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O País dos Espertos

Onde a inteligência ainda tem de pedir licença

Crónica · Sociedade · Portugal · 9 de Agosto de 2026

BOX DE FACTOS
  • Género: crónica de opinião e sátira social.
  • Tema: inteligência, esperteza, mérito, competência e cultura organizacional.
  • Âmbito: Portugal, usado como espaço cultural e institucional da reflexão.
  • Critério editorial: as generalizações e hipérboles pertencem ao registo satírico e não constituem uma caracterização científica dos portugueses.
"A esperteza pode ganhar uma oportunidade. A inteligência constrói possibilidades. A esperteza encontra atalhos. A inteligência constrói estradas."

Portugal sempre teve uma relação complicada com a inteligência.

Admira-a à distância, sobretudo quando já morreu, emigrou ou recebeu um prémio internacional. Aí transforma-se imediatamente em património nacional.

Enquanto está viva, porém, a inteligência dá trabalho.

Faz perguntas.

Duvida.

Contraria.

Apresenta números.

Descobre erros.

E, pecado gravíssimo numa sociedade onde tantas hierarquias sobrevivem precisamente porque ninguém pergunta demasiado, pode demonstrar que quem manda não sabe exactamente o que está a fazer.

A esperteza é muito mais simpática.

A esperteza não ameaça o sistema.

Adapta-se a ele.

Descobre por onde entrar, quem conhecer, a quem telefonar, em que porta bater e, se necessário, qual a porta que nunca deveria existir mas que misteriosamente se abre para alguns.

O inteligente pergunta:

— Porque fazemos isto desta maneira?

O esperto pergunta:

— Quem é que eu conheço para resolver isto?

E assim começa uma pequena diferença linguística que, multiplicada por algumas décadas, pode transformar-se numa diferença civilizacional.

Porque a inteligência procura compreender o mundo.

A esperteza procura sobreviver-lhe.

A inteligência pensa nas consequências.

A esperteza pensa no próximo passo.

A inteligência pergunta se uma decisão é correcta.

A esperteza pergunta se alguém vai descobrir.

E convenhamos: entre uma e outra, construímos durante demasiado tempo uma cultura de enorme tolerância para com a segunda.

Não existe talvez expressão mais portuguesa do que:

"Ele sabe mexer-se."

É uma frase extraordinária.

Pode significar competência.

Mas frequentemente significa outra coisa.

Significa que conhece pessoas.

Que sabe com quem falar.

Que sabe evitar obstáculos.

Que conhece os corredores invisíveis das instituições.

Que sabe quando deve telefonar, quando deve calar-se e quando deve elogiar alguém cuja genialidade ainda não foi detectada pela ciência.

Curiosamente, raramente ouvimos:

"Ele sabe muito."

Isso já é território perigoso.

Porque quem sabe muito pode começar a fazer perguntas.

E perguntas são uma ameaça séria para qualquer organização construída em torno da sagrada estabilidade do cargo.

Há empresas onde um trabalhador incompetente pode permanecer décadas sem causar grande perturbação.

Mas basta entrar alguém competente para começar o caos.

De repente descobre-se que determinados procedimentos não fazem sentido.

Que certos relatórios não servem para nada.

Que existem três departamentos a fazer aquilo que poderia ser feito por uma pessoa e uma folha de cálculo.

Que determinada reunião semanal poderia ser substituída por um email de quatro linhas.

Isto é intolerável.

Há pessoas que construíram carreiras inteiras precisamente em torno dessas reuniões.

A inteligência possui, portanto, um defeito terrível:

torna visível aquilo que muitos preferiam manter invisível.

A mediocridade organizada desenvolveu ao longo dos séculos excelentes mecanismos de defesa.

Um dos mais eficazes chama-se hierarquia.

Outro chama-se burocracia.

E existe ainda um terceiro, particularmente sofisticado:

"sempre fizemos assim".

Esta frase deveria estar gravada à entrada de muitas instituições.

Não como lema.

Como aviso.

Porque existem países onde a tradição é preservar aquilo que funciona.

Por cá, demasiadas vezes, tradição significa preservar aquilo que ninguém teve coragem de questionar.

Mas há ainda uma coisa que a inteligência faz particularmente mal.

Não sabe vender-se.

A verdadeira competência tende a carregar consigo uma certa consciência da complexidade.

Quem sabe muito sabe também tudo aquilo que ainda não sabe.

Por isso hesita.

Explica.

Contextualiza.

Admite dúvidas.

O ignorante, pelo contrário, possui uma vantagem competitiva extraordinária:

tem certezas.

Nenhuma dúvida atrapalha a sua apresentação em PowerPoint.

Nenhuma nuance interfere com o entusiasmo.

Nenhum conhecimento inconveniente limita a promessa.

É assim que frequentemente alguém que estudou um problema durante vinte anos fala durante vinte minutos, enquanto outro que o descobriu ontem explica durante duas horas como vai resolvê-lo.

E, misteriosamente, o segundo parece mais convincente.

A humanidade é assim.

Inventámos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz, mas continuamos facilmente impressionados por alguém que fala alto numa reunião.

Portugal apenas aperfeiçoou a técnica.

A esperteza tornou-se uma espécie de inteligência social paralela.

Não interessa necessariamente saber fazer.

Interessa saber parecer.

Não interessa construir.

Interessa posicionar.

Não interessa resolver o problema.

Interessa garantir que, quando o problema explodir, a responsabilidade pertença a outro departamento.

Existe uma enorme ciência nacional na arte de circular responsabilidades.

Talvez um dia seja estudada nas universidades.

Curso superior de Desresponsabilização Aplicada.

Com mestrado em Transferência Estratégica de Culpa.

E doutoramento em Comissão de Inquérito.

O problema seria apenas cómico se não tivesse consequências.

Porque sociedades que premiam sistematicamente a esperteza acabam por enviar uma mensagem muito clara às gerações seguintes.

Não precisas necessariamente de ser excelente.

Precisas de saber chegar.

Não precisas de dominar profundamente uma profissão.

Precisas de dominar os mecanismos que decidem quem sobe nessa profissão.

Não precisas de produzir valor excepcional.

Precisas de garantir que o teu valor seja percebido como excepcional.

E pouco a pouco acontece uma transformação profunda.

A pergunta deixa de ser:

"Como posso tornar-me realmente bom?"

E passa a ser:

"Como consigo chegar lá?"

Parecem perguntas semelhantes.

Não são.

A primeira constrói competência.

A segunda constrói estratégias.

A primeira produz conhecimento.

A segunda produz carreiras.

A primeira cria instituições sólidas.

A segunda cria excelentes cartões de visita.

Depois perguntamo-nos por que razão tantos portugueses altamente qualificados encontram reconhecimento no estrangeiro.

Talvez porque, em determinados ambientes, competência seja considerada um recurso.

Enquanto noutros ainda é vista como uma ameaça hierárquica.

Existe uma velha tentação nacional de desconfiar de quem se destaca.

Se alguém demonstra demasiado conhecimento, rapidamente surgem perguntas fundamentais:

"Quem é que ele pensa que é?"

Não perguntamos:

"Será que tem razão?"

Perguntamos:

"Quem é ele para dizer isso?"

É uma diferença extraordinariamente reveladora.

Porque uma cultura de mérito avalia ideias.

Uma cultura de estatuto avalia pessoas.

O resultado é previsível.

Quem pensa demasiado torna-se incómodo.

Quem concorda muito torna-se confiável.

Quem questiona é difícil.

Quem obedece é "uma pessoa de equipa".

E assim alguns dos melhores aprendem uma lição amarga:

para sobreviver profissionalmente talvez seja necessário parecer menos inteligente do que realmente são.

É difícil imaginar desperdício maior.

Um país pequeno como Portugal não pode dar-se ao luxo de desperdiçar inteligência.

Não temos centenas de milhões de habitantes.

Não temos recursos naturais inesgotáveis.

Não podemos compensar incompetência institucional com escala.

O nosso principal recurso sempre será aquilo que existe entre as orelhas de cada cidadão.

Conhecimento.

Criatividade.

Capacidade técnica.

Imaginação.

Pensamento crítico.

Tudo coisas ligeiramente perigosas para quem prefere ambientes previsíveis.

Portugal não sofre de falta de inteligência.

Seria até absurdo afirmá-lo.

Temos cientistas extraordinários, engenheiros brilhantes, médicos excepcionais, empresários criativos, técnicos altamente competentes, investigadores reconhecidos internacionalmente e pessoas capazes de construir praticamente tudo quando lhes dão condições.

O problema é outro.

A inteligência portuguesa frequentemente precisa de vencer primeiro Portugal para depois poder vencer o mundo.

É uma corrida com obstáculos desnecessários.

Talvez por isso exista uma relação tão curiosa com aqueles que triunfam fora.

Quando partem, eram apenas mais uns.

Quando regressam com reconhecimento internacional, tornaram-se "um orgulho nacional".

É fascinante.

O país consegue exportar talento e importar prestígio.

Uma espécie de balança comercial intelectual.

Mas talvez esteja lentamente a mudar.

As novas gerações têm acesso directo ao conhecimento mundial.

Trabalham remotamente.

Criam empresas fora das estruturas tradicionais.

Colaboram internacionalmente.

Aprendem sem pedir autorização.

E, sobretudo, começam a perceber uma coisa profundamente libertadora:

não é necessário esperar que uma hierarquia reconheça o nosso valor para que ele exista.

Isso pode ser revolucionário.

Porque a inteligência floresce quando encontra liberdade.

E sociedades inteligentes não são aquelas onde todos têm diplomas.

São aquelas onde ninguém precisa de pedir licença para pensar.

Portugal precisa menos da cultura do "desenrascanço" e mais da cultura da competência.

Menos da pergunta:

"Conheces alguém?"

E mais da pergunta:

"Sabes fazer?"

Menos reverência pelo estatuto.

Mais respeito pelo conhecimento.

Menos promoção da obediência.

Mais espaço para a dúvida.

Porque a esperteza pode ganhar uma oportunidade.

A inteligência constrói possibilidades.

A esperteza encontra atalhos.

A inteligência constrói estradas.

E um país que passa demasiado tempo à procura de atalhos acaba inevitavelmente por descobrir uma coisa desagradável:

os outros já chegaram.

Talvez um dia Portugal deixe finalmente de desconfiar daqueles que pensam demasiado.

Talvez perceba que inteligência não é arrogância.

Que competência não é ameaça.

Que discordância não é deslealdade.

E que alguém capaz de demonstrar que estamos errados pode ser precisamente a pessoa de que mais precisamos.

Nesse dia talvez deixemos de celebrar tanto o esperto.

E comecemos finalmente a respeitar o inteligente antes de ele emigrar, morrer ou aparecer numa fotografia a receber um prémio.

Seria progresso.

Não tão espectacular como inaugurar uma rotunda.

Mas provavelmente muito mais útil.

Nota Editorial

Esta crónica é um ensaio satírico sobre mérito, competência, estatuto e comportamento organizacional. A oposição entre "inteligência" e "esperteza" funciona aqui como recurso literário: não pretende estabelecer uma medida científica da cultura portuguesa nem atribuir características psicológicas uniformes a uma população.

Existe, contudo, investigação internacional que dá contexto a vários mecanismos abordados no texto. Benson, Li e Shue encontraram, em dados de 131 empresas norte-americanas, evidência consistente com o chamado "Princípio de Peter": organizações podem promover trabalhadores pelo desempenho no cargo actual mesmo quando outras características predizem melhor o desempenho de gestão. A investigação clássica de Amy Edmondson sobre segurança psicológica mostrou também a importância de ambientes onde as pessoas podem questionar, admitir erros, procurar feedback e aprender sem receio de punição interpessoal.

No caso português, a OCDE voltou a colocar em 2026 a produtividade, a qualidade da gestão, a inovação e a simplificação administrativa entre os desafios estruturais do país. A OCDE assinalou que a produtividade do trabalho permanecia cerca de 17% abaixo da média da organização e que uma fatia relevante do emprego empresarial se concentra em microempresas, frequentemente com limitações de gestão profissional, tecnologia e inovação. Estes dados não "provam" a sátira; apenas mostram que discutir competência, organização, produtividade e capacidade institucional está longe de ser um luxo retórico.

Francisco Gonçalves

Fragmentos do Caos · 9 de Agosto de 2026

Um país pode sobreviver durante muito tempo graças aos espertos, mas só progride verdadeiramente graças aos inteligentes.
- Francisco Gonçalves (2026)
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