O ambiente político em Portugal e a democracia infantil

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O ambiente político em Portugal e a democracia infantil
Quando o debate de ideias cede lugar ao combate tribal, a democracia conserva as eleições, mas perde maturidade cívica.
Por Francisco Gonçalves ·
Nota de abertura. Uma democracia não amadurece apenas porque o calendário soma décadas. Amadurece quando os cidadãos aprendem a distinguir pessoas de ideias, adversários de inimigos e argumentos de palavras de ordem. Portugal continua, demasiadas vezes, a falhar esse teste elementar.
Os portugueses parecem ter deixado de discutir ideias. Discutem pessoas, intenções e identidades partidárias, reduzindo o debate público a ataques contra quem pensa de forma diferente.
O confronto democrático transforma-se, assim, numa troca de acusações entre protagonistas tribais, organizados segundo a lógica primitiva do "nós" contra "eles". Quando a cidadania é substituída pelo activismo de claque, deixa de existir espaço para uma democracia madura, responsável e verdadeiramente plural.
As ideias não se tornam válidas por serem proclamadas com maior agressividade, repetidas por uma multidão ou defendidas pelo partido certo.
Precisam de factos, argumentos, coerência e disponibilidade para serem confrontadas com a realidade.
É triste constatar que, em muitos portugueses, continua a persistir o espírito dos "tempos da brasa", isto volvidos mais de cinquenta anos depois da voragem revolucionária que atravessou Portugal entre 1974 e 1978.
Mudaram os partidos, os meios de comunicação e as palavras de ordem. A fogueira tribal, porém, continua acesa.
Vivemos ainda sob uma democracia infantilizada, incapaz de distinguir adversários de inimigos, crítica de traição e debate de combate pessoal. Uma democracia em que demasiados cidadãos não procuram compreender o argumento do outro, mas apenas encontrar a etiqueta que permita dispensá-lo.
Nota editorial
A maturidade democrática começa quando o cidadão aceita que uma ideia contrária não constitui uma ofensa pessoal. Enquanto o debate público continuar dominado por lealdades tribais, rótulos e ataques à identidade do adversário, Portugal poderá possuir instituições democráticas sem desenvolver uma verdadeira cultura democrática. Cinquenta anos depois, talvez seja tempo de apagar a fogueira e acender a razão.