O império que nunca aceitou ter acabado

Putin, Dugin e a longa guerra contra a ideia de que a Rússia poderia ser apenas mais um país

Nota de abertura:
Esta crónica analisa o regime de Vladimir Putin, os seus objectivos estratégicos e o papel das correntes ideológicas eurasianistas associadas a Aleksandr Dugin. Distingue deliberadamente entre factos documentados, doutrina oficial russa e interpretação estratégica. Dugin é uma referência ideológica relevante, mas não existe prova pública sólida de que seja o «cérebro de Putin» ou o dirigente que determina operacionalmente as decisões do Kremlin.

Há uma pergunta que ajuda a compreender Vladimir Putin melhor do que muitas biografias:

Que país acredita ele estar a governar?

Se a resposta for simplesmente «a Federação Russa», pouco se entende do que aconteceu nas últimas duas décadas.

Porque Putin parece governar uma realidade muito maior.

Uma memória.

Uma civilização.

Uma zona de influência.

Uma antiga potência imperial que considera ter sido injustamente amputada.

Um Estado que perdeu território, população, prestígio e capacidade de determinar o destino dos seus vizinhos quando a União Soviética desapareceu.

É neste ponto que começa verdadeiramente o putinismo.

Não no comunismo.

Não exactamente no fascismo.

Nem sequer numa ideologia totalmente coerente.

Começa numa ideia muito mais simples:

A Rússia deixou de ocupar no mundo o lugar que considera seu. E esse lugar tem de ser recuperado.

O trauma fundador

Para Putin, o colapso da União Soviética não foi simplesmente a falência de um sistema económico e político.

Foi uma perda de poder.

Uma mutilação geopolítica.

Territórios que durante décadas — ou séculos — tinham sido governados a partir de Moscovo tornaram-se Estados independentes.

Ucrânia. Geórgia. Moldávia. Países Bálticos. Ásia Central.

O que para esses povos representava soberania, para parte das elites russas significava retraimento imperial.

Esta diferença de perspectiva explica muito do conflito contemporâneo.

Quando a Estónia entra na NATO, Tallinn vê segurança. Moscovo vê perda de profundidade estratégica.

Quando a Ucrânia se aproxima da União Europeia, muitos ucranianos vêem uma opção política. O Kremlin vê território civilizacional russo a escapar.

Quando um antigo Estado soviético atravessa uma revolução democrática, o Ocidente tende a ver mobilização popular. O Kremlin tende a perguntar:

— Quem organizou isto contra nós?

É uma visão do mundo profundamente securitária.

E não é acidental.

Putin vem do KGB. Muitos dos homens que construíram o seu regime vêm dos serviços de segurança.

São os chamados siloviki: homens do aparelho coercivo do Estado.

Para eles, política não é simplesmente competição de ideias. É controlo, informação, lealdade, influência, vulnerabilidade, operações e inimigos.

A Rússia transformou-se numa vertical de poder

Quando Putin chegou ao poder, a Rússia dos anos 1990 era politicamente caótica.

Oligarcas controlavam enormes sectores da economia. Governadores regionais dispunham de grande autonomia. A presidência era relativamente fraca.

Putin começou a desmontar esse sistema.

Não destruiu todos os oligarcas. Fez algo mais eficaz:

ensinou-lhes quem mandava.

Os que aceitaram permaneceram ricos.

Os que desafiaram o Kremlin descobriram que propriedade, liberdade e segurança podiam tornar-se conceitos extraordinariamente provisórios.

Ao mesmo tempo, Putin reconstruiu aquilo que passou a chamar-se a vertical do poder.

O Kremlin no topo. Abaixo, burocracia, serviços secretos, governadores, empresas estratégicas, meios de comunicação e instituições.

E, progressivamente, uma elite cuja sobrevivência depende da proximidade ao centro.

A guerra contra a Ucrânia aprofundou essa transformação. Em 2026, a Carnegie descreveu como sectores anteriormente poderosos da elite russa foram progressivamente convertidos de actores com autonomia em actores dependentes do sistema e da capacidade do regime para distribuir recursos, protecção e acesso.

Putin não governa simplesmente porque todos concordam com ele. Governa porque construiu um sistema em que discordar pode tornar-se extremamente caro.

A democracia soberana

Um dos arquitectos intelectuais mais importantes da primeira fase do putinismo não foi Aleksandr Dugin.

Foi Vladislav Surkov.

Surkov ajudou a popularizar a ideia de «democracia soberana».

A expressão é extraordinária porque parece defender democracia, mas contém a condição essencial:

nós decidimos o que significa democracia na Rússia.

E ninguém de fora tem legitimidade para avaliar.

Na prática, a arquitectura política conservava eleições, partidos, parlamento e meios de comunicação, mas dentro de um sistema crescentemente administrado pelo poder central.

As instituições permaneceram. Mas a incerteza eleitoral foi diminuindo.

E uma democracia sem possibilidade real de alternância deixa lentamente de ser democracia.

O relatório Freedom in the World 2026 classifica actualmente a Rússia como «Not Free» e descreve o poder como concentrado em Putin, com tribunais subordinados, meios de comunicação controlados, eleições manipuladas e repressão sistemática da oposição.

Depois chegou a ideologia

Durante os primeiros anos, Putin não parecia particularmente interessado em construir uma grande doutrina filosófica.

Era pragmático: poder, estabilidade, petróleo, Estado, controlo.

Mas à medida que o regime se fechou e o confronto com o Ocidente aumentou, tornou-se necessário responder a uma pergunta fundamental:

Por que razão estamos contra eles?

É aqui que ideias durante muito tempo confinadas às margens do nacionalismo russo começam a adquirir nova centralidade.

Civilização. Tradição. Ortodoxia. Eurásia. Decadência ocidental. Multipolaridade. Destino histórico russo.

E é aqui que aparece Aleksandr Dugin.

Aleksandr Dugin

Dugin é uma figura intelectualmente peculiar.

Filósofo. Nacionalista. Neo-eurasianista. Antiliberal. Imperial.

Durante décadas construiu uma doutrina que combina geopolítica, tradicionalismo, nacionalismo russo, crítica à modernidade ocidental e uma interpretação quase metafísica do conflito entre Rússia e Ocidente.

A obra que o tornou particularmente conhecido foi Fundamentos da Geopolítica, publicada em 1997.

Dugin tornou-se uma referência importante em determinados círculos nacionalistas e eurasianistas russos e a sua obra foi discutida em meios militares e académicos.

Divide o mundo de uma maneira quase cartográfica.

Há a potência marítima: Atlântico, Estados Unidos, Reino Unido, Ocidente liberal.

E existe a potência terrestre: continental, eurasiática, Rússia.

Para Dugin, este confronto não é apenas político.

É civilizacional.

O inimigo chama-se liberalismo

O verdadeiro adversário de Dugin não é simplesmente a América.

É o liberalismo.

O indivíduo acima da comunidade. A liberdade individual acima da tradição. O secularismo. O cosmopolitismo. A ideia de direitos universais. A globalização liberal. A sociedade aberta.

Dugin propôs aquilo que chama Quarta Teoria Política.

Na sua narrativa, o século XX foi dominado por três grandes ideologias: liberalismo, comunismo e fascismo.

O fascismo perdeu.

O comunismo perdeu.

O liberalismo venceu.

Dugin pretende precisamente combater essa vitória através de uma visão antiliberal, antiglobalista, tradicionalista, civilizacional e multipolar.

Eurásia contra Atlântico

Para Dugin, a Rússia não é simplesmente um Estado-nação.

É o centro natural de um grande espaço eurasiático.

E isso conduz a uma conclusão extremamente importante:

Estados como a Ucrânia deixam de ser simplesmente países independentes.

Transformam-se em peças de uma arquitectura geopolítica.

Segundo esta visão, uma Ucrânia plenamente independente, orientada para a Europa e integrada no sistema atlântico constitui uma ameaça ao projecto eurasiático.

É aqui que Dugin e Putin convergem profundamente.

Mas convergência não significa necessariamente relação causal.

Putin pode ter chegado a conclusões semelhantes por outras vias: história imperial, KGB, segurança nacional, experiência soviética, nacionalismo russo e percepção do declínio geopolítico pós-1991.

Dugin oferece uma linguagem filosófica para algo que sectores do aparelho de Estado russo já estavam predispostos a pensar.

Dugin não é necessariamente o arquitecto do edifício. Mas ajudou a desenhar parte da mitologia que explica por que razão o edifício deveria existir.

Putin não é discípulo de Dugin

Este ponto merece ficar absolutamente claro.

Não existe prova pública robusta de que Putin receba instruções estratégicas de Dugin.

Nem de que Dugin faça parte do círculo operacional onde se tomam as grandes decisões de Estado.

O CSIS chama precisamente a atenção para este exagero: apesar de Dugin ter sido muitas vezes apresentado no Ocidente como «o cérebro de Putin», existe pouca evidência de influência ideológica directa e Putin não adoptou integralmente o programa eurasianista de Dugin.

O regime é muito mais institucional e muito mais complexo.

Há Conselho de Segurança, FSB, SVR, GRU, Ministério da Defesa, Estado-Maior, Administração Presidencial, Ministério dos Negócios Estrangeiros, oligarquias dependentes, tecnocratas, Igreja Ortodoxa e aparelho de propaganda.

E figuras como Nikolai Patrushev, Sergei Karaganov, Vladislav Surkov e muitos outros participaram, em graus diferentes, na formação do ambiente estratégico e ideológico russo.

Portanto, procurar «o homem por detrás de Putin» pode conduzir-nos ao erro.

Talvez não exista.

Existe um ecossistema ideológico e securitário.

O objectivo estratégico

E o que pretende esse sistema?

A própria documentação oficial russa fornece pistas bastante claras.

A Estratégia de Segurança Nacional de 2021 descreve um mundo marcado pelo aparecimento de novos centros de poder e pelo agravamento da luta por esferas de influência.

A Conceição de Política Externa de 2023 é ainda mais explícita.

A Rússia assume como objectivo contribuir para a formação de uma ordem internacional multipolar.

O próprio Kremlin descreveu essa multipolaridade como tarefa estruturante da política externa russa.

Traduzido da linguagem diplomática:

Moscovo quer o fim de uma ordem internacional predominantemente organizada em torno dos Estados Unidos e dos seus aliados e pretende aumentar a liberdade estratégica das grandes potências.

Não significa necessariamente domínio mundial russo. Isso seria materialmente impossível.

Significa um mundo com vários grandes centros de poder: Washington, Pequim, Moscovo, Nova Deli e outros centros regionais.

Um mundo onde as grandes potências procuram exercer maior autoridade dentro das respectivas áreas estratégicas.

A esfera de influência

Este conceito é central.

No sistema liberal europeu surgido depois de 1991, teoricamente cada Estado possui o direito de escolher as suas alianças.

A Estónia pode entrar na NATO.

A Polónia pode entrar na União Europeia.

A Ucrânia pode desejar aproximar-se de Bruxelas.

Para Moscovo, isso é frequentemente interpretado de maneira diferente.

Um pequeno Estado vizinho pode ser formalmente soberano.

Mas, na lógica imperial, não deveria tomar decisões estratégicas consideradas contrárias aos interesses vitais russos.

Esta é, na prática, a lógica da esfera de influência.

E explica por que razão a Ucrânia é tão central.

A Ucrânia não é apenas território

Para Putin, a Ucrânia representa simultaneamente geografia, história, militar, identidade, segurança, império e legitimidade do regime.

Uma Ucrânia definitivamente integrada no Ocidente significaria que a fronteira política e cultural do sistema euro-atlântico chegaria ainda mais perto do núcleo histórico russo.

Mas existe talvez uma ameaça ainda mais profunda.

Uma Ucrânia eslava, culturalmente próxima da Rússia, que conseguisse tornar-se democrática, europeia e economicamente bem-sucedida poderia criar uma pergunta extremamente perigosa dentro da própria Rússia:

— Se eles conseguem viver assim, porque não podemos nós?

Esta é uma interpretação estratégica, não uma intenção confessada oficialmente pelo Kremlin.

Mas ajuda a explicar por que razão reduzir a guerra apenas à NATO é insuficiente.

A NATO é parte da história.

Existe também uma disputa sobre o modelo político possível no espaço pós-soviético.

O Ocidente como inimigo necessário

Regimes personalistas necessitam frequentemente de explicar por que razão determinados problemas persistem.

Corrupção. Estagnação. Repressão. Desigualdade. Ausência de alternância.

A existência de um inimigo externo resolve uma parte importante desse problema.

Se a Rússia está cercada; se o Ocidente pretende destruí-la; se a NATO ameaça a civilização russa; se valores estrangeiros pretendem dissolver a identidade nacional; então a repressão interna pode ser apresentada como defesa.

O jornalista deixa de ser jornalista. Pode tornar-se «agente estrangeiro».

O opositor deixa de ser opositor. Pode tornar-se instrumento do inimigo.

A organização civil pode tornar-se veículo de interferência.

A manifestação pode tornar-se operação de destabilização.

E assim surge uma das propriedades mais eficazes do autoritarismo moderno:

a segurança nacional transforma-se numa explicação universal para limitar liberdade.

E aqui Dugin volta a ser útil

Porque Dugin fornece uma narrativa grandiosa.

A Rússia não está simplesmente a defender interesses. Está a defender uma civilização.

Não está simplesmente em conflito com os Estados Unidos. Está a resistir ao Atlantismo.

Não está simplesmente contra Bruxelas. Está contra o liberalismo global.

Não está simplesmente a combater na Ucrânia. Está envolvida num confronto histórico entre modelos de civilização.

É uma transformação extraordinariamente poderosa.

Porque uma guerra territorial pode ser negociada.

Uma guerra civilizacional é muito mais difícil de terminar.

A estratégia contra o Ocidente

A Rússia sabe que não pode derrotar militarmente a NATO numa guerra convencional sem correr riscos existenciais.

Mas não precisa de reduzir toda a competição estratégica ao campo de batalha tradicional.

Existem instrumentos muito mais baratos.

Desinformação. Ataques cibernéticos. Espionagem. Operações de influência. Exploração de polarização. Pressão económica e energética. Sabotagem. Propaganda. Intimidação nuclear.

A NATO continua, em 2026, a atribuir à Federação Russa uma estratégia híbrida que combina interferência política, actividades cibernéticas maliciosas, coerção económica, subversão, agressão e desinformação.

O objectivo não precisa de ser convencer-nos de que Putin tem razão.

Pode ser suficiente fazer-nos acreditar que ninguém tem razão; que toda a imprensa mente; que todos os políticos são corruptos; que as eleições são manipuladas; que as instituições são fraudulentas; que democracia e ditadura são apenas versões diferentes da mesma coisa.

Quando uma sociedade chega a este ponto, Moscovo já ganhou alguma coisa.

Porque a democracia exige confiança mínima.

O autoritarismo exige sobretudo obediência.

O maior aliado de Putin

E aqui chegamos talvez à parte mais desconfortável.

O maior aliado estratégico de Putin não é necessariamente Dugin.

Nem a China.

Nem o Irão.

Pode ser algo muito mais próximo de nós:

o fracasso das próprias democracias ocidentais.

Se os cidadãos sentem que trabalham mas não progridem; não conseguem comprar casa; os filhos viverão pior; os serviços públicos deterioram-se; as elites nunca respondem por nada; o dinheiro compra influência; o voto pouco altera; e as instituições falam uma língua que já ninguém compreende, então a propaganda externa encontra terreno fértil.

Putin não precisa de criar a ferida. Basta impedir que cicatrize.

O erro seria transformar Putin num génio omnipotente

Também aqui devemos ser cautelosos.

O Kremlin comete erros.

Enormes.

A invasão da Ucrânia mostrou falhas de inteligência, logística e avaliação política.

A resistência ucraniana foi subestimada.

A unidade ocidental foi inicialmente subestimada.

A entrada da Finlândia e da Suécia na NATO produziu exactamente o contrário de um dos objectivos declarados de contenção da Aliança.

Portanto Putin não é um mestre de xadrez infalível.

Esse mito também pode favorecer a imagem de poder que o Kremlin projecta.

É um dirigente autoritário altamente experiente, apoiado por um enorme aparelho estatal, disposto a aceitar custos humanos, económicos e políticos que democracias teriam muito maior dificuldade em suportar.

Isso é suficientemente perigoso.

Não é necessário atribuir-lhe poderes sobrenaturais.

E Dugin?

Talvez possamos finalmente colocá-lo no lugar certo.

Dugin não é Rasputine.

Não está escondido atrás da cortina a sussurrar ordens ao czar.

É algo talvez mais interessante.

É um sintoma intelectual.

Representa uma corrente que durante décadas disse que a Rússia é uma civilização distinta; que o liberalismo ocidental é inimigo; que o espaço pós-soviético pertence naturalmente à esfera russa; que a Ucrânia independente e plenamente orientada para o Ocidente é geopoliticamente intolerável; que o mundo deve deixar de ser unipolar; que a Rússia deve liderar um grande espaço eurasiático; e que a política mundial é, no fundo, uma luta entre grandes espaços civilizacionais.

Durante muito tempo estas ideias pareceram extremas.

Depois algumas começaram a soar surpreendentemente semelhantes à linguagem oficial do Kremlin.

Isso não prova que Putin tenha lido Dugin e decidido executar o seu programa.

Prova algo talvez mais significativo:

Dugin e Putin passaram a habitar a mesma atmosfera ideológica.

Um escreveu uma versão radical da teoria.

O outro construiu a versão prática do poder.

O verdadeiro projecto de Putin

No fundo, talvez possamos resumir o putinismo em cinco objectivos.

Preservar o regime.

Restaurar a Rússia como grande potência.

Impedir que o espaço pós-soviético escape definitivamente à influência de Moscovo.

Enfraquecer a predominância política e estratégica do Ocidente.

Construir uma ordem internacional onde grandes potências disponham de liberdade muito maior para dominar os respectivos espaços estratégicos.

É uma visão do mundo profundamente diferente daquela que a Europa tentou construir depois de 1945.

Porque a Europa liberal parte, pelo menos teoricamente, da ideia:

os Estados pequenos também têm soberania.

A lógica imperial parte de outra:

os Estados pequenos existem dentro dos limites permitidos pelos grandes.

E é precisamente sobre esta diferença que se está a decidir uma parte importante do futuro europeu.

A questão final

Talvez o maior erro do Ocidente durante muitos anos tenha sido acreditar que Putin queria apenas respeito.

Talvez quisesse algo maior.

Não entrar na ordem ocidental.

Alterá-la.

Não tornar a Rússia uma democracia semelhante às europeias.

Demonstrar que o modelo europeu não é universal.

Não reconstruir literalmente a União Soviética.

Restaurar a ideia de que Moscovo possui direitos especiais sobre parte do espaço que a União Soviética controlou.

E não convencer-nos de que o autoritarismo é melhor.

Basta conseguir que deixemos de acreditar suficientemente na democracia.

Porque nesse momento já não será necessário destruir as democracias ocidentais de fora.

Nós próprios começaremos a desmontá-las.

A vitória perfeita sobre uma democracia não acontece quando um exército entra na sua capital. Acontece quando os seus cidadãos deixam de considerar que vale a pena defendê-la.

É por isso que Dugin merece ser lido.

Não porque seja necessariamente o homem que pensa por Putin.

Mas porque ajuda a compreender o mundo que homens como Putin desejam tornar possível.

ELEMENTOS CENTRAIS

  • A Rússia de Putin é hoje classificada por instituições independentes como um sistema autoritário altamente centralizado na Presidência.
  • A doutrina oficial russa de 2023 assume a construção de uma ordem internacional multipolar como objectivo estruturante.
  • A Estratégia de Segurança Nacional russa de 2021 descreve uma competição crescente entre centros de poder e por esferas de influência.
  • A NATO atribui à Rússia uma combinação de meios convencionais, cibernéticos, informativos, económicos e clandestinos para atingir objectivos políticos e estratégicos.
  • Aleksandr Dugin é um ideólogo neo-eurasianista e antiliberal influente no debate russo, mas a tese de que seja o estratega directo ou «cérebro» de Putin não é sustentada por prova pública robusta.
  • O putinismo deve ser entendido como produto de um ecossistema mais vasto: Presidência, serviços de segurança, militares, Conselho de Segurança, burocracia, elites económicas dependentes e redes ideológicas.

Nota Editorial

Esta crónica é um ensaio interpretativo apoiado em documentação oficial russa, estudos de centros de investigação internacionais e avaliações públicas sobre a evolução política da Federação Russa. Quando descreve objectivos explicitamente presentes em documentos oficiais — como a promoção de uma ordem multipolar — está a referir posições declaradas pelo próprio Estado russo.

Outras passagens, nomeadamente a interpretação da importância de uma Ucrânia democrática para a legitimidade interna do regime russo ou a ideia de que a fragilidade das democracias ocidentais oferece vantagens estratégicas a Moscovo, constituem análise política do autor e não devem ser confundidas com intenções formalmente confessadas pelo Kremlin.

O papel de Aleksandr Dugin é igualmente tratado com cautela. A sua obra neo-eurasianista, antiliberal e multipolar ajuda a compreender uma corrente ideológica que converge em vários pontos com a linguagem contemporânea do Kremlin. Contudo, não existe evidência pública sólida de que Dugin dirija a estratégia de Putin ou integre o núcleo operacional onde são tomadas as principais decisões do Estado russo. A simplificação mediática «Dugin é o cérebro de Putin» deve, por isso, ser lida como metáfora, não como facto demonstrado.

O objectivo editorial é compreender a arquitectura política e ideológica do putinismo e a lógica de acção do regime sem transformar Putin num estratega omnipotente, Dugin num Rasputine contemporâneo ou a política russa numa teoria conspirativa monocausal.

Referências credíveis

Autoria de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas um Assistente de OpenAI
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