Portugal em 5G, o Estado em Papel Almaço

O estranho desacerto civilizacional português

Portugal quer ser uma sociedade tecnologicamente avançada.

Quer inteligência artificial.

Quer empresas digitais.

Quer centros de dados.

Quer startups.

Quer atrair investimento estrangeiro.

Quer aumentar a produtividade.

Quer exportar tecnologia.

Quer investigação, inovação, indústria avançada e trabalhadores altamente qualificados.

Quer, em suma, entrar definitivamente no século XXI.

Depois um cidadão decide construir uma casa.

E encontra o século XX à sua espera.

Não necessariamente no computador.

No computador está tudo muito moderno.

Há um portal.

Há autenticação electrónica.

Há um formulário online.

Há uma mensagem simpática:

É neste momento que começa o problema.

Porque o pedido foi submetido ao futuro.

Mas o processo continua a viver no passado.

A modernidade da fachada

Portugal tornou-se particularmente competente numa coisa: modernizar a aparência das instituições sem necessariamente modernizar a sua lógica.

O balcão transformou-se num portal.

O impresso transformou-se num PDF.

A assinatura passou a ser digital.

A pasta de cartão passou para um servidor.

O funcionário deixou de carimbar fisicamente algumas páginas.

Excelente.

Mas se continuarmos a pedir exactamente as mesmas autorizações, pareceres, declarações, certidões, confirmações, validações e demonstrações, não fizemos transformação digital.

Fizemos conservação digital da burocracia.

Pegámos na repartição pública e colocámo-la na cloud.

É uma conquista tecnológica admirável.

Agora podemos perder tempo à velocidade da fibra óptica.

A extraordinária invenção do PDF

Talvez o símbolo perfeito da modernização administrativa portuguesa seja o PDF.

O PDF permitiu realizar um sonho que gerações de burocratas julgariam impossível:

Criámos assim uma espécie de burocracia ecologicamente sustentável.

Já não precisamos de árvores para produzir documentos inúteis.

Podemos produzir milhões deles electronicamente.

Declarações.

Certidões.

Anexos.

Formulários.

Memórias descritivas.

Comprovativos.

Pareceres.

Cópias autenticadas.

Cópias de cópias autenticadas.

E, naturalmente, documentos destinados a demonstrar que os documentos anteriores foram devidamente apresentados.

Tudo armazenado em servidores modernos, climatizados e redundantes.

O século XXI finalmente ao serviço do procedimento administrativo do século XX.

Queremos empresas rápidas dentro de um Estado lento

É aqui que o problema deixa de ser apenas cómico.

Porque uma economia moderna vive de velocidade.

Uma empresa precisa de decidir depressa.

Precisa de investir depressa.

Precisa de contratar depressa.

Precisa de lançar produtos depressa.

Precisa de experimentar, falhar, corrigir e voltar a tentar.

Os mercados internacionais não suspendem actividade enquanto esperamos um parecer.

A tecnologia não aguarda pela reunião da comissão do próximo mês.

A inteligência artificial não interrompe o treino do modelo porque falta uma declaração em duplicado.

O capital também não tem grande vocação sentimental.

Vai para onde consegue funcionar.

E depois queremos competir internacionalmente colocando empresas do século XXI dentro de estruturas administrativas cuja relação com o tempo parece ter sido definida quando uma carta Lisboa-Porto demorava dois dias.

Há qualquer coisa de profundamente contraditório nisto.

Pedimos às empresas que sejam ágeis.

Mas obrigamo-las a interagir com instituições lentas.

Pedimos-lhes inovação.

Mas rodeamo-las de procedimentos concebidos para minimizar qualquer possibilidade de risco.

Pedimos empreendedorismo.

Mas tratamos frequentemente quem toma iniciativa como alguém que necessita primeiro de autorização.

Queremos acelerar a economia mantendo o travão de mão administrativo puxado.

E depois organizamos conferências para discutir a produtividade.

O Estado que desconfia

Existe uma filosofia escondida por baixo de grande parte desta máquina.

A desconfiança.

O cidadão precisa de provar.

A empresa precisa de provar.

O técnico precisa de provar.

O proprietário precisa de provar.

Todos precisam de provar que estão autorizados a fazer aquilo que pretendem fazer.

Mesmo quando existem profissionais habilitados a assumir responsabilidade.

Mesmo quando a informação já está noutro organismo público.

Mesmo quando o risco é reduzido.

Mesmo quando qualquer irregularidade poderia ser facilmente fiscalizada posteriormente.

Criámos um Estado que tenta impedir antecipadamente todas as possíveis infracções através de controlo administrativo.

O resultado inevitável é controlar milhões de pessoas que nunca tiveram intenção de cometer qualquer infracção.

É um método extraordinariamente ineficiente de apanhar os poucos que realmente pretendem enganar o sistema.

Seria como mandar todos os passageiros de um avião desmontar as malas peça por peça porque alguém pode transportar um objecto proibido.

Funciona.

Só deixamos de ter aviação comercial.

A responsabilidade que ninguém quer

Há também uma característica particularmente portuguesa nesta arquitectura.

Todos intervêm.

Poucos decidem.

Há técnicos.

Chefias.

Departamentos.

Comissões.

Entidades consultadas.

Organismos sectoriais.

Municípios.

Direcções-gerais.

Institutos.

Empresas públicas.

Autoridades.

Cada qual possui uma pequena parcela do processo.

A responsabilidade circula entre todos com uma elegância extraordinária.

Porque decidir tem risco.

Pedir outro parecer quase nenhum.

E assim conseguimos construir sistemas administrativos onde a decisão pode atravessar cinco entidades sem que exista uma pessoa claramente responsável por explicar por que razão demorou oito meses.

Inteligência Artificial para quê?

É neste cenário que começam a aparecer discursos sobre inteligência artificial na Administração Pública.

Muito bem.

A IA poderá ser extraordinariamente útil.

Mas talvez devêssemos estabelecer uma pequena prioridade civilizacional.

Antes de ensinar um algoritmo a interpretar automaticamente milhares de documentos administrativos, talvez fosse interessante perguntar:

Porque há um risco delicioso.

Podemos introduzir inteligência artificial apenas para automatizar burocracia absurda.

Teremos então sistemas extraordinariamente sofisticados capazes de rejeitar automaticamente um processo porque falta o formulário 17-B.

O indeferimento chegará em 230 milissegundos.

Será um triunfo tecnológico.

A burocracia continuará intacta.

Mas agora com GPU.

A interoperabilidade revolucionária

Existe ainda uma inovação tecnológica que poderia transformar Portugal.

Não necessita de inteligência artificial generativa.

Não necessita de computação quântica.

Não necessita de um supercomputador.

Consiste simplesmente nisto:

Parece modesto.

Mas poderia provocar perturbações sociais profundas.

Imagine-se o cenário.

Um serviço precisa de saber se determinada pessoa é proprietária de um imóvel.

Consulta a informação.

Precisa de saber se uma empresa existe.

Consulta.

Precisa de saber se determinado imposto foi pago.

Consulta.

Precisa de confirmar determinada licença emitida por outro organismo.

Consulta.

Sem pedir ao cidadão que sirva de protocolo TCP/IP humano entre bases de dados do próprio Estado.

Milhões de portugueses poderiam subitamente descobrir tempo livre.

Seria perigoso.

Talvez começassem a produzir.

O paradoxo português

E chegamos ao estranho desacerto civilizacional.

Portugal não é um país tecnologicamente atrasado.

Esse diagnóstico seria demasiado simples.

Temos excelentes engenheiros.

Excelentes programadores.

Boas universidades.

Empresas tecnologicamente sofisticadas.

Redes modernas.

Serviços públicos digitais bastante desenvolvidos.

Competências técnicas reais.

A Comissão Europeia confirma parte deste paradoxo no seu relatório de 2026: Portugal apresenta forte conectividade e serviços públicos digitais amplamente usados e acima da média da União Europeia, mas continua atrasado face aos seus pares na adopção empresarial de tecnologias avançadas, em particular cloud e inteligência artificial.

O paradoxo está precisamente aí.

O problema português não está apenas nas ferramentas.

Está na arquitectura mental das instituições.

Na necessidade de controlar.

Na dificuldade de simplificar.

No medo de decidir.

Na incapacidade de eliminar procedimentos antigos quando surgem procedimentos novos.

Na tendência para acrescentar em vez de substituir.

Cada problema produz uma regra.

Cada excepção produz outra regra.

Cada escândalo produz uma fiscalização.

Cada falha produz um formulário.

Décadas depois ninguém consegue explicar exactamente por que razão determinado documento continua a ser necessário.

Mas continua.

Porque sempre esteve lá.

O país da legislação geológica

Portugal não tem apenas legislação.

Tem estratos.

Uma camada dos anos 50.

Outra dos anos 70.

Mais uma dos anos 90.

Uma directiva europeia.

Uma transposição.

Uma alteração.

Uma republicação.

Um regulamento municipal.

Uma portaria.

Uma interpretação.

Uma circular.

Uma plataforma electrónica.

E finalmente um Simplex destinado a simplificar aquilo que os anteriores Simplex ainda não conseguiram simplificar.

A legislação portuguesa começa, por vezes, a parecer geologia.

Para perceber o presente é preciso escavar.

E quanto mais fundo se chega, mais fascinantes são os fósseis administrativos encontrados.

Não precisamos de menos Estado

É importante dizer isto claramente.

A solução não é um Estado fraco.

Não precisamos de ausência de fiscalização.

Não precisamos de construção sem regras.

Não precisamos de empresas sem obrigações ambientais, laborais ou de segurança.

Isso seria trocar burocracia por irresponsabilidade.

Precisamos exactamente do contrário.

Um Estado mais competente.

Que faça menos coisas inúteis para conseguir fazer melhor as coisas importantes.

Que fiscalize verdadeiramente.

Que responsabilize quem mente.

Que puna quem constrói ilegalmente.

Que actue sobre quem prejudica terceiros.

Que proteja ambiente, património, segurança e direitos dos cidadãos.

Mas que deixe respirar quem cumpre as regras.

Uma Administração moderna não deve procurar controlar antecipadamente cada movimento da sociedade.

Deve estabelecer regras claras, confiar em profissionais responsáveis, cruzar dados automaticamente, fiscalizar inteligentemente e punir seriamente quem viola a lei.

Menos cerimónia.

Mais responsabilidade.

O tempo também é património

Há ainda uma mudança cultural que Portugal precisa desesperadamente de fazer.

Perceber que o tempo dos cidadãos tem valor.

Uma hora perdida num serviço público tem valor.

Uma semana de atraso num processo tem valor.

Seis meses de espera por uma licença têm valor.

Um investimento parado durante um ano tem valor.

Uma família impedida de começar uma obra durante meses sofre um custo.

Uma empresa que espera uma autorização perde oportunidades.

A Administração não pode continuar a comportar-se como se o único relógio importante fosse o prazo administrativo.

Talvez devesse ser protegido com o mesmo entusiasmo com que protegemos determinados procedimentos.

Competitividade não se decreta

É aqui que os discursos políticos sobre competitividade começam a perder substância.

Um país não se torna competitivo porque um ministro pronuncia a palavra «inovação» vinte vezes numa conferência.

Nem porque cria um portal.

Nem porque anuncia uma estratégia para inteligência artificial.

Nem porque distribui fundos europeus para transformação digital.

Competitividade é aquilo que acontece quando milhares de pessoas conseguem produzir valor com menos obstáculos.

É o tempo necessário para abrir.

Construir.

Investir.

Contratar.

Exportar.

Alterar.

Experimentar.

Resolver.

Se cada verbo necessitar de um procedimento administrativo, talvez tenhamos descoberto a origem de parte do problema.

O Banco Europeu de Investimento encontrou em 2025 um dado difícil de conciliar com qualquer discurso triunfal sobre competitividade: 82% das empresas portuguesas consideraram a regulamentação empresarial um obstáculo ao investimento, somando as respostas de obstáculo maior e menor.

A OCDE chega a uma conclusão semelhante por outra via: aumentar a produtividade portuguesa exige um ambiente empresarial mais favorável e a simplificação de processos administrativos complexos como parte da digitalização do sector público.

As pilhas de PDF na nuvem de fumo

Talvez seja essa a imagem perfeita do nosso desacerto.

Portugal olha para o futuro.

Fala de IA.

Fala de cloud.

Fala de 5G.

Fala de transição digital.

Fala de economia do conhecimento.

E entretanto a velha máquina administrativa continua tranquilamente a funcionar.

Já não produz necessariamente pilhas de papel.

Produz pilhas de PDF.

Já não ocupa apenas arquivos.

Ocupa datacenters.

Já não circula apenas por correio interno.

Circula em redes de gigabits.

É a burocracia finalmente preparada para a era digital.

A mesma lógica.

Muito mais largura de banda.

O futuro não cabe num formulário

Portugal tem capacidade humana e tecnológica para ser muito melhor do que isto.

Talvez seja precisamente por isso que o desperdício é tão irritante.

Não estamos condenados por falta de inteligência.

Estamos condicionados por excesso de estruturas.

E nenhuma transformação digital será verdadeiramente transformadora enquanto informatizarmos processos que deveriam simplesmente deixar de existir.

O grande salto tecnológico português talvez não precise de uma nova plataforma.

Talvez comece com uma pergunta extraordinariamente simples:

E com a coragem institucional de aceitar uma resposta ainda mais perigosa:

Nesse dia talvez comecemos finalmente a construir uma sociedade tecnologicamente avançada.

Até lá, continuaremos provavelmente a anunciar o futuro em conferências transmitidas por 5G enquanto alguém, algures num servidor do Estado, aguarda pacientemente pela terceira versão de um PDF que comprova uma informação que o próprio Estado já possui.

Nota Editorial

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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