A vaca não sabia que fazia parte de um projecto europeu

Uma história de resiliência climática, inovação territorial e um animal que só queria comer erva.

Nota de abertura:
Esta crónica nasceu de uma cena televisiva perfeitamente plausível: um especialista, no meio do campo, a explicar um projecto de gestão climática e de gado bovino em paisagens de baixo pastoreio. A partir daí, tudo o que envolve Joaquina, Mimosa, BOV_PT_PILOT3_0047, reuniões, diálogos e relatórios é ficção satírica. O problema técnico subjacente — gerir água, pastagens, carga animal, solo, biodiversidade e risco climático — é, esse sim, inteiramente real.

Esta manhã, algures num campo português, uma vaca acordou, levantou-se e começou a comer erva.

Pensava ela.

Na realidade, estava a participar num projecto integrado de gestão climática e pecuária sustentável em paisagens de baixo pastoreio.

A vaca não sabia.

Ninguém lhe explicou.

Provavelmente também não assinou o consentimento informado.

O especialista chegou ao campo

À frente das câmaras, um especialista explicou o projecto.

Atrás dele encontravam-se as verdadeiras protagonistas.

As vacas.

O especialista falava de sustentabilidade, alterações climáticas, gestão territorial, regeneração dos solos, biodiversidade, resiliência dos ecossistemas e optimização do pastoreio.

Uma vaca mastigava.

O especialista continuava:

— Pretendemos implementar novas estratégias de gestão integrada em territórios sujeitos a reduzida pressão pastoril...

A vaca continuava a mastigar.

— ...promovendo simultaneamente a resiliência climática dos sistemas agro-silvo-pastoris...

A vaca olhou para outra vaca.

A outra vaca continuou a mastigar.

Há momentos em que os animais demonstram uma extraordinária capacidade de síntese.

Antigamente era mais complicado

Durante milhares de anos, os agricultores tiveram um método extraordinariamente rudimentar.

Olhavam para o terreno.

Olhavam para as vacas.

Olhavam novamente para o terreno.

E concluíam:

— Este ano há pouca erva. É melhor não meter aqui tantas vacas.

Era um sistema primitivo.

Não havia PowerPoint.

Não havia work packages.

Não havia stakeholders.

Não havia sequer um Excel.

O conhecimento passava de pais para filhos através de um antiquado protocolo de comunicação denominado:

conversa.

Hoje felizmente evoluímos.

Nasce o projecto

Primeiro identifica-se o problema.

Há pouca pastagem.

Depois constitui-se um consórcio.

Universidade.

Município.

Associação de produtores.

Instituto.

Laboratório.

Consultora.

Entidade coordenadora.

Parceiro tecnológico.

E, naturalmente, as vacas.

Embora estas últimas normalmente não apareçam nas reuniões.

Depois é necessário escolher um nome para o projecto.

Não pode chamar-se:

«Vamos ver como criar vacas sem estragar o terreno.»

Isso não obtém financiamento.

Tem de chamar-se qualquer coisa como:

CLIMABOV-RESILIENT 2030 — Estratégias Integradas de Adaptação Climática e Gestão Regenerativa de Sistemas Bovinos Mediterrânicos em Paisagens de Baixa Intensidade Pastoril.

Agora sim.

Já podemos pedir três milhões de euros.

O agricultor recebe os especialistas

Finalmente a equipa chega à propriedade.

O agricultor recebe-os.

— Bom dia.

— Bom dia. Viemos analisar a capacidade adaptativa do seu sistema agro-silvo-pastoril perante cenários de stress hídrico crescente.

O agricultor pensa.

— Querem saber se há água para as vacas?

Pequeno silêncio científico.

— Simplificando muito... sim.

O agricultor aponta.

— O poço está ali.

Primeiro resultado do projecto.

A tecnologia entra em acção

Mas não podemos ficar pelo poço.

Instalam-se sensores.

Temperatura.

Humidade.

Humidade do solo.

Pluviosidade.

Estações meteorológicas.

GPS nos animais.

Imagens de satélite.

Talvez inteligência artificial.

Uma vaca aproxima-se de um sensor.

Cheira.

Lambe.

O equipamento deixa de comunicar.

O engenheiro consulta o computador.

— Perdemos a telemetria da unidade BOV-17.

O agricultor olha para o campo.

— Foi a Mimosa.

A Mimosa acaba de demonstrar uma vulnerabilidade crítica da agricultura digital europeia.

Finalmente chegam os dados

Passados dois anos, milhões de medições são processadas.

A inteligência artificial trabalha durante a noite.

Os investigadores analisam os resultados.

Realizam-se reuniões.

Produzem-se gráficos.

Publicam-se artigos.

E finalmente surge a conclusão científica:

quando chove pouco, cresce menos erva.

Silêncio.

O agricultor olha para o relatório.

— Pois.

Mas há mais.

Se houver pouca erva, demasiadas vacas degradam o terreno.

O agricultor levanta uma sobrancelha.

— Pois.

E ainda:

é conveniente garantir água aos animais durante períodos de calor extremo.

O agricultor começa a ficar impressionado.

— Isso já o meu avô dizia.

Problema grave.

O avô não tinha publicação científica indexada.

Reunião de acompanhamento

Chega então a Comissão Europeia.

— Quais são os indicadores de execução?

O coordenador abre o PowerPoint.

Slide 1.

Slide 2.

Slide 17.

Slide 46.

Slide 83.

Finalmente aparece uma fotografia.

Uma vaca.

— Este animal encontra-se integrado no piloto experimental número três.

A vaca chama-se Joaquina.

Mas no projecto é:

BOV_PT_PILOT3_0047.

Joaquina ignora que acaba de entrar na transformação digital europeia.

Continua a mastigar.

A entrevista

O jornalista aproxima-se do agricultor.

— Considera que este projecto representa uma transformação estrutural na adaptação climática da pecuária extensiva?

O agricultor pensa durante alguns segundos.

— Este ano choveu pouco.

O jornalista insiste:

— Mas considera importante desenvolver estratégias inovadoras de resiliência?

— Claro.

— Quais?

— Ter água.

— Mais alguma?

— Não meter cinquenta vacas onde só há comida para vinte.

O jornalista baixa o microfone.

Aquilo é demasiado perigoso.

Se esta informação se espalhar, metade dos projectos europeus pode ficar ameaçada.

A vaca toma conhecimento

Entretanto alguém explica finalmente a situação à Joaquina.

— Joaquina, tu não estás simplesmente a pastar.

Joaquina mastiga.

— Estás a contribuir para a resiliência climática do território.

Joaquina mastiga.

— Fazes parte de uma estratégia de mitigação das alterações climáticas.

Joaquina mastiga.

— E estás integrada num modelo inovador de gestão regenerativa da paisagem.

Joaquina pára.

Olha para o homem.

E pensa, tanto quanto uma vaca pode pensar:

— Posso continuar a comer?

— Claro.

Joaquina continua.

O relatório final

Três anos depois, o projecto termina.

São publicados:

17 relatórios,

43 apresentações,

12 artigos científicos,

6 policy briefs,

4 seminários,

3 conferências internacionais,

2 plataformas digitais,

1 aplicação móvel,

e um documento de 286 páginas intitulado:

«Roadmap Estratégico para a Transição Climática dos Sistemas Bovinos Extensivos Mediterrânicos.»

Na última página encontra-se a recomendação principal:

adequar o número de animais à disponibilidade de pastagem e água.

Algures numa aldeia portuguesa, um agricultor de 82 anos lê a conclusão.

Coça a cabeça.

Olha para o neto.

E diz:

— Então gastaram este dinheiro todo para descobrir que não se podem meter mais vacas no campo do que o campo consegue alimentar?

O neto responde:

— Avô, não percebes.

— O quê?

— Isto agora é sustentabilidade.

O velho olha para as vacas.

As vacas olham para o velho.

Durante alguns segundos estabelece-se entre todos uma extraordinária convergência intergeracional de conhecimento.

Depois Joaquina baixa novamente a cabeça e continua a comer.

Porque há pelo menos uma participante naquele projecto que percebeu desde o primeiro dia exactamente o que era preciso fazer.

Encontrar erva.

E, curiosamente, nunca precisou de PowerPoint.

O QUE É REAL POR BAIXO DA PIADA

  • A gestão da carga animal — número de animais por unidade de área — é um elemento real e importante da gestão de pastagens.
  • Secas e ondas de calor alteram a disponibilidade de alimento, aumentam as necessidades de água e podem causar stress térmico no gado.
  • Sistemas de pastoreio extensivo podem contribuir para a manutenção de habitats, biodiversidade e gestão da vegetação, incluindo em estratégias de redução do risco de incêndio.
  • Rotação, períodos de repouso da pastagem, disponibilidade hídrica, características do solo e condições locais influenciam a sustentabilidade de qualquer sistema pastoril.
  • Sensores, GPS, imagens de satélite e dados climáticos são efectivamente usados em agricultura e investigação; a Mimosa a lamber o sensor, porém, pertence exclusivamente ao domínio da sátira.

Nota Editorial

Esta crónica é uma obra de humor e sátira. Não descreve um projecto europeu específico, nem pretende atribuir a qualquer investigador, instituição, agricultor ou programa de financiamento as situações, valores, conclusões ou diálogos aqui imaginados. «CLIMABOV-RESILIENT 2030», Joaquina, Mimosa e as respectivas aventuras administrativas são ficção.

O alvo da sátira é sobretudo a tendência contemporânea para transformar ideias relativamente simples em linguagem administrativa e técnica excessivamente complexa, multiplicando siglas, indicadores, apresentações, relatórios e estruturas de projecto.

Isso não significa que a investigação sobre pecuária extensiva, adaptação climática ou gestão de pastagens seja supérflua. Pelo contrário: organismos como a FAO, a Comissão Europeia e a Agência Europeia do Ambiente documentam problemas reais relacionados com seca, calor, disponibilidade de água e forragem, biodiversidade, carga de pastoreio e risco de incêndio. A graça está precisamente no contraste entre a complexidade legítima do problema e a facilidade com que a linguagem institucional consegue, por vezes, tornar extraordinariamente complicada uma verdade que o agricultor já conhecia por experiência.

Em resumo: a ciência continua necessária, a experiência continua valiosa e a vaca continua, apesar de tudo, principalmente interessada na erva.

Referências credíveis

Augustus Veritas
Fragmentos do Caos
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