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Portugal, Sociedade Limitada

Tragicomédia em vários atos, com intervalo para inauguração

Crónica de Francisco Gonçalves
para Fragmentos do Caos · 6 de agosto de 2026

Portugal nasceu com o mar diante dos olhos e uma repartição pública atrás das costas.

Durante alguns séculos, acreditou que o seu destino era descobrir mundos. Depois percebeu que isso dava muito trabalho e decidiu dedicar-se a inaugurar rotundas, nomear comissões e explicar atrasos com palavras suficientemente compridas para ninguém perceber que nada tinha sido feito.

É um país antigo, digno, melancólico e especialista em sobreviver aos seus governantes. Outros povos tiveram impérios, revoluções industriais e planos estratégicos. Portugal teve ministros com pastas, secretários de Estado com motoristas e assessores capazes de transformar a substituição de uma lâmpada num programa plurianual financiado por fundos europeus.

O destino nacional foi sendo cuidadosamente talhado pelos políticos nativos, uma espécie endémica que floresce sobretudo em períodos eleitorais. Alimenta-se de promessas, vive em habitats climatizados e reproduz-se através de juventudes partidárias.

O político português nasce geralmente com vocação para servir.

Servir-se, entenda-se.

Ainda jovem, aprende que as convicções são importantes, desde que não prejudiquem a carreira. Frequenta congressos onde todos se tratam por camaradas, companheiros ou caros amigos, consoante a cor do crachá. Aos poucos, domina a arte de dizer "estamos a trabalhar" quando nada começou, "estamos a acompanhar" quando perdeu o controlo e "serão apuradas responsabilidades" quando já sabe que ninguém será responsabilizado.

Em Portugal, a responsabilidade é uma criatura mitológica. Toda a gente fala dela, surgem relatos de avistamentos ocasionais, mas nunca foi capturada em estado selvagem.

Quando uma obra pública derrapa, ninguém falhou. Houve "circunstâncias imprevistas".

Quando um serviço colapsa, ninguém é incompetente. Existiram "constrangimentos operacionais".

Quando desaparecem milhões, não houve desvio. Verificou-se "uma divergência interpretativa nos procedimentos".

E quando tudo corre mal ao mesmo tempo, surge imediatamente uma comissão independente, normalmente composta por pessoas que dependem daqueles que serão investigados. A independência portuguesa é assim: muito independente, mas sem abusos.

O grande projeto nacional

Portugal poderia ter sido um país moderno, eficiente e ambicioso. Tinha território, história, talento, posição geográfica e um povo capaz de improvisar soluções para quase tudo.

Faltou apenas um detalhe: governantes interessados no país para além da próxima sondagem.

Enquanto outras nações planeavam infraestruturas para cinquenta anos, Portugal planeava conferências de imprensa para sexta-feira. Enquanto países mais pragmáticos investiam em ciência, ferrovia, indústria e produtividade, nós investíamos em slogans, logótipos e plataformas digitais que deixavam de funcionar no momento em que um cidadão tentava utilizá-las.

A governação nacional tornou-se uma espécie de teatro administrativo. O cenário é imponente, as luzes são caras, os atores falam com solenidade, mas o texto foi escrito por consultores e ninguém sabe muito bem como termina a peça.

O primeiro ato começa sempre com esperança.

O governo apresenta um plano chamado "Portugal 2030", "Agenda para o Futuro", "Estratégia Nacional de Transformação" ou qualquer outra expressão que sugira movimento sem indicar direção.

O ministro sobe ao palco e anuncia:

"Vamos colocar Portugal na linha da frente."

Nunca explica de quê.

Pode ser da inovação, da sustentabilidade, da transição digital ou do abismo. O importante é estar na linha da frente, porque ficar na retaguarda já não rende manchetes.

Depois aparecem os gráficos. Linhas ascendentes, círculos coloridos, setas elegantes e fotografias de pessoas jovens a sorrir diante de computadores. É a representação visual do progresso, cuidadosamente desenhada para não incluir salários, tempos de espera, dívida pública ou comboios suprimidos.

O segundo ato é dedicado à execução.

É aqui que o plano começa a adoecer.

Abrem-se concursos, impugnam-se concursos, anulam-se concursos, reformulam-se concursos e, por fim, adjudica-se diretamente por razões de urgência criadas pelos atrasos do próprio concurso.

O orçamento inicial duplica. O prazo triplica. O responsável muda de cargo.

Um secretário de Estado garante que tudo decorre "dentro do calendário possível", uma expressão extraordinária que permite estar atrasado sem admitir a existência do tempo.

No terceiro ato, inaugura-se metade da obra.

Há fita, palanque, bandeiras, crianças de escola, jornalistas e um conjunto de autoridades locais que nunca estiveram tão próximas daquele equipamento desde a última campanha eleitoral.

O governante corta a fita e declara:

"Hoje cumprimos Portugal."

A frase não significa rigorosamente nada, mas soa suficientemente patriótica para abrir os telejornais.

No dia seguinte, descobre-se que falta uma licença, que o sistema informático ainda não comunica com o sistema anterior e que a infraestrutura encerra temporariamente por motivos técnicos.

Em Portugal, o provisório é a forma mais duradoura de permanência.

A pátria dos anúncios

O político português percebeu uma coisa fundamental: anunciar é muito mais económico do que realizar.

Uma ponte construída exige engenharia, aço, trabalhadores, fiscalização e manutenção. Uma ponte anunciada exige apenas um púlpito, três bandeiras e um comunicado de imprensa.

Por isso, o país foi-se enchendo de anúncios.

Anunciaram-se hospitais, ferrovias, aeroportos, habitação, reformas administrativas, simplificações fiscais, transições energéticas e revoluções digitais.

Portugal tornou-se uma potência mundial em primeiras pedras.

Algumas já devem ter valor arqueológico.

O aeroporto, por exemplo, deixou há muito de ser uma infraestrutura. É uma tradição oral, transmitida de governo em governo. Cada geração de políticos recebe o mito, escolhe uma localização, encomenda estudos e entrega-o intacto à geração seguinte.

É o nosso monumento à indecisão.

Há pirâmides no Egito, muralhas na China e estudos de localização aeroportuária em Portugal.

A ferrovia segue um modelo semelhante. Fecha-se uma linha para obras, atrasam-se as obras, interrompem-se as obras, surgem problemas geológicos que aparentemente surpreenderam todos, apesar de as montanhas se encontrarem no mesmo local há alguns milhões de anos.

Depois anuncia-se uma nova data.

A nova data serve para substituir a antiga, não para indicar quando os trabalhos ficarão concluídos.

Entretanto, as populações esperam.

Esperar é uma das grandes competências nacionais. Espera-se por uma consulta, por uma licença, por uma decisão judicial, por um comboio, por uma resposta da administração pública e, finalmente, por um governo que compreenda que governar não é uma forma sofisticada de adiar.

O povo, figurante principal

Nesta tragicomédia, o povo português desempenha o papel mais difícil: paga bilhete, financia o espetáculo e ainda é chamado ao palco para aplaudir.

Trabalha, desconta, suporta impostos, taxas, tarifas e contribuições extraordinárias que rapidamente se tornam ordinárias. Depois ouve dizer que vive acima das possibilidades.

É uma frase curiosa num país onde tantos vivem abaixo das necessidades.

O cidadão comum recebe o salário e pratica uma forma doméstica de engenharia financeira. Distribui o dinheiro pela habitação, alimentação, energia, transportes e medicamentos. No final, sobra-lhe frequentemente uma quantia suficiente para contemplar a montra de uma pastelaria.

Os governantes, porém, explicam-lhe que a economia está a crescer.

Cresce algures.

Talvez num gráfico, numa consultora ou num gabinete ministerial. Na vida real, permanece tímida, receosa de incomodar.

Quando o cidadão protesta, os responsáveis mostram compreensão. A compreensão política é gratuita e, por isso, distribuída com generosidade.

"Compreendemos as dificuldades das famílias."

Compreendem tão profundamente que as estudam há décadas sem as resolver.

Também manifestam "preocupação".

Portugal é provavelmente o país com maior produção de preocupação por habitante. Ministros preocupados, autarcas preocupados, deputados preocupados, reguladores preocupados. Uma indústria nacional de sobrancelhas franzidas, sem impacto mensurável na realidade.

A seleção natural dos medíocres

O sistema político português não expulsa necessariamente os incompetentes. Muitas vezes promove-os para que deixem de causar problemas no lugar onde estavam.

É uma espécie de reciclagem institucional.

O dirigente que falha numa empresa pública pode surgir como assessor num ministério. O assessor promovido a secretário de Estado pode, depois de uma polémica, regressar triunfalmente como administrador de outra entidade.

Nada se perde. Tudo se nomeia.

A competência, pelo contrário, pode ser perigosa. Uma pessoa competente faz perguntas, exige resultados e identifica responsabilidades. Estraga o ambiente familiar das instituições.

O sistema prefere o indivíduo flexível, cordial, prudente e ideologicamente biodegradável. Alguém capaz de defender uma ideia na segunda-feira, o seu contrário na quarta-feira e, na sexta, explicar que nunca existiu qualquer contradição.

Esta seleção natural produziu uma fauna política notável: especialistas em comunicação que não comunicam, gestores que não gerem, estrategas sem estratégia e reformadores que criam novos departamentos para estudar a simplificação dos departamentos já existentes.

Quando alguém demonstra independência, é acusado de falta de espírito de equipa.

Quando denuncia um problema, torna-se o problema.

Quando recusa participar no baile, dizem que não sabe dançar.

A justiça em câmara lenta

A justiça portuguesa entra na tragicomédia com quinze anos de atraso, carregando cinquenta volumes processuais e procurando uma sala disponível.

Todos se levantam respeitosamente. Alguns arguidos também, embora já não se recordem exatamente do motivo pelo qual foram acusados.

O tempo judicial é diferente do tempo humano. Um processo pode nascer, crescer, atingir a maioridade e prescrever antes de ouvir a última testemunha.

Os casos mais complexos transformam-se em sagas nacionais. Têm personagens, temporadas, reviravoltas e um público que envelhece à espera do episódio final.

Quando finalmente chega uma decisão, metade dos envolvidos já se reformou e a outra metade apresenta recurso.

Portugal acredita profundamente no Estado de direito. Sobretudo no direito de recorrer.

Entretanto, o pequeno infrator é tratado com rapidez exemplar. A máquina pública, lenta perante os poderosos, adquire uma vitalidade olímpica quando encontra um cidadão com uma taxa em atraso ou um formulário mal preenchido.

É a majestade da lei: míope para cima, telescópica para baixo.

A democracia de quatro em quatro anos

Periodicamente, o país é chamado a escolher o elenco.

Durante algumas semanas, os políticos descobrem mercados, fábricas, centros de saúde e transportes públicos. Abraçam idosos, beijam crianças e vestem coletes refletores, talvez para serem vistos pela população que ignoraram durante a legislatura.

As promessas regressam, frescas e biodegradáveis.

Haverá melhores salários, mais médicos, mais habitação, menos impostos, mais justiça, mais crescimento e um país onde os jovens possam construir futuro.

Depois das eleições, os cartazes são retirados e o futuro volta para armazenamento.

O cidadão deposita o voto na urna com a esperança modesta de que, desta vez, os vencedores sejam um pouco menos dececionantes.

É uma forma de fé civil.

Não se pede já grandeza. Pede-se apenas que não roubem demasiado, não mintam constantemente e consigam concluir uma obra antes de a geração seguinte precisar de a reconstruir.

São expectativas humildes, mas o sistema encara-as como radicalismo.

O destino talhado

E assim Portugal vai seguindo.

Um país extraordinário administrado como um condomínio em conflito permanente. Um território de enorme beleza governado através de folhas de cálculo, favores cruzados e prudência eleitoral.

Os políticos talharam-lhe um destino pequeno porque um país pequeno é mais fácil de controlar. Um país ambicioso exige governantes à altura. Um país resignado contenta-se com explicações.

Mas há algo que o sistema nunca conseguiu eliminar completamente: a teimosia dos portugueses.

É verdade que protestam pouco, toleram demasiado e frequentemente transformam a indignação em conversa de café. Ainda assim, continuam a construir empresas, criar ciência, cuidar de famílias, ensinar, programar, cultivar, reparar e inventar soluções nos intervalos deixados pela administração pública.

Portugal funciona, em larga medida, apesar de quem o governa.

Funciona pela enfermeira que fica além do turno, pelo professor que compra material para os alunos, pelo técnico que evita o colapso de um sistema obsoleto, pelo trabalhador que mantém uma infraestrutura com meios insuficientes e pelo pequeno empresário que sobrevive simultaneamente ao mercado, à burocracia e ao entusiasmo fiscal do Estado.

Talvez seja essa a parte mais trágica e mais cómica.

O país possui pessoas capazes de fazer quase tudo, mas entrega frequentemente o comando a quem domina sobretudo a arte de explicar por que motivo não foi possível fazer nada.

No final da peça, Portugal permanece de pé.

Com dívidas, atrasos, promessas, andaimes e uma nova comissão de acompanhamento.

O primeiro-ministro surge no palco. Ajeita o casaco, olha solenemente para a plateia e anuncia que o país está no bom caminho.

Lá fora, o caminho está cortado para obras.

Não existe data prevista para a reabertura.

Nota Editorial

A intenção desta crónica é simples: usar uma sátira suficientemente afiada para fazer os vivos rir e os cadáveres políticos pedirem baixa médica.

Portugal oferece matéria-prima inesgotável. Mal terminamos uma tragicomédia, já aparece um ministro, um assessor ou uma comissão parlamentar disposto a escrever gratuitamente o próximo capítulo. A realidade nacional recusa-se a ser ultrapassada pela ficção. Considera isso uma afronta institucional.

A imagem final, com o país a seguir alegadamente pelo caminho certo, enquanto esse mesmo caminho permanece fechado para obras e sem data de reabertura, resume boa parte da nossa condição coletiva.

O Governo garante que avançamos. O país espera pelo autocarro de substituição. E, algures num gabinete climatizado, alguém prepara uma apresentação sobre mobilidade sustentável.

A sátira, neste caso, não exagera a realidade. Limita-se a retirar-lhe a gravata.

Afonso Henriques provavelmente levantaria a espada e perguntaria: "Foi para isto que eu bati na minha mãe?" E D. Teresa, com a serenidade de quem já conhece a família, responderia: "Meu filho, deixa lá. Agora governam por comissões e derrotam-se sozinhos." Se os dois vissem o cartaz "Em obras, sem data de reabertura", talvez regressassem imediatamente ao túmulo. Há limites para o sofrimento histórico, mesmo depois da morte. 💀🇵🇹


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