticar o governo israelita e exigir o cumprimento do direito internacional.

O que não é legítimo é romantizar o Hamas, desculpabilizar massacres de civis ou converter terrorismo em resistência poética porque os assassinos pertencem ao lado ideologicamente escolhido.

Nenhuma causa liberta uma criança assassinada.

Nenhuma bandeira torna aceitável o sequestro de civis.

Nenhuma opressão anterior transforma a barbárie presente num acto progressista.

Mas uma parte desta elite conseguiu realizar a proeza moral de condenar selectivamente a violência. Quando ela serve a causa certa, muda de nome. Torna-se resistência, activismo, luta ou libertação.

A compaixão é distribuída segundo critérios tribais.

Há mortos que merecem silêncio respeitoso e mortos que precisam primeiro de apresentar credenciais ideológicas.

Há vítimas perfeitas e vítimas inconvenientes.

Há atrocidades que mobilizam multidões e outras que são relativizadas numa nota de rodapé.

Não se trata de humanismo. Trata-se de pertença.

O abandono dos trabalhadores

A esquerda nasceu historicamente para representar trabalhadores, combater desigualdades económicas, defender salários, reduzir abusos do poder e garantir dignidade material.

Mas uma parte significativa da esquerda contemporânea abandonou esse terreno.

Trocou a fábrica pelo seminário.

Trocou o salário pela linguagem.

Trocou a exploração económica pela vigilância moral.

Trocou o trabalhador real por uma abstracção sociológica que cabe perfeitamente num painel de televisão.

Enquanto discute símbolos, identidades e vocabulários, milhares de portugueses trabalham por salários que não permitem construir uma vida. Jovens qualificados emigram. Casais adiam filhos. Idosos vivem isolados. Famílias gastam metade do rendimento numa casa medíocre. Doentes esperam meses por consultas.

Mas estes problemas são pouco glamorosos.

Não produzem fotografias internacionais.

Não oferecem a emoção heróica de salvar o mundo durante uma tarde de conferências.

Exigem enfrentar interesses, reformar instituições, avaliar políticas e prestar contas. Uma maçada administrativa, comparada com a leveza sublime de assinar um manifesto.

Assim nasceu a esquerda caviar: revolucionária ao almoço, institucional à tarde e confortavelmente instalada ao jantar.

A indústria da superioridade moral

Esta elite não se limita a defender ideias. Construiu uma indústria em torno delas.

Há cargos, assessorias, observatórios, associações, fundações, projectos, comissões, subsídios, estudos, programas e conferências. Cada problema social gera uma estrutura. Cada estrutura exige orçamento. Cada orçamento precisa de especialistas. E os especialistas pertencem, curiosamente, aos mesmos círculos que definem quais são os problemas legítimos.

Cria-se uma economia da virtude.

O contribuinte financia instituições que depois o educam moralmente.

Paga os salários daqueles que o acusam de egoísmo.

Sustenta os palcos onde é apresentado como atrasado.

Financia a máquina que o transforma simultaneamente em culpado e fonte de receita.

É uma relação quase feudal, apenas com melhor design gráfico.

A velha aristocracia afirmava governar por direito de nascimento. Esta nova aristocracia afirma governar por superioridade moral.

Ambas partilham a mesma certeza: o povo precisa de ser conduzido porque não sabe o que é melhor para si.

Uma moral sem risco

A verdadeira solidariedade implica proximidade, responsabilidade e risco.

Exige escutar quem sofre, mesmo quando fala de forma imperfeita.

Exige reconhecer limites.

Exige escolher prioridades.

Exige admitir que os recursos públicos não são infinitos e que qualquer política tem consequências.

A falsa solidariedade, pelo contrário, vive de proclamações.

É absoluta nos princípios e ausente nas consequências.

Defende tudo, promete tudo e condena quem pergunta quem paga.

A sua moral não nasce da experiência. Nasce da posição social.

É uma moral sem risco, praticada por pessoas protegidas dos resultados das suas próprias ideias.

Quando algo corre mal, nunca é responsabilidade da política. É culpa da sociedade, dos preconceitos, da extrema-direita, da falta de educação ou da insuficiente adesão popular à doutrina correcta.

A realidade é sempre absolvida. O cidadão é sempre culpado.

O país que ficou para trás

Portugal não precisa de menos solidariedade internacional. Precisa de mais honestidade nacional.

Pode defender os direitos humanos no mundo sem abandonar os direitos daqueles que aqui trabalham e pagam impostos.

Pode acolher quem precisa sem fingir que não existem limites de habitação, integração, saúde e educação.

Pode condenar os crimes do governo israelita sem transformar o Hamas num movimento romântico.

Pode defender a liberdade de expressão sem a reservar aos seus próprios sacerdotes.

Pode combater o racismo sem tratar qualquer crítica política como racismo.

Pode ser decente sem ser ingénuo.

Pode ser solidário sem ser hipócrita.

O problema desta elite não é preocupar-se com causas distantes. É utilizar essas causas como palco para esconder a sua indiferença perante a vida concreta dos portugueses.

Vê o mundo inteiro, mas não vê o vizinho.

Chora diante das câmaras, mas ignora quem espera numa urgência hospitalar.

Fala dos oprimidos em todas as línguas, excepto na linguagem simples de quem não consegue pagar a renda.

Esta não é uma elite progressista.

É uma aristocracia de consciência tranquila, financiada por uma sociedade cada vez mais cansada.

E talvez seja essa a sua maior imoralidade: viver dos sacrifícios de pessoas que despreza, enquanto lhes explica, com voz solene e superior, que ainda não aprenderam a ser suficientemente boas.

Nota Editorial

Quando uma elite precisa de proclamar incessantemente a sua superioridade moral, está quase sempre a tentar esconder a falência dos seus argumentos e a mediocridade das suas práticas.

A verdadeira autoridade moral não se anuncia em conferências, não se exibe nas redes sociais e não exige submissão ideológica. Reconhece-se na coerência entre aquilo que se defende e aquilo que se pratica, sobretudo quando as convicções implicam custos pessoais.

Esta elite faz precisamente o contrário: recomenda sacrifícios que não suporta, promove políticas cujas consequências não experimenta e acusa de insensibilidade aqueles que vivem diariamente os seus efeitos. Depois chama consciência social à própria arrogância.

A decadência começa quando o pensamento é substituído pelo catecismo. Já não se procura compreender a realidade, mas apenas confirmar uma narrativa. Os factos inconvenientes são ignorados, as perguntas legítimas são transformadas em suspeitas morais e os adversários deixam de ser cidadãos com opiniões diferentes para passarem a ser pessoas consideradas indignas.

Esta é a desonestidade intelectual em estado puro: mudar os critérios conforme a causa, condenar num lado aquilo que se desculpa no outro e disfarçar o tribalismo com palavras como humanidade, justiça ou progresso.

No fundo, estas proclamações morais funcionam como credenciais de pertença a uma pequena aristocracia cultural. Não demonstram virtude. Demonstram apenas o domínio do vocabulário necessário para ocupar o palco, proteger privilégios e continuar a explicar ao povo como deve pensar e viver.

Quanto mais alto erguem o dedo moral, mais claramente revelam os seus pés de barro, a sua decadência e a sua profunda desonestidade intelectual.

Francisco Gonçalves

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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