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Portugal: quarenta anos a caminho da Europa — e a Europa continua lá à frente

Portugal modernizou-se profundamente desde 1986. A questão incómoda é outra: porque não transformou quatro décadas de integração europeia numa convergência equivalente de produtividade e rendimento?

Nota de abertura

Esta crónica não sustenta que a integração europeia tenha falhado. Pelo contrário: documenta uma transformação económica, social e infra-estrutural profunda. A crítica incide na diferença entre modernização e convergência: Portugal aproximou-se da Europa, mas continua significativamente abaixo da média europeia em rendimento e produtividade.

Há números que incomodam mais do que discursos.

Não gritam. Não fazem oposição. Não pertencem à esquerda nem à direita. Limitam-se a ficar ali, teimosamente, à espera de que alguém lhes faça a pergunta certa.

Portugal entrou na então Comunidade Económica Europeia em 1986. O país que entrou era profundamente diferente daquele em que hoje vivemos. Tínhamos enormes carências de infra-estruturas, qualificações muito baixas, saneamento insuficiente, uma economia pouco internacionalizada e décadas de atraso acumulado.

A Europa ajudou-nos a mudar esse país.

E mudou.

Construíram-se auto-estradas, escolas, hospitais, redes de água e saneamento, metros e outras infra-estruturas. Expandiu-se extraordinariamente o ensino superior. Modernizaram-se telecomunicações. Empresas portuguesas começaram a exportar para mercados que anteriormente pareciam distantes.

Negar esta transformação seria intelectualmente desonesto.

Mas há outra pergunta que Portugal parece ter muito mais dificuldade em fazer:

Depois de quarenta anos de integração europeia, quanto convergimos realmente com a Europa em produtividade e rendimento?

O grande salto — e depois o travão

Quando Portugal entrou na CEE, o PIB per capita em paridade de poder de compra correspondia a cerca de 54,4% da média da Comunidade. Nos primeiros anos aconteceu aquilo que seria de esperar: convergimos rapidamente. Em 1998 já tínhamos atingido cerca de 72%.

Parecia que o caminho estava traçado. Mais investimento, mais educação, mais integração económica e, algumas décadas depois, Portugal estaria próximo das economias mais desenvolvidas da Europa.

Só que alguma coisa aconteceu.

A convergência perdeu velocidade. Durante largos períodos quase parou.

Os dados mais recentes colocam Portugal ainda claramente abaixo da média da União Europeia em PIB per capita medido em paridades de poder de compra. O país progrediu, mas vários Estados da Europa Central que aderiram à União muito depois fizeram uma convergência particularmente rápida.

Não se trata de invejar polacos, checos ou eslovenos. Trata-se de fazer uma pergunta simples: o que permitiu a algumas dessas economias convergir mais depressa?

A palavra que ninguém consegue contornar

Produtividade.

Os relatórios recentes da Comissão Europeia continuam a identificar a baixa produtividade como uma limitação estrutural à competitividade portuguesa.

Este conceito é frequentemente mal interpretado. Produtividade baixa não significa que os portugueses sejam preguiçosos. Um trabalhador pode trabalhar dez horas por dia e continuar inserido numa economia pouco produtiva.

Produtividade significa valor criado por unidade de trabalho. Depende das máquinas disponíveis, da tecnologia, do software, da organização das empresas, da formação, da gestão, do capital investido, da investigação, da dimensão empresarial e da capacidade de vender produtos de elevado valor.

Um programador brilhante numa pequena empresa descapitalizada, sem escala internacional e com processos antiquados pode gerar estatisticamente menos valor do que um profissional equivalente numa empresa altamente automatizada e internacionalizada.

O problema não está necessariamente no trabalhador. Está no sistema produtivo que o rodeia.

Portugal resolveu uma parte gigantesca do problema da modernização.
Ainda não resolveu suficientemente o problema da produtividade.

Construímos estradas. Faltou construir gigantes.

Portugal utilizou enormes quantidades de fundos europeus para modernizar infra-estruturas. E fez bem.

Em 1986 precisávamos desesperadamente delas. Uma aldeia sem saneamento não precisava de inteligência artificial. Precisava de saneamento. Uma região isolada precisava de estradas. Uma população com baixíssimos níveis educacionais precisava de escolas.

O Parlamento Europeu assinala que a rede de auto-estradas portuguesa passou de 303 quilómetros em 1990 para 3.113 quilómetros em 2024. É uma imagem poderosa da transformação física do país.

O erro seria imaginar que aquilo que era prioridade económica em 1986 teria necessariamente de continuar a sê-lo décadas depois.

Quando já existe uma rede madura de infra-estruturas, os ganhos marginais mudam. Nas economias avançadas, uma parte crescente da riqueza nasce nas universidades, laboratórios, software, patentes, automação, inteligência artificial, biotecnologia, engenharia e empresas capazes de transformar uma ideia num produto vendido em cem países.

Não há nada de errado com turismo, restauração ou hotelaria. O problema surge quando pretendemos salários do Norte da Europa mantendo uma proporção elevada da actividade em sectores de produtividade relativamente baixa ou intermédia.

A aritmética acaba sempre por aparecer.

Depois há a burocracia

Aqui Portugal conseguiu uma proeza curiosa.

Digitalizámos muitos formulários.

E depois colocámos os formulários digitalizados em cima dos formulários anteriores.

Temos portais, autenticações, certificados, declarações, comunicações, autorizações e plataformas que frequentemente parecem concebidas segundo um princípio administrativo muito português:

se pode ser explicado numa página, talvez seja prudente pedir três anexos.

A graça termina quando a complexidade administrativa se transforma num custo económico. Os relatórios europeus continuam a apontar barreiras regulatórias, dificuldades de escala, acesso ao financiamento e insuficiências de qualificações como obstáculos à produtividade e competitividade.

Uma multinacional consegue contratar departamentos jurídicos, fiscais e administrativos. Uma empresa tecnológica com seis pessoas não.

Cada hora que o empresário dedica a compreender uma obrigação administrativa é uma hora que não dedica ao produto, aos clientes ou à inovação.

A estranha economia das empresas que não crescem

Portugal cria boas empresas. O problema é fazê-las crescer.

Temos engenheiros competentes, investigadores, programadores, empreendedores e universidades capazes de produzir conhecimento internacionalmente relevante. Mas demasiadas empresas permanecem pequenas durante demasiado tempo.

Falta capital. Falta escala. Falta frequentemente ligação entre universidades e indústria. Falta transformar investigação em produtos e produtos em empresas globais.

O diagnóstico digital de 2026 da Comissão Europeia é revelador: Portugal apresenta uma forte infra-estrutura de conectividade e bons serviços públicos digitais, mas continua atrás dos seus pares europeus na adopção empresarial de tecnologias avançadas, nomeadamente cloud computing e inteligência artificial.

É uma contradição quase perfeita: temos a estrada digital; falta fazer circular por ela valor económico suficiente.

Entretanto chegaram os países de Leste

Durante décadas habituámo-nos a olhar para a Europa Central e Oriental como a periferia pobre da Europa. Essa fotografia envelheceu.

Economias como a Chéquia e a Eslovénia apresentam níveis de rendimento por habitante, ajustados ao poder de compra, superiores aos portugueses; a Polónia aproximou-se fortemente depois da adesão em 2004.

Algumas destas economias integraram-se profundamente nas cadeias industriais europeias, atraíram investimento produtivo e aumentaram rapidamente a capacidade exportadora.

Portugal também progrediu. Mas progredir não é necessariamente convergir.

Se caminharmos enquanto os outros correm, podemos celebrar os quilómetros percorridos e, ainda assim, vê-los afastarem-se.

E os salários?

Depois admiramo-nos: por que razão são os salários portugueses tão baixos?

Porque os salários não existem num universo independente da economia que os produz.

É possível aumentar salários mínimos e proteger rendimentos baixos por decisão política — e essas decisões têm consequências sociais e económicas que devem ser avaliadas. Mas a convergência salarial duradoura depende, em larga medida, de crescimento sustentado da produtividade.

E voltamos ao princípio: tecnologia, capital, formação, escala, gestão, inovação, concorrência e instituições eficientes.

Quarenta anos depois

Portugal não desperdiçou quarenta anos de Europa. Seria absurdo afirmá-lo.

O país de 2026 é incomparavelmente mais desenvolvido, educado, conectado e moderno do que o país que entrou na CEE.

Mas também seria complacente transformar essa transformação numa história de sucesso completo. Porque o objectivo não era apenas ter melhores estradas. Era aproximarmo-nos dos níveis europeus de prosperidade.

E essa viagem permanece incompleta.

Talvez tenha chegado o momento de mudar definitivamente a pergunta.

Durante décadas perguntámos: quanto dinheiro europeu vamos receber?

A pergunta para os próximos vinte anos deveria ser: quanto valor conseguiremos criar com cada euro investido?

Portugal já não precisa essencialmente de aprender a construir rotundas. Precisa de construir empresas capazes de conquistar mercados internacionais.

Precisa de transformar ciência em produtos, produtos em exportações, exportações em produtividade e produtividade em salários.

Precisa de uma administração pública que facilite essa transformação em vez de simplesmente a regulamentar.

E precisa, sobretudo, de deixar de confundir modernização com convergência.

Fizemos uma parte extraordinária da primeira.

Ainda não terminámos a segunda.

Quarenta anos depois de entrarmos na Europa, talvez o maior risco já não seja Portugal ficar para trás.

É habituarmo-nos à ideia de que estar um pouco atrás é simplesmente o nosso lugar natural.

Não é.

É apenas o lugar onde estamos.

E lugares mudam-se.

Referências e documentação

  1. Parlamento Europeu — European Parliamentary Research Service (2026). "40th anniversary of Portugal's EU accession". Síntese dos quarenta anos de adesão, incluindo convergência inicial, transformação económica e expansão das infra-estruturas. Parlamento Europeu.
  2. Comissão Europeia (2026). "Country Report — Portugal". Análise do Semestre Europeu sobre produtividade, competitividade, qualificações, investimento, ambiente empresarial e desafios estruturais. Comissão Europeia.
  3. Eurostat (2025). "PPPs for GDP per capita in 2024: preliminary estimates". Comparação do PIB per capita em padrões de poder de compra entre Estados-Membros. Eurostat.
  4. Comissão Europeia — Digital Decade (2026). "Portugal's 2026 Digital Decade Country Report". Avaliação da conectividade, serviços públicos digitais, competências e adopção empresarial de cloud e IA. Comissão Europeia.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos · 21 de Setembro de 2026

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