O proprietário pode nascer da pertença

O proprietário pode nascer da pertença
Todos temos a impressão imediata de que existe um «Eu» no centro da experiência. O meu corpo, os meus pensamentos, as minhas memórias, as minhas ações. Parece tão natural que raramente interrogamos a ordem causal escondida nesta frase: será que existe primeiro um Eu que depois se apropria das experiências, ou poderá o próprio Eu emergir da apropriação recorrente dessas experiências?
O Modelo de Biofeedback Recursivo do Self — MBRS explora a segunda possibilidade.
Depois de emergir, porém, o Self deixa de ser apenas resultado. Passa a participar no sistema que o produziu, influenciando atenção, valoração, previsão, memória e ação. É precisamente esta recursividade que constitui o núcleo do MBRS.
1. Talvez tenhamos começado a pergunta pelo lado errado
Habitualmente imaginamos algo semelhante a isto:Primeiro existiria o sujeito; depois o sujeito reconheceria a experiência como sua. O MBRS propõe inverter esta relação:
Isto significa que o proprietário não teria necessariamente de existir antes da relação de pertença. Poderá ser a repetição extraordinariamente persistente dessa relação que acaba por construir o proprietário.
O organismo recebe continuamente informação do corpo e do mundo. Vê através destes olhos. Ouve a partir desta posição. A dor surge neste corpo. Esta mão move-se quando determinados comandos motores são produzidos. As consequências dessa ação regressam ao mesmo sistema. As memórias formadas por essas experiências alteram o modo como experiências futuras serão processadas.
Durante toda a vida, milhares de milhões de acontecimentos diferentes possuem uma regularidade notável: acontecem sempre a partir do mesmo centro biológico de referência.
É essa invariância através da mudança que pode estar na origem do Eu.
2. O cérebro não parece possuir um maestro
A arquitetura cerebral conhecida não se parece com uma sequência simples do tipo:
Existem inúmeros processos distribuídos que operam simultaneamente: visão, audição, proprioceção, interoceção, equilíbrio, memória, nociceção, previsão, valoração, linguagem e controlo motor. É uma espécie de orquestra sem maestro.
A investigação sobre consciência corporal aponta igualmente para uma arquitetura distribuída. Uma meta-análise publicada em 2025, reunindo 56 estudos de neuroimagem, encontrou padrões parcialmente distintos para body ownership e sense of agency, juntamente com regiões de sobreposição associadas à integração multissensorial e à autoatribuição.
Não introduzimos um Pmaestro, porque isso seria apenas esconder o problema dentro de outro nome.
3. O rio que nunca pára
Um dos elementos fundamentais do modelo é aquilo a que chamámos o rio: a corrente incessante de informação interna e externa que atravessa o organismo.
R representa o fluxo informacional; N, o processamento distribuído não consciente; G, uma configuração transitoriamente integrada; C, a corrente consciente; F, o foco; e S, o Self.
Grande parte da informação é processada sem chegar ao foco consciente. E aquilo que chega à consciência já foi transformado: características foram extraídas, objetos reconhecidos, localizações calculadas, relevância avaliada, previsões comparadas e relações com o próprio organismo estabelecidas.
O Self não é o rio, não é a consciência inteira e não é o foco da atenção. É algo que pode emergir dentro desta dinâmica.
4. Antes do Eu pode existir apenas «este organismo»
Muito antes de uma criança poder pensar «Eu sou eu», o sistema nervoso necessita de distinguir informação proveniente do próprio organismo da informação proveniente do exterior. Chamamos a esta infraestrutura proto-Eu ou proto-Self.
Não significa um pequeno Eu escondido no cérebro. Significa um referencial biológico dinâmico:
Em termos intuitivos: AQUI — NESTE CORPO — AGORA. Nada disto exige ainda um Self autobiográfico.
5. A apropriação entra em cena
Chegamos ao elemento central do MBRS. Chamemos Ω(t) à relação de apropriação. A palavra não é utilizada no sentido jurídico de propriedade; significa a relação pela qual determinada coisa é representada como pertencendo, acontecendo ou sendo causada pelo mesmo organismo.
Estas dimensões correspondem, respetivamente, à pertença do corpo, da experiência, da memória, da autoria da ação e da origem dos conteúdos mentais.
A hipótese importante é esta: a apropriação pode existir em formas elementares antes de existir um Eu autobiográfico capaz de dizer «isto é meu».
Uma dor não precisa de aparecer primeiro como informação neutra para depois um Eu declarar «esta dor pertence-me». A própria experiência pode chegar já corporalmente situada: dói aqui.
6. A inversão fundamental do modelo
em vez de assumir simplesmente:
Imagine-se uma sucessão gigantesca de experiências E₁, E₂, E₃ … Eₙ. Mudam imagens, sons, pensamentos, estados emocionais e estados corporais. Mas permanece uma regularidade: todas continuam referenciadas ao mesmo ser.
Chamamos a essa propriedade ΓR — continuidade referencial.
O Self poderá não ser aquilo que permanece igual, mas aquilo que estabelece continuamente: «o que mudou continua a acontecer ao mesmo ser».
7. O Self como invariância através da mudança
O Self não é a soma das memórias, nem a soma das emoções, nem o corpo, nem uma fotografia instantânea da atividade cerebral. É uma organização relacional temporalmente persistente.
O conteúdo muda. A referência persiste.
8. A memória não é o Self
A perda de memória não implica necessariamente a perda completa do Eu. Rathbone, Moulin e Conway descreveram um caso de amnésia retrógrada em que se mantinha um sentido coerente e contínuo de Self apesar da perda de memórias episódicas de um período de 18 meses. O conhecimento autobiográfico conceptual contribuía para essa continuidade.
Outros casos mostram, porém, que factos autobiográficos e conhecimento sobre traços pessoais também podem ser afetados. A relação memória–Self é, portanto, heterogénea, não uma divisão modular perfeita.
O livro da vida pode perder capítulos sem que desapareça necessariamente o leitor presente.
9. Também somos aquilo que fazemos
A investigação distingue propriedade corporal e autoria da ação como componentes relacionados mas parcialmente dissociáveis. À relação «isto acontece neste ser» junta-se outra: «este ser fez isto acontecer».
Aqui aparece uma propriedade fundamental do MBRS: o Self é simultaneamente produto e participante da dinâmica que o produz.
10. Depois de nascer, o proprietário aumenta a propriedade
Inicialmente, a apropriação poderá contribuir para construir o Self. Depois de constituído, o domínio de pertença expande-se.
Já não temos apenas «o meu corpo». Temos a minha memória, a minha casa, os meus projetos, a minha família, o meu país, as minhas ideias. Nada disso faz biologicamente parte do organismo, mas pode passar a integrar a esfera representacional do Self.
Quanto maior for a integração de algo na história e no domínio do Self, maior poderá ser a alteração produzida pela sua perda ou ameaça.
11. O «meu», o apego e o sofrimento
O mesmo princípio pode aplicar-se a relações humanas, com uma distinção essencial: uma pessoa não se torna propriedade de outra porque foi incorporada no seu Self. O modelo descreve uma representação psicológica de pertença; não a legitima moral ou juridicamente.
Existe aqui uma aproximação interessante às tradições contemplativas que relacionam Eu, apego e sofrimento. O MBRS não pretende transformar o budismo numa teoria neurocientífica, mas permite formular uma hipótese: quanto mais rígida for a incorporação de determinado elemento no domínio do Self, maior poderá ser o impacto da sua perda.
12. Quando as peças do Eu se separam
Uma teoria do Self torna-se mais interessante quando explica não apenas a unidade, mas também as dissociações. Há perturbações da pertença de partes do corpo, alterações da autoria da ação e dissociações entre memória e identidade.
Na perturbação dissociativa da identidade, uma revisão sistemática e meta-análise de 2024 encontrou um quadro heterogéneo: parte das análises foi compatível com transferência de memória entre estados identitários, enquanto outras mostraram padrões mais próximos de amnésia interidentitária. Os autores salientaram limitações metodológicas importantes. Em 2025 foi publicado um corrigendum ao artigo, que deve acompanhar a leitura da revisão.
O Self não parece ser uma soma simples de interruptores. O MBRS propõe uma organização distribuída capaz de sobreviver à alteração de alguns componentes.
13. Colocámos a hipótese dentro do computador
Para evitar que o MBRS permanecesse apenas uma narrativa filosófica, construímos sucessivas simulações conceptuais. Não simulámos consciência. Construímos agentes com sensores, integração, modelo do mundo, referência ao organismo, memória, previsão, valoração, distinção próprio/outro, ação, autoria e continuidade.
Foi possível produzir uma arquitetura com muitas das funções associadas ao Self sem introduzir uma variável de experiência subjetiva. O resultado não prova que a experiência seja independente da função; impede-nos, isso sim, de declarar consciência apenas porque um sistema apresenta complexidade funcional.
14. A experiência K: não esconder a consciência numa variável
Numa experiência conceptual introduzimos uma variável hipotética K. Quando K existia mas estava causalmente desligada, não surgia qualquer diferença de comportamento ou relatório. Quando passava a influenciar o relatório metacognitivo, tornava-se simplesmente parte da arquitetura funcional.
O exercício expõe um limite epistemológico: não resolvemos o problema fenomenal acrescentando ao diagrama uma caixa chamada «consciência».
15. Biofeedback com história
Noutra experiência introduzimos memória plástica num ciclo fechado:
O organismo ganhou passado. A mesma perturbação deixou de produzir necessariamente a mesma resposta porque experiências anteriores tinham modificado o sistema. O presente passou a depender da história.
16. Tentámos depois desmontar o Self
Em vez de tentar produzir o Self, começámos a retirar seletivamente componentes de apropriação: corpo, experiência, memória, autoria e fonte. O modelo produziu perfis diferenciais.
Retirar a memória prejudicou sobretudo a continuidade autobiográfica, preservando muito mais o referencial presente. Retirar simultaneamente pertença corporal e experiencial produziu degradação muito maior do Self presente.
Os números são consequências das equações e pesos escolhidos; não são estimativas do cérebro humano. O valor científico está nas dissociações previstas, que podem ser confrontadas com neuropsicologia real.
17. É aqui que a hipótese começa a tornar-se científica
O MBRS não deve ser avaliado pela sua elegância, mas pela capacidade de sobreviver a testes que poderiam contradizê-lo. Entre as previsões encontram-se a preservação relativa do Self presente em certas amnésias, a dissociação entre autoria e propriedade corporal, a dissociação entre conteúdo consciente e atribuição da sua fonte, e a possibilidade de perturbações locais do corpo sem colapso global do Self.
A previsão talvez mais específica é que a persistência do Self acompanhe melhor a continuidade do referencial do que a semelhança dos conteúdos mentais.
18. Como destruir o MBRS
Se encontrarmos um Self presente, estável e integrado na ausência sistemática de relações de pertença corporal, experiencial, causal e temporal, a hipótese constitutiva ficará seriamente enfraquecida.
Se manipulações seletivas das dimensões de Ω não produzirem as dissociações previstas, a decomposição estará errada. Se o desenvolvimento mostrar que o Self surge consistentemente antes de qualquer forma relevante de pertença pré-reflexiva, a direção Ω → S ficará comprometida.
E se uma teoria mais simples explicar os mesmos fenómenos, fizer previsões melhores e tornar Ω desnecessário, o MBRS deverá ser reformulado ou abandonado.
Esse é o risco que transforma uma ideia interessante numa hipótese científica.
19. E a consciência?
Aqui é necessário manter uma fronteira rigorosa. O MBRS procura responder a uma pergunta: como pode surgir o Eu numa corrente de experiência? Não resolveu a pergunta anterior: por que existe experiência subjetiva?
O teste adversarial publicado na Nature em 2025 confrontou diretamente previsões da Global Neuronal Workspace Theory e da Integrated Information Theory, encontrando resultados que apoiaram alguns aspetos e desafiaram outros. A própria investigação contemporânea da consciência continua, portanto, sem uma explicação única consensual.
20. O Eu talvez seja um verbo
Talvez a pergunta «onde está o Self?» esteja mal formulada. Seria semelhante a perguntar onde está exatamente uma onda no oceano. A onda existe, pode ser medida, tem efeitos físicos e possui continuidade, mas não é uma coisa separável da dinâmica que a produz.
O organismo mantém incessantemente mapas do corpo e do mundo. A experiência corre como um rio. A memória introduz o passado. A previsão projeta futuros. A ação transforma o mundo. As consequências regressam ao organismo. E uma enorme diversidade de acontecimentos continua a ser referenciada ao mesmo centro.
Da repetição emerge continuidade. Da continuidade emerge uma história. E da persistência da relação «isto acontece neste ser» pode acabar por emergir:
O proprietário não precisa de preceder a pertença; pode emergir da continuidade recorrente da própria relação de pertença.
Se esta hipótese resistir às experiências destinadas a destruí-la, teremos avançado um pouco na compreensão de uma das construções mais extraordinárias da biologia: um organismo que não apenas existe, mas que se reconhece, através do tempo, como sendo aquele a quem a existência está a acontecer.
Referências científicas internacionais
- Brunello N. et al. (2025), Neuroscience & Biobehavioral Reviews — A systematic review and meta-analysis on the neural correlates of bodily self-consciousness.
- Cogitate Consortium, Ferrante O. et al. (2025), Nature — Adversarial testing of global neuronal workspace and integrated information theories of consciousness.
- Rathbone C.J., Moulin C.J.A., Conway M.A. (2009), Neurocase — Autobiographical memory and amnesia: using conceptual knowledge to ground the self.
- Beker J.C., Dorahy M.J., Moir J., Cording J. (2024), Clinical Psychology Review — Inter-identity amnesia and memory transfer in dissociative identity disorder: a systematic review with a meta-analysis.
- Beker J.C. et al. (2025), Clinical Psychology Review — Corrigendum to the 2024 inter-identity amnesia meta-analysis.
- Neurofunctional correlates of body-ownership and sense of agency: a meta-analytical account of self-consciousness (2019).
Recursive Biofeedback Model of the Self