A barbárie com um nome giro do século XXI

A barbárie com um nome giro do século XXI
Quando a soberania, a segurança e os compromissos internacionais começam a ser tratados como variáveis de uma negociação comercial, talvez a modernidade esteja apenas a dar um nome elegante à velha lei do mais forte.
Há expressões que têm a extraordinária capacidade de perfumar ideias antigas.
Durante séculos chamou-se imperialismo, política de canhoneira, esferas de influência, direito do mais forte ou simplesmente dominação.
No século XXI descobrimos uma designação muito mais elegante: lógica transacional.
Fica imediatamente melhor. Parece moderna. Parece pragmática. Parece até uma disciplina ensinada numa escola de gestão: Transactional Geopolitics for Executive Leaders.
O problema é que, depois de retirarmos o PowerPoint, os gráficos e o vocabulário empresarial, podemos encontrar por baixo uma ideia bastante antiga:
Eu sou mais forte do que tu. Tu precisas de mim. Portanto, diz-me quanto vale aquilo que queres conservar.
E talvez devêssemos começar a perguntar se estamos perante uma sofisticada teoria de relações internacionais ou simplesmente perante a barbárie com um nome giro do século XXI.
Estados não são empresas
Naturalmente, os países defendem interesses. Sempre defenderam.
Portugal negoceia interesses. A França negoceia interesses. A China negoceia interesses. Os Estados Unidos negoceiam interesses.
Isso chama-se política externa.
Existem tratados comerciais, acordos militares, concessões diplomáticas, contrapartidas económicas, alianças e compromissos. Nada disso é particularmente escandaloso.
O problema começa quando se tenta aplicar à política internacional uma lógica exclusivamente empresarial.
Porque um país não é uma empresa.
Uma fronteira não é um ativo. Uma população não é uma carteira de clientes. Um aliado não é um fornecedor. Uma guerra não é uma operação de aquisição hostil.
E a soberania não deveria aparecer numa folha Excel na coluna intitulada: "Ativos disponíveis para negociação."
Trump trouxe para a política internacional precisamente uma parte desta linguagem.
Quem paga? Quanto custa? O que recebemos? Que negócio podemos fazer? O que ganha a América?
Perguntas legítimas, até certo ponto.
Um presidente americano tem não apenas o direito, mas a obrigação de defender os interesses do seu país.
Mas há uma fronteira fundamental entre defender interesses e considerar que tudo tem um preço.
E quanto custa a soberania?
Vejamos a Ucrânia.
Em 13 de setembro de 2026, Donald Trump pediu a Volodymyr Zelensky que deixasse de atacar infraestruturas russas ligadas ao diesel, argumentando que esses ataques estavam a contribuir para a escassez internacional e para a subida do preço do combustível.
É possível discutir racionalmente essa posição.
Os preços energéticos têm consequências económicas. As guerras produzem externalidades. Um presidente americano preocupar-se com o preço do combustível pago pelos americanos é perfeitamente compreensível.
Mas existe uma pergunta anterior:
A Ucrânia está nesta guerra porque decidiu perturbar o mercado mundial de combustíveis?
Não.
Está em guerra porque foi invadida.
E enquanto Washington pede contenção a Kyiv relativamente às refinarias russas, a Rússia continua a atacar território e infraestruturas ucranianas.
Aqui começa a estranheza.
O agressor destrói. O agredido responde. A resposta começa a produzir consequências económicas incómodas.
E alguém se vira para o agredido:
"Veja lá se pode escolher outro alvo."
É uma forma bastante peculiar de equilíbrio.
A lei internacional não é um catálogo de preços
Depois da Segunda Guerra Mundial tentou construir-se uma ordem internacional fundada num princípio bastante simples:
Estados grandes e pequenos possuem juridicamente a mesma soberania.
A Carta das Nações Unidas estabelece a igualdade soberana dos seus membros e determina que os Estados se devem abster da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou independência política de outro Estado.
Naturalmente, esse princípio foi muitas vezes violado.
Pelos americanos. Pelos soviéticos. Pelos russos. Por potências europeias. Por muitos outros.
O Direito Internacional nunca transformou o mundo numa reunião de escuteiros.
Mas existe uma diferença enorme entre violar uma regra e decidir que a regra deixou de interessar.
A civilização institucional não consiste em eliminar o poder.
Consiste precisamente em tentar colocar limites ao exercício do poder.
Caso contrário, basta uma regra:
Quem consegue impor, manda.
Não precisamos então das Nações Unidas. Não precisamos de tratados. Não precisamos de tribunais internacionais. Não precisamos sequer de diplomacia.
Basta medir exércitos, PIB, recursos naturais e ogivas nucleares.
O resto será resolvido pelo maior.
Conhecemos esse sistema. A humanidade utilizou-o durante milénios.
Os resultados não foram particularmente brilhantes.
O aliado transformado em cliente
Também as alianças começam a mudar de significado quando são submetidas exclusivamente à lógica transacional.
Uma aliança tradicional assenta numa coisa extraordinariamente difícil de contabilizar:
confiança.
Eu comprometo-me contigo porque acredito que tu te comprometerás comigo quando eu precisar.
É precisamente essa previsibilidade que produz dissuasão.
O artigo 5.º da NATO não é uma fatura comercial. Estabelece que um ataque contra um membro deve ser considerado ataque contra todos e cria uma obrigação de assistência. A própria NATO descreve a defesa coletiva como o seu princípio fundamental.
Imaginem agora substituir isto por:
"Assistência sujeita às condições comerciais vigentes à data do ataque."
Seria provavelmente um tratado bastante mais pequeno.
Também seria uma aliança bastante mais inútil.
Porque aquilo que dissuade um adversário não é apenas a quantidade de tanques ou aviões.
É a convicção de que o compromisso será cumprido.
Quando cada compromisso passa a ser renegociável em função do preço, desaparece a confiança.
E quando desaparece a confiança, desaparece grande parte da dissuasão.
Os pequenos começam então a fazer contas
É aqui que a "lógica transacional" se torna particularmente perigosa.
Os grandes países conseguem negociar.
Os pequenos países muitas vezes apenas conseguem aceitar.
Um Estado economicamente frágil pode possuir recursos naturais importantes. Outro pode controlar um porto estratégico. Outro pode estar localizado numa fronteira militarmente relevante. Outro pode simplesmente precisar desesperadamente de proteção.
Nessa altura aparece a extraordinária oportunidade comercial:
— Tens minerais?
— Tens portos?
— Tens petróleo?
— Tens bases?
— Precisas de segurança?
— Quanto estás disposto a entregar?
Chamemos-lhe transactional foreign policy e parece sofisticado.
Chamemos-lhe pelo resultado e começa a parecer bastante diferente:
transformar vulnerabilidade em poder negocial.
E esta é precisamente uma das razões pelas quais se construíram instituições internacionais.
Não para impedir os países de defender os seus interesses.
Mas para evitar que a relação entre eles se reduzisse exclusivamente a:
"Eu posso. Tu não podes. Portanto fazemos como eu quero."
Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, não administrador do planeta
Há também uma confusão curiosa que vale a pena desmontar.
Donald Trump foi eleito pelos americanos.
Essa eleição confere-lhe enorme legitimidade democrática para governar os Estados Unidos da América.
Pode mudar a política externa americana. Pode reduzir compromissos. Pode exigir mais despesas militares aos europeus. Pode considerar determinados acordos maus para os Estados Unidos. Pode abandonar políticas das administrações anteriores.
E naturalmente responderá perante os americanos pelas consequências dessas decisões.
Mas as eleições americanas não são eleições mundiais.
Trump não recebeu procuração da Ucrânia. Nem da Europa. Nem de Taiwan. Nem do Canadá. Nem do México. Nem do planeta.
A Casa Branca não é a administração do condomínio terrestre.
E Washington não possui escritura de propriedade horizontal do mundo.
Nem tudo pode estar à venda
Esta talvez seja a questão central.
Uma sociedade civilizada distingue aquilo que pode ser negociado daquilo que não deveria depender simplesmente do preço.
Podemos negociar tarifas. Podemos negociar quotas. Podemos negociar investimentos. Podemos negociar contratos de defesa. Podemos negociar acesso a mercados.
Mas quando começamos a considerar fronteiras, soberania, segurança coletiva ou o direito de um povo resistir a uma invasão apenas como variáveis numa grande negociação, alguma coisa importante se perdeu.
E nem sequer é apenas uma questão moral.
É também profundamente estratégica.
Porque todos estão a observar.
Os países bálticos observam. Taiwan observa. Moldávia observa. Polónia observa. China observa. Rússia observa.
Qualquer potência que no futuro considere invadir um vizinho estará a fazer precisamente a mesma pergunta:
Até onde os aliados desse país estarão dispostos a suportar custos antes de começarem a negociar os direitos do próprio país atacado?
Esta é uma informação militar extraordinariamente valiosa.
O marketing da barbárie
Talvez seja esta a maior habilidade política do nosso tempo:
dar nomes suficientemente modernos a ideias suficientemente antigas.
Não estamos a abandonar alianças.
Estamos a reavaliar compromissos estratégicos.
Não estamos a pressionar o mais fraco.
Estamos a promover soluções pragmáticas.
Não estamos a transformar recursos naturais em moeda política.
Estamos a alinhar incentivos económicos.
Não estamos a regressar às esferas de influência.
Estamos a praticar geopolítica transacional.
A linguagem desempenha aqui uma função extraordinária.
Torna higiénico aquilo que, dito diretamente, poderia parecer desagradável.
A barbárie também evoluiu.
Hoje usa fato. Tem consultores. Faz deals. Apresenta slides.
E provavelmente possui uma conta premium no LinkedIn.
Há limites para tudo
Não defendo uma política internacional ingénua.
Os países possuem interesses. O poder existe. As alianças têm custos. A Europa deve gastar mais na própria defesa. Os Estados Unidos não têm obrigação de financiar indefinidamente todas as guerras do planeta.
Tudo isso pode e deve ser discutido.
Mas uma coisa é reconhecer o mundo como ele é.
Outra é concluir que, porque existe força, a força deve constituir a única regra.
Foi precisamente para evitar isso que passámos séculos a construir Direito, instituições e limites ao poder.
Imperfeitos. Contraditórios. Frequentemente hipócritas.
Mas ainda assim infinitamente preferíveis à alternativa.
Porque quando retiramos esses limites, sobra apenas uma regra verdadeiramente simples:
o grande decide e o pequeno adapta-se.
Podemos chamar-lhe realismo. Podemos chamar-lhe pragmatismo. Podemos chamar-lhe lógica transacional. Podemos até organizar uma conferência internacional sobre o assunto.
Mas convém não perdermos completamente a memória histórica.
Porque talvez estejamos apenas a recuperar uma filosofia política muito antiga, depois de lhe colocar um fato novo.
A lei do mais forte.
Só que agora tem branding.
Nota editorial
Esta crónica critica a transformação de relações internacionais, alianças e princípios jurídicos numa lógica exclusivamente transacional. Não sustenta que toda a negociação entre Estados seja ilegítima: acordos, contrapartidas, defesa de interesses nacionais e repartição de custos fazem parte da diplomacia.
O ponto crítico é outro: quando soberania, integridade territorial, segurança coletiva ou proteção de um Estado agredido passam a ser tratados como mercadorias renegociáveis em função do preço ou da conveniência momentânea do mais forte, a lógica deixa de ser apenas negocial e aproxima-se de uma política de poder sem limites jurídicos efetivos.
No caso concreto citado, a declaração de Donald Trump sobre os ataques ucranianos a infraestruturas russas de diesel é um facto reportado por imprensa internacional. A interpretação das suas consequências estratégicas é análise editorial. O texto não presume motivações privadas nem afirma a existência de interesses pessoais não demonstrados.
O enquadramento jurídico assenta em princípios públicos e verificáveis: igualdade soberana dos Estados, proibição do uso da força contra a integridade territorial e, no caso da NATO, defesa coletiva. A crítica incide precisamente sobre a erosão política desses limites quando passam a ser apresentados como simples variáveis negociais.
Referências e leitura internacional
- Reuters — Trump tells Ukraine's Zelenskiy to stop hitting Russian diesel
- Reuters — Russian ballistic missiles hit Kyiv
- Nações Unidas — Carta das Nações Unidas — Artigo 2.º
- NATO — Collective defence and Article 5
- Council on Foreign Relations — What Is the International Rules-Based Order?
- Chatham House — The future of the rules-based international order
Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI