A Democracia no Papel

Cinquenta e dois anos depois, quando a liberdade existe mas o cidadão continua a pedir licença

Disseram-nos que a liberdade tinha chegado.

Disseram-nos que o povo passava a mandar.

Disseram-nos que o Estado deixava de estar acima do cidadão.

Disseram-nos que a Constituição garantiria direitos, igualdade, dignidade e participação.

E, durante décadas, repetimos estas palavras como quem repete uma oração cívica.

Liberdade.

Democracia.

Direitos.

Cidadania.

Mas há uma pergunta que raramente fazemos:

Não à Constituição.

Não aos discursos parlamentares.

Não às celebrações oficiais.

À vida.

A democracia não é apenas votar

Portugal é uma democracia.

É importante começar por aqui.

Há eleições.

Há alternância.

Há partidos.

Há imprensa livre.

Há tribunais.

Podemos criticar governos.

Podemos organizar manifestações.

Podemos escrever textos como este.

Tudo isso representa uma ruptura histórica gigantesca com a ditadura.

Mas reconhecer esta conquista não obriga ninguém a fingir que o trabalho ficou concluído.

Porque democracia não é apenas escolher quem governa.

É também limitar o poder de quem governa.

É proteger o cidadão.

É garantir igualdade perante as instituições.

É impedir que a administração pública se transforme numa autoridade perante a qual todos precisam constantemente de pedir autorização.

E, sobretudo, democracia deveria significar isto:

É aqui que começam os problemas.

A liberdade dos pobres

Imaginemos um trabalhador que recebe menos de mil euros por mês.

É livre.

Juridicamente.

Pode votar.

Pode protestar.

Pode mudar de emprego.

Pode recorrer aos tribunais.

Pode comprar uma casa.

Pode abrir uma empresa.

Pode estudar.

Pode viajar.

Pode fazer praticamente tudo aquilo que a Constituição permite.

Fantástico.

Depois chega a realidade.

Paga renda.

Paga alimentação.

Paga energia.

Paga transportes.

Paga impostos.

Paga IVA.

Paga taxas.

Paga seguros.

Paga aquilo que precisar de pagar para continuar a existir.

E no fim talvez sobrem cinquenta euros.

Talvez nada.

Talvez falte.

Mas continua livre.

A pergunta incómoda é inevitável:

Um milionário e um trabalhador com salário mínimo possuem teoricamente os mesmos direitos.

Ambos podem processar alguém.

Um pergunta qual é o melhor advogado.

O outro pergunta quanto custa.

Ambos podem esperar por uma licença.

Um imobiliza capital.

O outro pode destruir o projecto de vida inteiro.

Ambos podem abandonar um emprego indigno.

Um perde rendimento.

O outro perde a capacidade de pagar a casa.

A lei vê igualdade.

A vida vê poder.

O Estado que nunca foi embora

Houve uma ruptura política em 1974.

Mas houve também continuidades.

Algumas profundas.

A democracia mudou quem podia governar.

Mudou como chegava ao poder.

Mudou os direitos fundamentais.

Mudou radicalmente a liberdade política.

Mas não eliminou automaticamente uma velha cultura administrativa.

O Estado continuou muitas vezes a olhar para o cidadão de cima para baixo.

O cidadão continua a requerer.

Continua a provar.

Continua a entregar documentos.

Continua a esperar decisões.

Continua a pedir autorizações.

Continua a tentar compreender regras construídas por especialistas para serem interpretadas por outros especialistas.

Mudaram os ministros.

Mudaram os partidos.

Mudaram os computadores.

Mudaram os edifícios públicos.

Mas a relação fundamental sobreviveu demasiadas vezes:

As leis também exercem poder

Temos uma relação curiosa com a legislação.

Tratamos frequentemente uma lei como se a sua simples existência demonstrasse justiça.

Não demonstra.

Uma lei pode ser necessária.

Pode ser sensata.

Pode proteger direitos.

Mas também pode ser absurda, excessiva, desactualizada ou simplesmente má.

A democracia não torna automaticamente inteligentes todas as leis produzidas por um Parlamento eleito.

Seria extraordinariamente conveniente.

Não acontece.

Governos democráticos também produzem legislação deficiente.

Parlamentos democráticos também aprovam regras inúteis.

Administrações democráticas também constroem procedimentos irracionais.

E cidadãos democráticos também podem habituar-se a tudo isso.

Talvez seja esse o fenómeno mais perigoso.

A habituação.

O cidadão domesticado

Um poder não precisa sempre de violência para se tornar excessivo.

Às vezes basta convencer as pessoas de que tudo aquilo que existe é inevitável.

Há sempre um formulário.

Sempre houve.

Há sempre uma taxa.

É assim.

Há sempre um atraso.

Tenha paciência.

Há sempre uma licença.

São as regras.

Há sempre um imposto novo.

É necessário.

Há sempre mais uma obrigação.

É para o bem comum.

Pouco a pouco, o extraordinário torna-se normal.

E um cidadão que inicialmente perguntava

«porquê?»

começa simplesmente a perguntar

«onde tenho de assinar?»

É assim que uma sociedade pode conservar todas as instituições democráticas e perder gradualmente parte da sua energia democrática.

Não por golpe de Estado.

Por habituação.

A forma moderna do conformismo

Também a liberdade de expressão merece uma reflexão mais subtil.

Hoje podemos dizer quase tudo sem sermos presos por discordar do Governo.

Esta diferença relativamente à ditadura é imensa.

Mas existe outro tipo de pressão.

Não necessariamente policial.

Social.

Profissional.

Mediática.

Digital.

Partidária.

Algorítmica.

Há opiniões que podem fechar portas.

Há posições que podem gerar ostracização.

Há temas onde a discussão deixa rapidamente de ser sobre argumentos e passa a ser sobre identidade, tribo e pertença.

Não precisamos de chamar a isto polícia política.

Não é a mesma coisa.

Mas também não devemos fingir que uma sociedade formalmente livre está automaticamente protegida contra conformismo.

Uma cultura democrática exige algo mais difícil do que permitir falar.

Exige tolerar ouvir.

Especialmente aquilo com que discordamos.

O povo manda exactamente quando?

Existe uma das frases mais extraordinárias da mitologia política portuguesa:

«O povo é quem mais ordena.»

É uma bela frase.

Quase cinquenta anos depois talvez mereça uma auditoria.

O povo ordena quando vota.

Depois os partidos escolhem candidatos.

Os aparelhos partidários distribuem lugares.

Os governos legislam.

A administração regulamenta.

As entidades interpretam.

Os tribunais demoram.

Os municípios decidem.

As autoridades fiscalizam.

E o cidadão volta à sua vida.

Até à próxima eleição.

Não estou a defender democracia directa permanente.

Seria provavelmente uma fábrica de decisões caóticas.

Estou a colocar outra questão:

Pouco.

E quando a responsabilização institucional é fraca, votar de quatro em quatro anos pode parecer um instrumento extraordinariamente pequeno perante uma máquina extraordinariamente grande.

O poder sem rosto

Aqui chegamos a uma característica central dos Estados modernos.

O poder tornou-se distribuído.

Um ministro não decide tudo.

Um funcionário também não.

Um director também não.

Há entidades independentes.

Autoridades.

Reguladores.

Institutos.

Direcções-gerais.

Municípios.

Tribunais.

Departamentos.

Comissões.

Pareceres.

Legislação europeia.

Legislação nacional.

Regulamentação local.

Ninguém controla tudo.

E precisamente por isso, às vezes, ninguém parece responsável por nada.

O cidadão enfrenta um sistema.

Mas o sistema não tem rosto.

Pode reclamar.

Pode recorrer.

Pode escrever.

Pode protestar.

Mas muitas vezes acaba a discutir com uma estrutura onde cada pessoa apenas aplica a regra que outra estrutura produziu.

O poder tornou-se administrativo.

E o poder administrativo é particularmente resistente porque raramente parece poder.

Parece procedimento.

A Constituição bonita

As Constituições são documentos extraordinários.

Prometem igualdade.

Dignidade.

Direitos sociais.

Justiça.

Participação.

Protecção.

Depois saímos do papel.

E encontramos listas de espera.

Salários baixos.

Habitação inacessível.

Tribunais lentos.

Burocracia.

Desigualdade.

Serviços públicos incapazes de responder.

Cidadãos que trabalham a vida inteira e continuam economicamente vulneráveis.

Não significa que a Constituição seja inútil.

Significa precisamente o contrário.

Uma democracia não deve ser avaliada apenas pela qualidade dos seus princípios.

Deve ser avaliada pela distância entre esses princípios e a vida dos cidadãos.

Quanto maior a distância, mais a democracia começa a transformar-se num magnífico documento jurídico acompanhado por uma realidade muito menos magnífica.

O imposto sobre a autonomia

Também a fiscalidade merece uma discussão adulta.

Uma sociedade precisa de impostos.

Hospitais não aparecem por geração espontânea.

Escolas custam dinheiro.

Estradas custam dinheiro.

Polícia, justiça, defesa, pensões e serviços públicos custam dinheiro.

A questão não é «impostos ou nenhum imposto».

Isso é discussão infantil.

A questão séria é outra:

E existe uma segunda questão:

O que recebe o cidadão em troca?

Quando há impostos elevados e serviços excelentes, existe uma relação compreensível.

Quando há impostos, taxas, burocracia, espera e serviços insuficientes, começa a surgir a sensação de que o contrato social está desequilibrado.

E essa sensação é corrosiva.

Porque democracia vive de confiança.

O cidadão que deixou de acreditar

Talvez o maior perigo para uma democracia não seja um revolucionário.

Talvez seja um cidadão indiferente.

Aquele que já não acredita que vale a pena reclamar.

Que não acredita nos partidos.

Que não acredita nas instituições.

Que acha todos iguais.

Que deixa de votar.

Que olha para a política como uma profissão exercida por outros.

Que aceita.

Que paga.

Que espera.

Que resmunga.

E continua.

Esse cidadão não ameaça o sistema.

É perfeito para o sistema.

Porque perdeu a característica essencial de qualquer cidadão democrático:

A exigência.

Não precisamos de cidadãos obedientes

Uma democracia saudável não deve desejar cidadãos obedientes.

Deve desejar cidadãos responsáveis.

Há uma diferença gigantesca.

O cidadão obediente cumpre porque lhe disseram.

O cidadão responsável cumpre aquilo que considera legítimo, compreende por que razão existem regras e exige que o poder também as cumpra.

O cidadão obediente teme o Estado.

O cidadão responsável fiscaliza-o.

O cidadão obediente aceita a autoridade.

O cidadão responsável exige legitimidade.

Talvez tenhamos passado demasiado tempo a ensinar civismo como obediência.

Pagar.

Cumprir.

Esperar.

Respeitar.

Tudo importante.

Mas esquecemos a outra metade:

Questionar.

Fiscalizar.

Exigir.

Recusar abuso.

Denunciar incompetência.

Pedir contas.

Uma democracia precisa das duas.

Cinquenta e dois anos depois

Chegámos então à pergunta difícil.

O que fizemos com 52 anos de democracia?

Muito.

Seria absurdo negar.

Portugal mudou profundamente.

Mas isso não deve servir de desculpa para aquilo que não mudou suficientemente.

Meio século é tempo suficiente.

Já não podemos culpar a ditadura por todas as deficiências administrativas.

Já não podemos culpar o analfabetismo de 1974.

Já não podemos culpar a falta de computadores.

Já não podemos culpar a ausência de quadros técnicos.

Temos universidades.

Tecnologia.

Europa.

Fundos.

Instituições.

Experiência.

Recursos.

Os problemas que persistem há décadas passaram a ser nossos.

E isso talvez seja o facto mais desconfortável de todos.

A democracia em modo degradado

Talvez Portugal não tenha uma democracia falhada.

Talvez tenha algo mais subtil.

Uma democracia em modo degradado.

As funções principais continuam activas.

Eleições funcionam.

Parlamento funciona.

Tribunais funcionam.

Imprensa funciona.

Liberdade política funciona.

Mas determinados componentes operam abaixo daquilo que deveriam.

Justiça demasiado lenta.

Administração demasiado pesada.

Responsabilização insuficiente.

Mobilidade social limitada.

Rendimentos baixos.

Participação cívica fraca.

Dependência excessiva do Estado em múltiplas áreas.

Confiança reduzida nas instituições.

É como um sistema informático antigo.

Ainda arranca.

Ainda responde.

Ainda executa as funções básicas.

Mas acumula processos, bibliotecas antigas, remendos e dependências.

E ninguém quer fazer a actualização estrutural porque demasiadas aplicações dependem do velho sistema.

A liberdade precisa de cidadãos acordados

Nenhuma democracia se mantém saudável por inércia.

Os direitos não possuem vida própria.

As instituições também não.

Tudo depende de cidadãos que continuem a perguntar:

Uma sociedade que deixa de fazer estas perguntas pode continuar democrática durante muito tempo.

Mas começa lentamente a tornar-se administrada em vez de governada.

E cidadãos administrados deixam de ser verdadeiramente protagonistas.

Transformam-se em utilizadores do Estado.

Com número fiscal.

Senha digital.

Processo.

Referência.

Prazo.

E talvez um PDF em falta.

Não acordem contra a democracia

Acordem para ela.

Não precisamos de destruir instituições democráticas.

Precisamos de obrigá-las a funcionar melhor.

Não precisamos de menos liberdade.

Precisamos de levar a liberdade mais longe.

Não precisamos de salvadores.

Precisamos de cidadãos.

Não precisamos de líderes que prometam resolver tudo.

Precisamos de instituições que possam ser fiscalizadas por todos.

E sobretudo precisamos abandonar uma ideia profundamente perigosa:

Que votar é a nossa principal responsabilidade democrática.

Não é.

É apenas o princípio.

Democracia significa estar atento.

Questionar.

Comparar.

Exigir evidência.

Recusar propaganda.

Desconfiar de certezas fáceis.

Fiscalizar governos de qualquer partido.

Defender direitos de pessoas com quem discordamos.

E nunca aceitar que uma instituição é boa apenas porque se chama democrática.

As instituições merecem legitimidade pelo que fazem.

Não apenas pelo nome que possuem.

A pergunta final

Talvez a pergunta que Portugal devesse fazer depois de cinquenta e dois anos não seja:

«Temos democracia?»

Temos.

A pergunta muito mais incómoda é:

Uma democracia onde podemos falar?

Ou uma democracia onde também somos ouvidos?

Uma democracia onde temos direitos?

Ou onde conseguimos exercê-los?

Uma democracia onde somos iguais perante a lei?

Ou onde o dinheiro, os contactos e a capacidade de esperar não determinam quem consegue realmente enfrentar o sistema?

Uma democracia onde o Estado existe?

Ou uma democracia onde o Estado serve?

Porque liberdade escrita numa Constituição é uma conquista.

Mas liberdade vivida no quotidiano é outra coisa.

E talvez tenha chegado o momento de deixarmos de celebrar apenas a democracia que conquistámos.

Nota Editorial

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News

Em última instância a pergunta fundamental será esta - Quem serve quem, afinal: o cidadão ao Estado, ou o Estado ao cidadão?
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