Fragmentos do Caos · FC-Chronic-News

Os Mercados

Uma reflexão escrita em 2010

Francisco Gonçalves · 7 de Outubro de 2010

Vivemos tempos em que a esperteza parece dominar tudo e todos.

Vale quase tudo em nome dessa entidade abstracta, omnipresente e aparentemente soberana a que chamamos "os mercados".

Os mercados exigem.
Os mercados desconfiam.
Os mercados penalizam.
Os mercados precisam de ser tranquilizados.

E, perante eles, parece que todos devemos obedecer.

Em seu nome explica-se quase tudo: o abandono dos mais velhos, a redução das reformas, as famílias empobrecidas, as crianças com fome ou sem perspectivas de futuro, os jovens que vêem a educação transformar-se num privilégio quando os pais mal conseguem assegurar o essencial.

Explicam-se os sacrifícios dos mesmos de sempre enquanto se procuram palavras suficientemente sofisticadas para justificar alguns dos maiores prejuízos impostos ao património colectivo.

Explica-se a desigualdade.

Explica-se a injustiça.

Explica-se até o inexplicável.

E, quando já não resta explicação plausível, pronuncia-se novamente a palavra mágica: os mercados.

Como se os mercados fossem uma força da natureza.

Como se fossem a chuva, o vento ou a gravidade.

Como se atrás deles não existissem pessoas, instituições, interesses, decisões e responsabilidades.

A linguagem política acompanha esta transformação. O discurso torna-se progressivamente mais distante da realidade quotidiana. Multiplicam-se justificações, inevitabilidades e verdades provisórias. Aquilo que ontem era impossível torna-se hoje indispensável; aquilo que ontem era prometido transforma-se amanhã numa impossibilidade determinada pelas circunstâncias.

E a responsabilidade evapora-se.

Vivemos um tempo em que o absurdo parece ter assentado arraiais e em que a inteligência colectiva corre o risco de ficar soterrada por uma permanente sucessão de explicações destinadas, não a esclarecer a realidade, mas a torná-la suportável.

Há, porém, algo talvez ainda mais inquietante.

O silêncio

Vivemos também um tempo de "silêncio dos inocentes".

Onde estão aqueles que vêem?

Onde estão aqueles que compreendem?

Onde estão os que deveriam levantar a voz quando os mais frágeis suportam desproporcionadamente os custos das crises?

E onde estão os outros — aqueles que durante décadas foram solenemente apresentados como as "forças vivas da nação", ou mesmo como uma espécie de "reserva moral da nação"?

Que força permanece viva quando escolhe o silêncio?
Que autoridade moral sobrevive à indiferença?

Uma sociedade não pode avaliar-se apenas pelos seus índices económicos, pelos juros da dívida, pelas cotações bolsistas ou pela confiança dos investidores.

Avalia-se também pela forma como trata quem envelheceu, quem trabalha, quem perdeu o emprego, quem nasceu numa família pobre e quem ainda procura uma oportunidade para construir o futuro.

A economia é indispensável.

Os mercados também são.

Mas nenhum deles constitui uma moral.

Nenhum indicador económico pode substituir a responsabilidade política, a justiça ou a dignidade humana.

Porque talvez o verdadeiro perigo comece precisamente quando transformamos instrumentos económicos em entidades superiores às próprias sociedades que deveriam servir.

Nesse momento deixamos de perguntar:

"Que sociedade queremos construir?"

E passamos simplesmente a perguntar:

"O que exigem os mercados?"

Quando uma democracia chega aí, talvez seja tempo de inverter novamente a pergunta.

Nota editorial · 2026

Este texto nasceu em 7 de Outubro de 2010, no período em que a crise financeira internacional se transformava na crise das dívidas soberanas europeias. É aqui republicado numa versão editorialmente polida, preservando a tese, o tom e a indignação do original.

O contexto histórico posterior ajuda a enquadrar aquela inquietação. Em Abril de 2011, Portugal pediu assistência financeira à União Europeia e ao FMI; o programa, formalmente acordado em Maio, ascendeu a 78 mil milhões de euros e vigorou até 2014. Os documentos do próprio programa incluíram consolidação orçamental, reformas estruturais, estabilização financeira, reduções e congelamentos em determinadas pensões e alterações na protecção no desemprego.

Esta crónica é um texto de opinião. A expressão "os mercados" é aqui criticada enquanto abstracção retórica: não pretende negar a função dos mercados financeiros, mas questionar a transferência de responsabilidade política e social para uma entidade apresentada como inevitável e impessoal.

Referências e enquadramento internacional

  1. European Commission — Financial assistance to Portugal. Registo oficial do pedido de assistência de 7 de Abril de 2011, do acordo de Maio e do pacote de €78 mil milhões. European Commission.
  2. International Monetary Fund — Portugal: Request for a Three-Year Arrangement Under the Extended Fund Facility. Relatório de Junho de 2011 sobre a crise portuguesa, ajustamento orçamental, desemprego e reformas previstas. IMF.
  3. Reuters — Portugal finance minister says will need aid from EU. Em 6 de Abril de 2011, a Reuters relatava a subida das yields, os cortes de rating e a pressão dos mercados que antecederam o pedido de assistência. Reuters.
  4. The Guardian — Portugal's crisis: Out of options. Editorial de Abril de 2011 sobre custos de financiamento, austeridade e a crise da dívida soberana portuguesa. The Guardian.
  5. IMF — Second Review Under the Extended Arrangement. O relatório de Dezembro de 2011 registava desemprego de 12,4% no terceiro trimestre, desemprego jovem de 30% e 44% de desemprego de longa duração. IMF.

Francisco Gonçalves
Texto original: 7 de Outubro de 2010 · Edição: 24 de Setembro de 2026

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