Os púlpitos da moral de cordel

Os púlpitos da moral de cordel
Quando os media deixam de interrogar o poder e se transformam no palco onde uma elite contempla a própria virtude.
Há uma elite que não governa necessariamente, não produz grande coisa e raramente responde pelas consequências das ideias que divulga. Apesar disso, ocupa diariamente televisões, jornais, rádios e plataformas digitais para explicar ao país aquilo que o país deve pensar.
Não precisa de ganhar eleições.
Basta-lhe ganhar tempo de antena.
É nos estúdios televisivos, nas colunas de opinião e nos painéis cuidadosamente seleccionados que esta aristocracia moral constrói a aparência de consenso. Os mesmos rostos circulam entre canais, jornais, universidades, fundações, associações e organismos públicos. Entrevistam-se uns aos outros, citam-se reciprocamente e apresentam a repetição das suas opiniões como prova de autoridade.
Cinco comentadores dizem o mesmo em quatro canais diferentes e, subitamente, nasce uma verdade nacional.
O cidadão que discorda não é apenas alguém com outra leitura da realidade. É imediatamente apresentado como mal informado, ressentido, radicalizado, vítima de desinformação ou perigosamente próximo de qualquer extremismo disponível no catálogo moral da semana.
O debate começa já com a sentença escrita.
A televisão como salão da nova aristocracia
A televisão oferece a esta elite aquilo que os antigos salões ofereciam à aristocracia: visibilidade, reconhecimento mútuo e a agradável sensação de estar acima da multidão.
Nos estúdios, tudo ajuda.
A iluminação confere solenidade.
O rodapé transforma opiniões em acontecimentos.
O título académico ou institucional fornece autoridade.
A apresentação do convidado elimina qualquer necessidade de demonstrar competência real sobre o assunto discutido.
Depois começa a cerimónia.
Um comentador fala em nome da democracia. Outro fala em nome dos direitos humanos. Um terceiro fala em nome da ciência, mesmo quando está a emitir apenas uma preferência política. E há quase sempre alguém autorizado a interpretar o pensamento das classes populares sem jamais ter vivido os seus problemas.
O trabalhador aparece nestes programas sobretudo como objecto de estudo.
É "o eleitor descontente".
É "o segmento vulnerável ao populismo".
É "a população com menor literacia mediática".
É "a franja social capturada por narrativas simplistas".
Raramente é tratado como um cidadão capaz de observar a própria vida e tirar conclusões razoáveis.
A possibilidade de ele estar realmente cansado de salários baixos, rendas incomportáveis, impostos elevados e serviços públicos degradados parece demasiado simples para a sofisticação dos especialistas.
É mais confortável diagnosticar-lhe uma doença ideológica.
O circuito fechado da legitimidade
O mecanismo funciona como um circuito de validação recíproca.
O jornalista convida o académico.
O académico cita o activista.
O activista é apresentado como representante da sociedade civil.
A associação do activista recebe financiamento público ou institucional.
O estudo produzido pela associação é depois comentado pelo mesmo académico.
Finalmente, o jornalista noticia que existe um crescente consenso entre especialistas e organizações da sociedade civil.
O círculo fecha-se com elegância.
O contribuinte financia parte das estruturas, paga os impostos que sustentam o sistema e, no fim, recebe uma lição sobre a sua alegada falta de consciência social.
É uma forma particularmente aperfeiçoada de representação política sem mandato democrático.
Não precisam de convencer a maioria. Precisam apenas de controlar os mecanismos através dos quais determinadas opiniões são apresentadas como respeitáveis e outras como suspeitas.
A selecção dos convidados faz o resto.
Quando quatro pessoas partilham a mesma visão e uma quinta é convidada para servir de caricatura da oposição, o resultado não é pluralismo.
É teatro com resultado previamente combinado.
A moral transformada em espectáculo
Os media contemporâneos descobriram que a indignação moral é um produto extraordinário.
É barata de produzir.
Não exige investigação prolongada.
Gera reacções imediatas.
Alimenta as redes sociais.
Permite dividir o público entre virtuosos e condenáveis.
A realidade, infelizmente, costuma ser complexa, contraditória e pouco obediente. Obriga a comparar dados, reconhecer limites, ouvir pessoas desagradáveis e admitir que boas intenções podem produzir maus resultados.
A moral televisiva dispensa tudo isso.
Basta escolher uma vítima perfeita, um culpado evidente e um especialista disposto a confirmar a narrativa.
A partir desse momento, qualquer dúvida se torna crueldade.
Qualquer pergunta se transforma em provocação.
Qualquer tentativa de introduzir contexto é denunciada como relativização.
O espectador não é convidado a pensar.
É convocado a escolher um lado.
Assim se constrói uma cidadania emocional, impulsiva e tribal, perfeitamente adaptada ao ritmo das redes sociais e inteiramente inútil para resolver problemas reais.
As causas distantes e os sofrimentos invisíveis
Esta elite mediática demonstra frequentemente uma extraordinária capacidade de mobilização para causas internacionais.
Isso não é, por si só, censurável.
Uma sociedade civilizada deve preocupar-se com guerras, perseguições, refugiados, violações de direitos humanos e sofrimento além-fronteiras.
O problema começa quando essa sensibilidade universal convive com uma indiferença quase total perante o sofrimento próximo.
Há horas de debate sobre conflitos nos quais Portugal possui influência política limitada, mas poucos minutos para discutir seriamente por que razão tantos portugueses trabalham a tempo inteiro e continuam pobres.
Há painéis exaltados sobre solidariedade global, mas pouca indignação perante pensões que obrigam idosos a escolher entre alimentação e medicamentos.
Há uma vigilância escrupulosa sobre a linguagem usada nas redes sociais, mas uma serenidade quase burocrática perante jovens que não conseguem sair da casa dos pais ou famílias que entregam metade do rendimento ao senhorio.
O sofrimento distante oferece prestígio moral.
O sofrimento próximo exige confronto com interesses instalados.
A primeira situação produz manifestações, fotografias e declarações solenes.
A segunda exige reformas, escolhas difíceis, fiscalização, competência e responsabilidade.
Compreende-se a preferência.
Salvar simbolicamente o mundo é muito mais agradável do que reparar concretamente o país.
O desaparecimento da classe trabalhadora
Durante décadas, a esquerda afirmou representar aqueles que viviam do seu trabalho.
Hoje, uma parte dessa esquerda mediática parece desconfortável com os próprios trabalhadores.
Eles são demasiado imperfeitos.
Nem sempre utilizam o vocabulário aprovado.
Preocupam-se com imigração, segurança, impostos e concorrência laboral.
Podem desconfiar de instituições.
Por vezes têm opiniões culturalmente conservadoras.
Em suma, recusam comportar-se como as personagens idealizadas nos seminários universitários.
Por isso, a velha classe trabalhadora foi substituída por categorias mais elegantes, abstractas e mediaticamente convenientes.
O trabalhador real perdeu espaço para a vítima conceptual.
A luta por melhores salários perdeu espaço para a gestão simbólica da linguagem.
A habitação, a saúde e a estabilidade profissional foram empurradas para segundo plano por uma política de identidade que oferece muito reconhecimento verbal e pouca transformação material.
Depois, quando os trabalhadores votam fora do perímetro autorizado, os comentadores reúnem-se nos estúdios para analisar o mistério.
Perguntam como foi possível.
Organizam debates sobre radicalização.
Produzem documentários sobre ressentimento.
Quase nunca consideram a hipótese mais perturbadora: talvez tenham deixado de ouvir as pessoas que afirmavam representar.
A liberdade dos autorizados
A relação desta elite com a liberdade de expressão também merece atenção.
Em princípio, todos defendem o debate aberto.
Na prática, o entusiasmo diminui quando surgem opiniões que escapam ao consenso dos estúdios.
Nesse momento aparecem conceitos úteis: discurso perigoso, narrativa tóxica, desinformação, linguagem hostil, ameaça à democracia.
Alguns destes fenómenos existem e devem ser enfrentados.
Mas a sua utilização indiscriminada permite transformar divergências legítimas em problemas de segurança moral.
O truque é eficaz.
Em vez de contestar uma opinião, questiona-se o direito de ela ser pronunciada.
Em vez de desmontar um argumento, investiga-se a suposta intenção de quem o apresenta.
Em vez de promover confronto racional, protege-se o público do incómodo de ouvir posições divergentes.
A liberdade permanece formalmente intacta.
Todos podem falar.
Alguns, porém, terão acesso permanente ao estúdio, enquanto outros serão convidados apenas para serem julgados.
É a liberdade com porteiro.
O jornalismo que abdica de incomodar
Nem todos os jornalistas participam neste mecanismo.
Há profissionais sérios, independentes e corajosos que investigam poderes políticos, económicos e institucionais. Muitas vezes trabalham com poucos meios, enfrentam pressões e pagam profissionalmente pela insistência em perguntas incómodas.
É precisamente por respeito a esses jornalistas que deve ser denunciado o jornalismo de corte.
Esse jornalismo não fiscaliza o poder.
Circula em torno dele.
Partilha os seus códigos, frequenta os seus espaços e depende das mesmas fontes que deveria escrutinar.
A proximidade transforma-se em acesso.
O acesso converte-se em prestígio.
O prestígio passa a depender da manutenção da proximidade.
Quando isso acontece, o jornalista deixa de ser representante do público perante o poder e passa a ser intérprete do poder perante o público.
Explica-nos o que os governantes quiseram realmente dizer.
Traduz as decisões das instituições.
Justifica os atrasos.
Relativiza os fracassos.
Classifica as críticas.
E reserva a indignação mais intensa não para quem exerce poder, mas para quem ousa questionar a arquitectura que o sustenta.
A fabricação do consenso
Nenhuma democracia saudável pode depender de um espaço mediático onde as opiniões aceitáveis são seleccionadas por pequenos círculos sociais e profissionais.
O pluralismo não consiste em reunir pessoas de partidos diferentes que partilham a mesma visão cultural, económica e institucional.
Também não consiste em convidar ocasionalmente uma figura extravagante para representar todas as discordâncias possíveis.
Pluralismo significa permitir que ideias sérias e contraditórias se enfrentem em igualdade de condições.
Significa fazer perguntas difíceis a todos os lados.
Significa distinguir factos de valores.
Significa reconhecer ao cidadão capacidade para formar o próprio juízo.
Mas isso retiraria aos sacerdotes mediáticos a sua função favorita: definir antecipadamente quem é virtuoso, quem é suspeito e qual é a conclusão moralmente autorizada.
Por isso, o consenso é frequentemente fabricado por selecção.
Escolhem-se os temas.
Escolhem-se os convidados.
Escolhem-se as palavras.
Escolhem-se os especialistas.
Escolhem-se as perguntas.
No fim, anuncia-se que a sociedade chegou espontaneamente à conclusão que já estava decidida antes do início do programa.
Quem paga o palco
Há uma ironia particularmente amarga em tudo isto.
Muitos dos cidadãos repreendidos diariamente por esta elite trabalham mais, recebem menos e possuem muito menos segurança económica do que aqueles que os repreendem.
São eles que pagam impostos.
São eles que sustentam serviços públicos.
São eles que enfrentam filas, atrasos, rendas, prestações, deslocações e horários difíceis.
São também eles que financiam, directa ou indirectamente, parte das instituições, estruturas, canais, fundações, associações e circuitos culturais onde a nova aristocracia moral se reproduz.
Pagam o palco.
Pagam a iluminação.
Pagam o microfone.
E, depois, sentam-se em casa para ouvir que o problema do país reside na sua falta de solidariedade, na sua ignorância ou na sua perigosa resistência ao progresso.
É preciso um talento especial para viver do esforço alheio e, simultaneamente, desprezar aqueles que tornam possível esse conforto.
Mas o talento existe.
E tem espaço reservado em horário nobre.
Recuperar o espaço público
Uma democracia não pode existir sem jornalismo.
Mas também não pode sobreviver com um jornalismo transformado em catequese.
Os media devem informar, investigar, contraditar e expor.
Não devem funcionar como tribunais morais permanentes.
Não devem decidir quais são as preocupações legítimas antes de ouvir os cidadãos.
Não devem proteger elites políticas, culturais ou institucionais através da selecção conveniente dos temas e das vozes.
O país precisa de um espaço público onde seja possível discutir imigração sem insultos, desigualdade sem propaganda, segurança sem histeria, direitos humanos sem tribalismo e política social sem esconder custos.
Precisa de jornalistas que incomodem o poder, não de comentadores que incomodem apenas o público.
Precisa de contraditório verdadeiro, não de quatro variações da mesma opinião.
Precisa de cidadãos tratados como adultos, não como alunos atrasados numa aula de moral cívica.
A televisão e a imprensa não pertencem às elites que nelas se pavoneiam.
Pertencem ao espaço democrático.
E esse espaço não deve ser ocupado por uma aristocracia que se proclama porta-voz do humanismo enquanto vive protegida do sofrimento material daqueles a quem dirige os seus sermões.
Quando os media deixam de revelar o poder e passam a decorá-lo, deixam de cumprir a sua missão.
Transformam-se apenas em espelhos iluminados onde uma pequena elite contempla, fascinada, a imagem da sua própria virtude.
Nota Editorial
Esta crónica não constitui um ataque ao jornalismo nem pretende colocar todos os profissionais dos media no mesmo saco. Pelo contrário: nasce da convicção de que uma democracia precisa de jornalistas livres, independentes e capazes de incomodar todos os poderes, incluindo os poderes culturais e morais que raramente se reconhecem como tal.
A crítica dirige-se ao uso dos media como circuito fechado de legitimação, onde comentadores, académicos, activistas e instituições se validam mutuamente até transformarem preferências ideológicas em consensos aparentes. Quando o contraditório é apenas decorativo e o cidadão comum surge como objecto de diagnóstico, o espaço público deixa de esclarecer e começa a disciplinar.
O jornalismo digno desse nome não deve ensinar o público a obedecer à opinião correcta. Deve fornecer factos, contexto, conflito de argumentos e escrutínio suficiente para que cada cidadão forme o seu próprio juízo. A liberdade de imprensa perde sentido quando serve apenas para ampliar a liberdade dos autorizados.
Portugal precisa de media que interroguem o poder, não de púlpitos onde uma pequena aristocracia contempla a sua própria virtude enquanto a factura continua a ser paga por quem mais trabalha e menos recebe.
Francisco Gonçalves
Referências credíveis
- Reuters Institute for the Study of Journalism — Digital News Report 2026: Portugal
- Reuters Institute for the Study of Journalism — Digital News Report 2025: Overview and key findings
- UNESCO — Journalism is a Public Good
- Council of Europe — Public Service Media
- Council of Europe — Legal framework to ensure media independence and safeguard media pluralism
- Reporters Without Borders — Portugal: World Press Freedom Index 2026
- European Commission — Media freedom and pluralism
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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