Islândia — quando o Homo sapiens parece lembrar-se de que é cidadão

A Islândia não é uma utopia nem uma humanidade diferente. É um caso suficientemente singular para perguntar quanto do cidadão depende do cérebro — e quanto depende da sociedade que construímos à sua volta.

Nota de abertura:
A Islândia é usada nesta crónica como caso de reflexão, não como modelo perfeito nem como demonstração de superioridade nacional. Os dados internacionais mostram simultaneamente prosperidade, igualdade relativa, participação cívica e confiança institucional acima de várias médias da OCDE, mas também fragilidades educativas, concentração privada dos media e preocupações com relações entre poder político e interesses empresariais. O interesse do caso está precisamente nessa combinação: uma sociedade real, imperfeita, que permite interrogar a relação entre ambiente social, autonomia individual e cidadania.

Há uma pergunta que me acompanha há muito tempo.

Se o ser humano possui um cérebro extraordinariamente poderoso, capaz de ciência, filosofia, engenharia, arte, abstracção e pensamento crítico, porque razão tantas sociedades parecem compostas por multidões resignadas a trabalhar, consumir, sobreviver e procurar entretenimento?

Porque conseguimos reunir dezenas de milhares de pessoas num estádio em poucas horas, mas temos enorme dificuldade em produzir a mesma mobilização em torno das condições concretas da nossa própria existência?

Porque procuramos tão intensamente a aprovação do grupo?

Porque seguimos?

Porque obedecemos?

Porque aceitamos?

Somos animais gregários, certamente.

Mas as formigas também são.

A diferença desconcertante é que nós sabemos que somos.

Podemos observar a multidão e perguntar:

Porque estou a segui-la?

E, apesar disso, tantas vezes continuamos a seguir.

Depois existe a Islândia.

Não como utopia.

Não como povo superior.

Não como demonstração de qualquer excepcionalidade biológica.

Mas como uma pequena anomalia suficientemente interessante para nos obrigar a fazer outra pergunta:

E se o problema não estiver apenas no cérebro humano, mas também no ambiente que construímos à sua volta?

A mesma espécie

Um islandês não pertence a outra espécie.

O cérebro que encontramos em Reykjavík é essencialmente o mesmo Homo sapiens que encontramos em Lisboa, Madrid, Londres ou Nova Iorque.

Possui as mesmas emoções fundamentais.

Procura pertença.

Tem medo.

Compete.

Coopera.

Apaixona-se.

Irrita-se.

Segue grupos.

Comete erros.

É susceptível a preconceitos.

E certamente também discute futebol — embora tenha de competir com vulcões, glaciares e auroras boreais pela atenção.

A Islândia não aboliu a natureza humana.

Mas parece ter criado algumas condições sociais interessantes para que outras possibilidades dessa natureza se manifestem.

A OCDE descrevia em 2025 a Islândia como uma das sociedades simultaneamente mais prósperas e mais igualitárias da organização, associando essa situação a elevada participação no mercado de trabalho, mão-de-obra qualificada, instituições económicas relativamente robustas e uma cultura de inovação.

Não significa que tudo funcione.

Longe disso.

Significa apenas que o ponto de partida da vida quotidiana é diferente.

E talvez isso seja muito mais importante do que pensamos.

Quando sobreviver deixa de ocupar todo o horizonte

Imaginemos dois cérebros igualmente capazes.

Um acorda preocupado com a renda.

Com a comida.

Com o emprego.

Com a conta da electricidade.

Com a prestação da casa.

Com aquilo que acontecerá se adoecer.

Com aquilo que acontecerá aos filhos.

O outro possui maior segurança material e institucional.

Qual deles terá mais disponibilidade para olhar para além da próxima semana?

Não se trata de inteligência.

Trata-se de largura de banda mental.

Quando grande parte da energia psicológica é consumida pela sobrevivência, o horizonte estreita-se.

Primeiro resolvemos amanhã.

Depois veremos o Universo.

Uma sociedade que consegue reduzir permanentemente a insegurança não cria automaticamente filósofos.

Mas talvez crie uma coisa muito mais importante:

espaço para que o cidadão exista para além do sobrevivente.

O cidadão aparece

Os dados recentes da OCDE oferecem uma pequena janela para este fenómeno.

No inquérito publicado em 2026, referente a comportamentos reportados no ano anterior, 49% dos islandeses disseram ter assinado uma petição.

Quase metade da população inquirida.

A Islândia surgia também entre os países onde eram relativamente mais frequentes comportamentos como boicotar produtos por razões políticas ou publicar conteúdos políticos nas redes sociais.

Isso não demonstra superioridade cívica.

Uma petição pode ser sensata ou absurda.

Uma manifestação pode defender uma excelente causa ou uma péssima.

Participação não significa automaticamente razão.

Mas significa uma coisa elementar:

o indivíduo considera que vale a pena agir.

E talvez esta seja uma das diferenças fundamentais entre sociedades civicamente activas e sociedades resignadas.

Não é necessariamente saber mais.

É acreditar que participar pode produzir consequências.

A aprendizagem da impotência

Quando alguém protesta durante décadas e nada muda, aprende alguma coisa.

Quando denuncia e ninguém responde, aprende.

Quando vota e sente que todas as decisões importantes permanecem distantes, aprende.

Quando observa escândalos sucessivos sem consequências perceptíveis, aprende.

A conclusão pode acabar por ser simples:

não vale a pena.

E quando uma sociedade interioriza colectivamente essa frase, não é necessário proibir ninguém de participar.

As pessoas deixam de tentar.

A democracia continua formalmente aberta.

As urnas continuam disponíveis.

Os jornais continuam a publicar.

O parlamento continua reunido.

Mas o cidadão transforma-se lentamente em espectador.

Curiosamente, a Islândia também mostra que este problema não desapareceu por completo.

Dados anteriores da OCDE mostravam que muitos islandeses também não sentiam possuir influência suficiente sobre aquilo que o governo fazia.

Ou seja, nem sequer a pequena ilha escapou ao problema fundamental das democracias contemporâneas:

a distância entre governado e governante.

Confiar não é obedecer

Há outro aspecto particularmente interessante.

Em 2025, segundo a OCDE, 59% dos islandeses declaravam confiança alta ou moderadamente alta no governo nacional.

Mas apenas 29% manifestavam esse nível de confiança nos partidos políticos.

Isto é intelectualmente importante.

Porque destrói uma equivalência demasiado fácil:

confiança = submissão.

Não necessariamente.

Uma sociedade pode confiar relativamente nas instituições e continuar céptica relativamente aos actores que disputam o poder dentro delas.

Pode respeitar o sistema sem venerar quem temporariamente o administra.

Aliás, talvez seja precisamente assim que uma democracia madura deveria funcionar:

instituições fortes, governantes escrutináveis.

O Estado não precisa de ser inimigo.

O governo não precisa de ser sagrado.

A pequena dimensão

Existe, evidentemente, um elefante islandês na sala — provavelmente muito bem agasalhado.

A Islândia tem uma população pequena.

Isso altera profundamente a escala das relações sociais.

As distâncias entre cidadão, jornalista, empresário, deputado, ministro e instituição são potencialmente menores do que numa sociedade com dezenas de milhões de habitantes.

O poder torna-se mais próximo.

E proximidade pode produzir responsabilização.

É mais difícil imaginar o Estado como uma entidade metafísica quando o deputado pode ser alguém que encontramos no supermercado.

Mas a pequena dimensão também pode produzir o contrário.

Redes fechadas.

Promiscuidade entre elites.

Concentração económica.

Concentração dos meios de comunicação.

Relações pessoais demasiado próximas entre poder político e interesses privados.

E esses problemas existem.

A Freedom House, por exemplo, continua a classificar a Islândia como uma democracia livre e com níveis muito elevados de direitos políticos e liberdades civis, mas chama simultaneamente a atenção para ligações entre representantes eleitos e interesses empresariais e para a concentração da propriedade privada dos media.

A ilha não é um conto de fadas.

Ainda bem.

Os contos de fadas ensinam-nos pouco sobre sociedades reais.

Nem sequer a educação permite romantizar

Existe outro dado particularmente útil para esta reflexão.

Os resultados escolares islandeses têm-se deteriorado.

A OCDE tem alertado para uma queda acentuada das competências fundamentais medidas pelo PISA ao longo das últimas duas décadas e para problemas significativos na integração educativa de alunos imigrantes.

Isto é extraordinariamente importante para a nossa hipótese.

Porque significa que não podemos simplesmente escrever:

boa educação → cidadãos extraordinários → Islândia.

A realidade recusa uma explicação tão confortável.

Em 2025, a própria OCDE recomendava reformas importantes na educação islandesa.

Portanto, se existe alguma coisa interessante no comportamento colectivo islandês, ela provavelmente resulta de uma combinação muito mais complexa:

segurança económica relativa,

menor desigualdade,

instituições,

dimensão social,

cultura,

história,

participação,

confiança,

expectativas,

e percepção de que a acção individual pode ter consequências.

Não existe uma variável mágica.

Existe um ecossistema.

Talvez o cérebro precise do ambiente certo

E chegamos então àquilo que verdadeiramente me interessa na Islândia.

Durante muito tempo imaginámos o indivíduo como unidade autónoma.

Primeiro existe o «eu».

Depois esse eu entra na sociedade.

Talvez tenhamos invertido parcialmente o problema.

O cérebro desenvolve-se desde o nascimento dentro de um ambiente social.

Aprende aquilo que é normal.

Aquilo que é possível.

Aquilo que é inútil.

Aquilo que merece confiança.

Aquilo que merece contestação.

Aprende se vale a pena falar.

Aprende se alguém escuta.

Aprende se as regras são aproximadamente iguais para todos.

Aprende se o esforço produz resultados.

Aprende até onde pode ir.

E depois chamamos a tudo isso:

personalidade individual.

Talvez uma parte muito maior do indivíduo seja socialmente construída do que gostamos de admitir.

A experiência islandesa

É por isso que considero a Islândia interessante.

Não porque tenha produzido seres humanos melhores.

Mas porque funciona quase como uma pequena experiência natural.

Pegamos no mesmo animal gregário.

No mesmo cérebro.

Na mesma necessidade de pertença.

Na mesma tendência para seguir grupos.

Na mesma irracionalidade.

E alteramos algumas condições ambientais.

Maior segurança.

Menor desigualdade.

Instituições relativamente robustas.

Proximidade social.

Participação.

Uma expectativa cultural de intervenção.

E alguma coisa muda.

Não desaparece o Homo sapiens.

Aparecem outras possibilidades do Homo sapiens.

Talvez esta seja a verdadeira lição.

Não precisamos de esperar pela evolução

Quando observamos sociedades intelectualmente conformistas ou civicamente resignadas, é tentador concluir:

o ser humano é assim.

Talvez seja.

Mas a frase está incompleta.

O ser humano é extraordinariamente plástico.

Colocado num ambiente, adapta-se.

Colocado noutro, adapta-se novamente.

Pode aprender submissão.

Pode aprender participação.

Pode aprender resignação.

Pode aprender responsabilidade.

Pode aprender que nada depende dele.

Ou pode aprender exactamente o contrário.

E isso muda profundamente a minha visão pessimista sobre a humanidade.

Porque significa que talvez não tenhamos de esperar cem mil anos por uma mutação genética que produza finalmente o cidadão racional.

O cérebro já cá está.

O que talvez ainda não tenhamos aprendido suficientemente bem é construir sociedades que lhe permitam funcionar para além da sobrevivência, da pertença e da rotina.

A formiga e o islandês

Voltemos então à formiga.

A formiga pertence à colónia.

Segue sinais.

Coopera.

Executa extraordinariamente bem o comportamento colectivo que a evolução lhe proporcionou.

O Homo sapiens também pertence à tribo.

Também segue sinais.

Também procura aprovação.

Também imita.

Também coopera.

Mas possui uma possibilidade adicional.

Pode parar.

Olhar para os outros.

Olhar para si próprio.

E perguntar:

Porque estamos todos a fazer isto?

É uma pequena pergunta.

Mas talvez toda a civilização tenha começado aí.

A Islândia não prova que tenha encontrado a resposta.

Mostra apenas uma coisa mais modesta — e talvez mais importante:

quando determinadas condições sociais existem, parece tornar-se mais fácil ao indivíduo comportar-se como cidadão e não apenas como membro da manada.

E então talvez a pergunta que devemos fazer às nossas sociedades não seja:

Porque é que as pessoas não pensam?

Talvez seja:

Que sociedade construímos para que pensar, participar e questionar valham a pena?

Porque, se essencialmente o mesmo cérebro humano consegue produzir resultados colectivos diferentes conforme o ambiente institucional e social em que vive, a conclusão é simultaneamente desconfortável e esperançosa.

O problema pode não ser termos recebido da evolução um cérebro insuficiente.

Talvez seja estarmos ainda a aprender a construir uma civilização digna dele.

Nota Editorial

Esta é uma crónica filosófica e interpretativa. Expressões como «aprendizagem da impotência», «experiência islandesa», «membro da manada» ou a hipótese de que determinadas condições sociais favoreçam o aparecimento do cidadão para além do sobrevivente são argumentos dos autores e não conclusões causais demonstradas pelos estudos citados.

Os dados verificáveis são apresentados com a sua fonte e período: o inquérito de confiança da OCDE publicado em 2026 recolheu respostas islandesas entre Novembro e Dezembro de 2025; o Economic Survey de 2025 analisa, entre outros indicadores, a trajectória PISA até 2022; os resultados PISA 2025, entretanto publicados em Setembro de 2026, são incluídos nas referências como actualização. As classificações da Freedom House são avaliações produzidas por essa organização e devem ser entendidas como tal.

A crónica não afirma que islandeses sejam mais inteligentes, mais racionais ou moralmente superiores a outros povos. A sua tese é deliberadamente mais limitada: instituições, segurança material, normas sociais, dimensão comunitária e percepção de eficácia podem constituir condições relevantes para a forma como capacidades humanas comuns se exprimem na vida cívica.

Referências credíveis

Francisco António dos Santos Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas — Assistente OpenAI
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