O país a quem deixámos de tirar o chapéu

Nasci em Portugal e cresci ainda durante a ditadura. Mas, talvez por temperamento, talvez pela liberdade que encontrei dentro da minha própria família, nunca aprendi verdadeiramente a obedecer sem primeiro perguntar porquê.
Estudei com afinco e com aquela curiosidade impetuosa que sempre fez parte da minha natureza. Queria perceber como funcionavam as coisas, mas sobretudo queria perceber por que razão eram como eram.
Conheci de perto a pobreza nas aldeias do interior, particularmente na aldeia dos meus avós. Convivi ali com pessoas muito simples, muitas delas quase sem instrução, mas que possuíam uma integridade e uma dignidade que nunca esqueci.
Eram também pessoas submetidas a estruturas sociais profundamente hierarquizadas.
Quando passava o padre, o médico ou o professor, tirava-se o chapéu. Por vezes fazia-se uma pequena vénia. O poder tinha rosto, estatuto e distância.
Ao domingo, aquelas pessoas vestiam as melhores roupas e iam à igreja. Havia nesses momentos uma solenidade particular, quase uma suspensão da dureza quotidiana. Durante algumas horas interrompia-se o trabalho dos campos, encontravam-se os vizinhos, conversava-se, meditava-se, celebrava-se a pequena alegria possível.
Depois regressava-se à terra.
Recordo sobretudo os rostos. Rostos envelhecidos demasiado cedo pelo trabalho, pela pobreza e por uma vida que parecia já ter sido determinada antes mesmo de começar.
Os meus pais eram funcionários da CP e, graças ao seu trabalho, por vezes bem árduo, pude ter uma infância diferente. Tive liberdade para estudar, brincar, observar e pensar. Cresci também entre o mundo ferroviário: estações, linhas, trabalhadores, comboios e lugares sucessivos por onde os meus pais passaram.
Talvez tenha começado aí a minha vontade de movimento.
Enquanto outros viam o comboio chegar, eu imaginava para onde ele poderia levar-me.
Passei pela escola em Caria e, mais tarde, pelo ensino secundário na Covilhã. A cidade ampliou o meu horizonte. Os livros fizeram o resto.
Quanto mais estudava, mais apertado se tornava o crivo através do qual avaliava aquilo que me diziam. Nunca tive grande vocação para aceitar verdades apenas porque alguém investido de autoridade as pronunciava.
Comecei assim a compreender melhor o Portugal do "respeitinho", da autoridade e da obediência.
E comecei também a perceber que não queria viver dessa maneira.
A minha rebeldia nunca foi apenas política. Era, antes de tudo, uma rebeldia do espírito. A ideia de alguém decidir por mim aquilo que eu poderia pensar sempre me pareceu profundamente estranha.
Por isso, quando chegou o 25 de Abril de 1974, não senti propriamente surpresa.
Senti que estava finalmente a acontecer aquilo que, mais cedo ou mais tarde, teria de acontecer.
A liberdade não me pareceu uma revolução.
Pareceu-me a normalidade a chegar atrasada.
Naturalmente, vieram depois os excessos, as convulsões, os radicalismos e as ingenuidades próprias de um país que saía de quase meio século de ditadura através de um golpe militar. Algumas coisas desiludiram-me. Outras preocuparam-me.
Mas compreendi-as.
Portugal estava atrasado e precisava de aprender depressa a viver em liberdade.
Politicamente, eu já estava suficientemente desperto para compreender a dimensão histórica daquele momento. E também já tinha percebido outra coisa: o meu lugar não poderia ficar limitado a um canto do interior de Portugal.
O meu lugar era o mundo.
Ainda não tinha viajado muito, mas já me sentia cidadão dele.
Mais tarde, através da minha vida profissional e da tecnologia, tive oportunidade de conhecer outros países, trabalhar com profissionais de outras culturas e observar sociedades diferentes da nossa.
E percebi melhor a distância que nos separava.
Mas não me assustei.
Portugal acabara de sair de uma ditadura. Era natural que estivesse atrasado. Acreditei que a democracia se consolidaria, que a educação transformaria o país e que algumas décadas seriam suficientes para recuperar uma parte substancial dessa distância.
Eu fazia projetos para a minha vida.
E fazia também, silenciosamente, projeções para Portugal.
Foi talvez aí que começou a minha maior desilusão.
Não com a democracia.
Nunca com a democracia.
Continuo a considerá-la o único espaço político compatível com a dignidade humana e o único no qual aceitaria verdadeiramente viver.
A minha desilusão foi com aquilo que fomos fazendo dela.
Passaram cinco décadas.
Portugal mudou profundamente e seria intelectualmente desonesto negá-lo. Mudaram as condições materiais, a educação, a saúde, as infraestruturas, os direitos das mulheres, a proteção social, a liberdade de expressão e inúmeras outras dimensões da nossa vida coletiva.
O Portugal onde cresci já não existe.
Felizmente.
Mas algumas coisas resistiram com uma persistência extraordinária.
A política profissionalizou-se excessivamente. Criaram-se carreiras inteiras dentro dos partidos. Reproduziram-se círculos de influência, dependências e proximidades ao poder. Mudaram os protagonistas, mas nem sempre mudaram suficientemente os métodos.
E sobretudo permaneceu uma realidade que me custa aceitar: demasiados portugueses continuam a viver com rendimentos baixos, vidas precárias e horizontes demasiado estreitos para um país europeu com mais de meio século de democracia.
Ouço também, há décadas, as mesmas promessas.
Agora será diferente.
Agora vamos crescer.
Agora vamos reformar.
Agora vamos aproximar-nos da Europa.
Agora vamos resolver os problemas estruturais.
E passam governos, legislaturas e gerações.
A estatística tornou-se entretanto uma extraordinária ferramenta política. Escolhe-se o indicador conveniente, o intervalo temporal adequado e a comparação internacional mais favorável. E durante alguns minutos podemos convencer-nos de que tudo está melhor.
Talvez esteja.
Mas depois saímos da folha de cálculo e encontramos pessoas.
E é nelas que uma sociedade deve ser medida.
O que mais me perturba, porém, não é sequer a persistência dos problemas.
É o conformismo.
Porque às vezes reconheço nos portugueses de hoje qualquer coisa daquele povo que conheci há mais de sessenta anos na aldeia dos meus avós.
Já não tiramos o chapéu ao senhor doutor.
Já não fazemos a vénia ao padre, ao médico ou ao professor.
Temos liberdade de expressão. Votamos. Protestamos. Podemos mandar um governante embora através das urnas.
Tudo isso representa uma conquista civilizacional imensa.
Mas pergunto-me se desapareceu completamente a velha submissão ou se apenas se tornou mais sofisticada.
Talvez hoje a vénia seja diferente.
Talvez seja aceitar que "Portugal é assim".
Aceitar que "não há dinheiro".
Aceitar que "não se pode fazer melhor".
Aceitar que os filhos tenham de emigrar.
Aceitar que os salários permaneçam baixos.
Aceitar que cada reforma estrutural seja novamente prometida na legislatura seguinte.
Aceitar, enfim, como inevitável aquilo que deveria provocar indignação.
E é precisamente isso que mais me dói.
Não desprezo o povo português.
Pelo contrário.
Conheci demasiado bem a sua capacidade de trabalho, a sua generosidade e a sua dignidade para aceitar facilmente que esteja condenado à resignação.
Talvez por isso continue exigente com Portugal.
Vi o mundo transformar-se diante dos meus olhos.
Quando comecei a trabalhar em informática, os computadores eram máquinas enormes, caras e inacessíveis à esmagadora maioria das pessoas. Vi nascer sucessivas gerações tecnológicas, as redes globais, a Internet, os computadores pessoais, os smartphones e agora a inteligência artificial.
Em poucas décadas fizemos coisas que, na minha juventude, pertenceriam à ficção científica.
A tecnologia ensinou-me uma lição simples: sistemas complexos podem mudar radicalmente quando existe conhecimento, vontade, organização e capacidade de execução.
Talvez seja por isso que me custa tanto aceitar a lentidão das sociedades.
Se conseguimos transformar máquinas, comunicações, medicina, ciência e conhecimento numa escala extraordinária, porque haveríamos de aceitar como inevitáveis estruturas políticas e sociais que produzem repetidamente resultados insuficientes?
Não espero perfeição.
Nunca esperei.
Sei demasiado sobre sistemas complexos para acreditar em sociedades perfeitas.
Mas esperava mais.
Muito mais.
Passaram mais de cinquenta anos desde Abril. Portugal teve democracia, integração europeia, fundos comunitários, universidades, gerações sucessivas de quadros qualificados e acesso à maior revolução tecnológica da história humana.
Já não podemos explicar eternamente aquilo que somos através daquilo que Salazar nos deixou.
Chega um momento em que uma democracia adulta tem de assumir a responsabilidade pelos seus próprios fracassos.
E talvez seja essa a minha maior desilusão com Portugal.
Não ter deixado de amar o país, mas continuar a reconhecer, sob roupas diferentes, alguns dos gestos que conheci em criança.
Já ninguém tira o chapéu quando passa o senhor doutor.
Já ninguém se curva numa vénia perante o padre ou o professor.
Somos cidadãos livres.
E isso é uma conquista imensa que nunca deverá ser relativizada.
Mas uma democracia só termina verdadeiramente a vénia quando ensina cada cidadão a olhar o poder nos olhos.
Foi esse Portugal que imaginei quando chegou Abril.
Foi esse Portugal que projetei enquanto projetava a minha própria vida.
E, apesar das desilusões, talvez permaneça em mim alguma coisa daquele rapaz curioso que olhava os comboios passar e imaginava sempre um destino para lá da estação seguinte.
Por isso ainda não desisti dele.
Continuo à espera desse Portugal.