Salários Europeus no Topo, Salários Portugueses Cá em Baixo

O país que remunera internacionalmente quem manda e nacionalmente quem sabe fazer

Nota de abertura:
Esta crónica não defende que governadores de bancos centrais, administradores, reguladores ou gestores devam receber o mesmo que trabalhadores especializados. Responsabilidade, escassez de competências e dimensão das funções justificam diferenças salariais. A questão é outra: num país de salários persistentemente baixos, qual é a distância socialmente aceitável entre o topo institucional e quem produz, repara, instala, programa, trata, ensina ou mantém a economia a funcionar? E porque se invoca tantas vezes o mercado internacional para remunerar o topo, enquanto se pede realismo português a quem trabalha cá em baixo?

Portugal tem um problema salarial.

Mas não é apenas o problema que aparece todos os meses nas estatísticas quando descobrimos, mais uma vez, que os salários portugueses continuam longe dos das economias europeias mais produtivas.

Há outro.

Muito mais interessante.

Portugal conseguiu construir uma sociedade onde coexistem dois mercados salariais no mesmo território.

Um para quem trabalha, produz, instala, repara, programa, constrói, trata, ensina e mantém as máquinas a funcionar.

Outro para determinados administradores, reguladores, consultores, assessores e titulares das posições superiores do aparelho institucional.

O primeiro mercado é português.

O segundo, curiosamente, torna-se internacional quando chega a altura de justificar o vencimento.

É uma maravilha da geografia económica.

O país muda de latitude conforme o andar do edifício.

Quando o técnico pede aumento, estamos em Portugal

Um trabalhador qualificado português da indústria, construção e profissões artesanais recebia em 2024 um ganho médio mensal de cerca de 1.246 euros, já incluindo horas extraordinárias, subsídios e prémios contabilizados naquele indicador.

Um operador de instalações, máquinas e montagem ficava pelos 1.342 euros.

O ganho médio de todos os trabalhadores por conta de outrem era cerca de 1.583 euros mensais.

Estes são os homens e mulheres que:

reparam motores,

soldam estruturas,

instalam electricidade,

mantêm fábricas,

operam máquinas,

constroem edifícios,

fazem manutenção industrial,

e impedem que a civilização pare aproximadamente às dez da manhã de segunda-feira.

Quando estes trabalhadores perguntam por melhores salários, surge imediatamente a voz adulta da economia:

«Temos de considerar a produtividade portuguesa.»

Naturalmente.

Portugal é um país de rendimento relativamente baixo face ao Norte da Europa.

Temos de ser realistas.

É necessário moderação.

Competitividade.

Sustentabilidade salarial.

Responsabilidade.

Uma quantidade extraordinária de substantivos aparece quando alguém de 1.300 euros quer chegar aos 1.600.

Quando chega o topo, mudamos subitamente para Frankfurt

Depois subimos alguns andares.

Entramos num conselho de administração.

Num regulador.

Num banco.

Num gabinete.

Numa entidade financeira.

E acontece uma transformação extraordinária.

Portugal desaparece.

Já não podemos comparar a remuneração com os salários portugueses.

Isso seria provinciano.

Agora é preciso:

«atrair talento internacional».

«garantir independência».

«ser competitivo com instituições congéneres».

«reflectir a responsabilidade da função».

A produtividade portuguesa deixa misteriosamente de ter relevância.

Somos finalmente europeus.

Pena que apenas no recibo de vencimento de alguns.

O caso extraordinário do Banco de Portugal

Chegamos então ao exemplo que parece ter sido inventado por um argumentista satírico particularmente mal disposto.

Álvaro Santos Pereira assumiu o cargo de governador do Banco de Portugal em Outubro de 2025.

A tabela remuneratória publicada para o cargo fixava uma remuneração mensal de 19.496,39 euros brutos, paga catorze vezes por ano.

São aproximadamente:

272.949 euros brutos anuais.

Na mesma tabela, o vice-governador tinha uma remuneração de 18.277,87 euros mensais e os restantes administradores de 17.059,35 euros.

Tudo legal.

Tudo publicado.

Nada clandestino.

E precisamente por isso merece discussão.

Porque o problema não é descobrir um envelope debaixo da mesa.

O problema está perfeitamente escrito na tabela.

Dezanove mil quatrocentos e noventa e seis euros

Ponhamos os números lado a lado.

Trabalhadores qualificados da indústria, construção e profissões artesanais, ganho médio mensal em 2024:

1.246 euros.

Governador do Banco de Portugal, segundo a tabela remuneratória fixada em 2025:

19.496 euros mensais.

Não são remunerações directamente comparáveis em termos de qualificações, responsabilidade, regime laboral ou período estatístico.

Evidentemente.

Ninguém está a propor que o governador do banco central receba o salário de um soldador.

Mas a relação é suficientemente brutal para justificar uma pergunta.

Estamos a falar de um valor mensal no topo superior a quinze vezes aquele ganho médio de referência.

O problema não é existir diferença.

O problema é a dimensão da distância numa sociedade de baixos salários.

E depois aparece a Reserva Federal

Aqui a história adquire aquela qualidade que torna desnecessário contratar humoristas.

Nos Estados Unidos, a remuneração básica do nível I do Executive Schedule, tabela a que está associado o presidente da Reserva Federal, foi fixada para 2026 em 253.100 dólares anuais.

Em 2025, a remuneração anual do presidente da Fed era 250.600 dólares.

A remuneração anual nominal do governador do Banco de Portugal, resultante da tabela portuguesa publicada em 2025, era cerca de 272.949 euros.

Um fact-check realizado em Portugal confirmou, para 2025 e à taxa de câmbio usada na comparação, que o governador e os administradores do Banco de Portugal tinham remunerações anuais superiores à remuneração básica do presidente da Reserva Federal.

Convém perceber o que estamos a comparar.

A Reserva Federal participa na condução da política monetária da maior economia do mundo em termos nominais.

O dólar é a principal moeda de reserva internacional.

As decisões da Fed movimentam:

mercados cambiais,

bolsas,

obrigações,

crédito,

economias emergentes,

fluxos internacionais de capital

e, frequentemente, metade dos comentadores económicos do planeta.

O Banco de Portugal é uma instituição essencial e integra o Eurosistema.

Tem responsabilidades de supervisão, estabilidade financeira, estatística, sistemas de pagamentos e participação na política monetária europeia.

Não é propriamente a associação recreativa da freguesia.

Mas também não é a Federal Reserve dos Estados Unidos.

Talvez o PIB norte-americano ainda não tenha chegado a Lisboa

Portugal possui uma economia relativamente pequena.

Salários médios baixos.

Produtividade abaixo da média da OCDE.

Uma população onde cerca de um quinto permanece em risco de pobreza ou exclusão social.

E, apesar disso, consegue chegar ao topo da pirâmide institucional e praticar remunerações nominais que podem ser comparadas com algumas das funções públicas mais importantes do planeta.

Há talento nisto.

Talvez Portugal tenha finalmente encontrado o sector em que convergiu com os Estados Unidos.

O andar da administração.

Mas sejamos intelectualmente sérios

Há uma nuance importante.

O salário do governador do Banco de Portugal não é simplesmente decidido pelo próprio governador.

A Lei Orgânica determina que a remuneração dos membros do Conselho de Administração seja estabelecida anualmente por uma comissão de vencimentos composta pelo ministro das Finanças, ou seu representante, pelo presidente do Conselho de Auditoria e por um antigo governador.

E há outra nuance ainda mais inconveniente para uma caricatura fácil: levantamentos publicados em Portugal indicaram que a remuneração do governador português se encontrava abaixo da média de um conjunto de governadores de bancos centrais da Zona Euro.

Portanto, não estamos perante prova de corrupção.

Nem de ilegalidade.

Nem de apropriação clandestina.

Estamos perante algo politicamente mais interessante:

um sistema que considera natural internacionalizar as remunerações no topo enquanto aceita salários persistentemente baixos em grande parte do restante mercado de trabalho.

E essa é uma discussão muito maior.

O problema não são 19 mil euros

É tentador dizer:

«Baixem o salário do governador.»

Talvez.

Pode discutir-se.

Mas isso não resolveria o problema português.

Se amanhã o governador passasse de 19.500 para 10.000 euros, o mecânico continuaria aproximadamente onde estava.

Portugal não ficaria subitamente desenvolvido.

O verdadeiro escândalo económico não é necessariamente alguém altamente qualificado receber muito.

É uma sociedade inteira valorizar tão pouco grande parte da competência que produz riqueza.

Essa é a perversidade.

Finlândia: o topo é alto, mas o chão também subiu

Voltemos à Finlândia.

Os dados oficiais de remunerações mostram uma economia onde as profissões técnicas e intermédias ocupam outro patamar salarial.

Em 2024, a mediana de remuneração total dos trabalhadores a tempo inteiro finlandeses era 3.611 euros mensais.

Publicações da Statistics Finland mostram ainda que trabalhadores das profissões artesanais e qualificadas e operadores de máquinas se situam em vários milhares de euros por mês, muito acima dos níveis portugueses equivalentes.

Isto é que muda completamente a sociedade.

Na Finlândia também há gestores muito bem pagos.

Também existem banqueiros.

Também há directores executivos.

Também há disparidades.

Não descobriram o comunismo boreal.

A diferença está noutra coisa:

o meio da pirâmide também consegue viver.

Portugal elevou o tecto e esqueceu-se do chão

É talvez esta a imagem mais adequada.

Numa sociedade equilibrada, os salários do topo podem crescer.

Mas o rendimento de técnicos, professores, enfermeiros, engenheiros, mecânicos, electricistas e trabalhadores industriais também sobe significativamente.

Em Portugal parece termos desenvolvido uma arquitectura diferente.

O tecto aproxima-se de Frankfurt.

O chão continua em Setúbal.

E depois espantamo-nos com a corrente de ar.

A desigualdade confirma que não é apenas sensação

Portugal não é o país mais desigual da União Europeia.

Importa repetir isso.

Os indicadores comparativos do Eurostat colocam Portugal acima da média europeia em desigualdade de rendimento, mas existem vários países com valores piores.

A Finlândia encontra-se tradicionalmente entre as economias europeias mais igualitárias.

Portanto, não precisamos de inventar o campeonato europeu da desigualdade.

Portugal já consegue fazer figura suficientemente desagradável sem medalha de ouro.

Quando a diferença salarial se torna diferença social

Um salário não serve apenas para comprar coisas.

Define:

onde alguém vive,

que casa consegue comprar,

quanto consegue poupar,

que riscos pode assumir,

que educação pode proporcionar aos filhos,

se consegue suportar uma doença,

se consegue mudar de emprego,

se pode criar uma empresa,

se consegue envelhecer sem medo.

Portanto, grandes disparidades salariais não ficam confinadas à folha de Excel.

Transformam-se em diferenças de liberdade real.

O indivíduo que ganha 1.300 euros não possui simplesmente menos dinheiro do que quem ganha 10.000.

Possui menos capacidade para dizer:

«não».

Não a um empregador.

Não a uma renda absurda.

Não a um crédito.

Não a uma relação de dependência.

Não a uma oportunidade profissional medíocre.

A independência económica também é liberdade.

Uma pessoa, um voto

Democraticamente somos todos iguais.

No domingo eleitoral:

um governador do Banco de Portugal tem um voto.

Um soldador tem um voto.

Um mecânico tem um voto.

Um administrador tem um voto.

Uma empregada de limpeza tem um voto.

Magnífico.

É uma conquista civilizacional fundamental.

Mas na segunda-feira os boletins eleitorais desaparecem e regressam as contas bancárias.

Um tem capacidade para comprar casa.

Outro não.

Um pode pagar educação privada.

Outro espera.

Um possui património.

Outro paga renda.

Um consegue suportar um advogado durante cinco anos.

Outro nem sequer inicia o processo.

Um pode abandonar um emprego.

Outro aguenta.

Politicamente possuem ambos um voto.

Economicamente vivem em democracias diferentes.

A democracia não exige igualdade de rendimento

Convém evitar outra simplificação.

Democracia não significa todos receberem o mesmo.

Isso seria economicamente absurdo e uma excelente maneira de destruir incentivos à qualificação e responsabilidade.

Competências diferentes.

Riscos diferentes.

Responsabilidades diferentes.

Resultados diferentes.

Remunerações diferentes.

Perfeitamente razoável.

A questão é outra:

Qual é a distância compatível com uma sociedade onde o trabalho continua a permitir autonomia, património e mobilidade social?

É aí que Portugal tem uma resposta insatisfatória.

O valor económico de saber fazer

Há uma velha distorção cultural portuguesa.

Gostamos muito do título.

Menos da técnica.

Doutor.

Director.

Administrador.

Consultor.

Assessor.

Presidente.

Coordenador.

Esses nomes possuem peso institucional.

«Mecânico» parece menos impressionante.

Até a máquina parar.

«Electricista» não soa particularmente sofisticado.

Até não haver electricidade.

«Soldador» dificilmente aparece numa conferência sobre competitividade.

Até ser necessário construir aquilo que a conferência acabou de financiar.

«Técnico de manutenção» não costuma frequentar debates televisivos.

Mas tente administrar uma fábrica sem ele.

Talvez o problema não seja apenas económico.

É também cultural.

Portugal paga notoriedade melhor do que competência prática

A televisão acrescentou outra camada curiosa.

Existem apresentadores e figuras mediáticas que recebem remunerações que um engenheiro, investigador ou técnico altamente especializado dificilmente verá durante anos.

Se é uma estação privada e a audiência justifica o contrato, é uma decisão de mercado.

Nada ilegal.

Mas as sociedades também aprendem através dos sinais económicos que produzem.

E o sinal português tornou-se frequentemente:

aparecer vale muito.

Administrar vale muito.

Comentar vale bastante.

Aconselhar pode valer bastante.

Produzir?

Depende.

O consultor e o homem da chave inglesa

Imagine-se uma fábrica parada.

Chegam dois indivíduos.

Um consultor apresenta quarenta diapositivos intitulados:

«Roadmap Estratégico para a Resiliência Operacional 2030».

O outro abre a máquina, encontra o rolamento partido e substitui-o.

Às cinco da tarde a fábrica volta a produzir.

Seria interessante comparar facturas.

Provavelmente aprenderíamos bastante sobre a economia portuguesa.

E depois faltam técnicos

O país descobre subitamente que faltam:

soldadores,

electricistas,

mecânicos,

técnicos de climatização,

especialistas de manutenção,

operadores industriais.

Extraordinário.

Durante décadas pagámos muitas destas profissões como se fossem actividade económica secundária.

Depois os jovens evitaram-nas.

Os melhores emigraram.

Agora não há suficientes.

E descobrimos aquilo que a economia tenta ensinar há séculos:

quando uma competência é escassa, talvez fosse boa ideia pagar-lhe adequadamente.

Portugal responde normalmente criando um programa de formação.

É mais simples do que rever toda a estrutura de incentivos.

O escândalo do Banco de Portugal é simbólico

É por isso que considero o caso do Banco de Portugal politicamente tão perturbador.

Não porque 19.496 euros sejam, por definição, uma remuneração obscena.

Podem existir funções que justifiquem salários muito elevados.

O simbolismo está na comparação.

Segundo a OCDE, o salário anual médio português em 2025 rondava 25.826 euros, a preços correntes.

Ao mesmo tempo, a remuneração anual fixada para o governador do Banco de Portugal na tabela de 2025 rondava 273 mil euros.

Mais de dez vezes aquele salário médio anual.

E depois ouvimos continuamente que elevar substancialmente salários portugueses depende primeiro da produtividade.

Curiosamente, esta condição parece ter algumas excepções administrativas bastante bem remuneradas.

A independência também precisa de proporcionalidade

Uma das justificações habituais para salários elevados em reguladores e bancos centrais é perfeitamente legítima:

é necessário atrair pessoas altamente qualificadas e proteger a independência das instituições.

Concordo.

Mas independência não significa ausência de proporcionalidade.

Também não significa que qualquer comparação internacional seja automaticamente adequada.

Se queremos internacionalizar salários de cargos superiores porque o talento é internacional, então devemos aceitar a mesma lógica quando um engenheiro português diz:

«Na Alemanha pagam-me três vezes mais.»

Não podemos responder:

«Mas a realidade portuguesa...»

A realidade não pode ser global para o administrador e paroquial para o engenheiro.

Ou somos europeus todos ou apenas alguns

Talvez esta seja a questão central.

Portugal gosta de comparar salários de topo com:

Frankfurt,

Londres,

Paris,

Bruxelas,

mercados internacionais.

Mas quando chega aos restantes trabalhadores, compara frequentemente com:

o salário mínimo português,

a produtividade portuguesa,

a PME portuguesa,

a capacidade financeira portuguesa.

É uma Europa de geometria variável.

Existe Schengen para administradores.

E fronteira salarial para técnicos.

É isto democracia?

Sim.

Continua a ser democracia.

Eleições livres.

Pluralismo.

Direitos.

Liberdade de expressão.

Alternância.

Estado de direito.

Mas democracia não é uma medalha que se recebe em 1974 e se pendura na parede.

É uma construção permanente.

E uma sociedade muito desigual pode permanecer formalmente democrática enquanto deixa progressivamente de oferecer oportunidades semelhantes aos seus cidadãos.

Aí surge o problema.

Não no voto.

Na vida entre dois votos.

A igualdade que realmente interessa

Não precisamos que todos terminem no mesmo lugar.

Precisamos que não comecem a corrida em países diferentes dentro do mesmo país.

Que o filho do mecânico possa estudar.

Que o jovem sem património consiga comprar casa.

Que o técnico competente consiga construir poupança.

Que o empresário sem contactos consiga financiamento.

Que o engenheiro possa chegar à administração.

Que quem trabalha bem possa melhorar substancialmente de vida.

Isso chama-se mobilidade social.

Sem ela, desigualdade deixa de ser apenas diferença.

Transforma-se em estrutura.

O verdadeiro teste português

Talvez devêssemos abandonar durante um momento os grandes indicadores macroeconómicos.

E fazer uma pergunta muito simples:

Um trabalhador português altamente competente consegue, apenas através do seu trabalho, comprar casa, criar filhos, poupar, construir património e viver sem medo de uma despesa inesperada?

Se a resposta começar demasiadas vezes por:

«Depende...»

então temos um problema muito maior do que o salário do governador do Banco de Portugal.

Temos uma economia que deixou de recompensar adequadamente aquilo de que necessita para funcionar.

Não baixem apenas o topo. Subam o país.

Seria fácil terminar esta crónica pedindo cortes salariais aos dirigentes.

Daria um belo aplauso.

Mas seria intelectualmente pobre.

Portugal não ficará finlandês tornando os administradores pobres.

Ficará mais desenvolvido tornando:

o mecânico mais bem pago,

o electricista mais valorizado,

o enfermeiro mais bem remunerado,

o professor excelente mais reconhecido,

o engenheiro mais difícil de exportar,

o investigador capaz de ficar,

o técnico especializado capaz de comprar casa.

Esse é o verdadeiro progresso.

Não nivelar por baixo.

Elevar por baixo e pelo meio.

DADOS ESSENCIAIS

  • Em 2024, o ganho médio mensal dos trabalhadores qualificados da indústria, construção e profissões artesanais em Portugal foi de 1.246,4 euros; para operadores de instalações, máquinas e montagem, 1.342 euros.
  • O ganho médio mensal de todos os trabalhadores por conta de outrem em Portugal foi de 1.582,7 euros em 2024.
  • A tabela remuneratória publicada para o governador do Banco de Portugal em 2025 fixava 19.496,39 euros brutos por mês, pagos 14 vezes, cerca de 272.949 euros anuais.
  • O presidente da Reserva Federal dos EUA está associado ao nível I do Executive Schedule; em 2026 esse nível tem remuneração básica anual de 253.100 dólares.
  • A remuneração do governador do Banco de Portugal é fixada por uma comissão de vencimentos prevista na Lei Orgânica da instituição, não pelo próprio governador.
  • Segundo a OCDE, o salário anual médio português em 2025 foi de 25.826 euros, a preços correntes.
  • Na Finlândia, a mediana das remunerações totais dos trabalhadores a tempo inteiro foi de 3.611 euros mensais em 2024, segundo a Statistics Finland.
  • Portugal apresenta desigualdade de rendimento superior à média da União Europeia, embora não seja o país mais desigual do bloco; a Finlândia situa-se entre os países europeus mais igualitários.

O país de duas tabelas salariais

No final, talvez seja esta a verdadeira anomalia portuguesa.

Temos uma tabela salarial invisível para quem está no topo:

«Compare com a Europa.»

E outra para quem está em baixo:

«Compare com Portugal.»

Enquanto essas duas tabelas coexistirem, continuaremos a formar pessoas para exportar, importar mão-de-obra para ocupar lugares mal pagos e perguntar, muito seriamente, porque não aumentamos produtividade.

A resposta talvez esteja precisamente na pergunta.

Uma economia revela aquilo que valoriza através daquilo que paga.

E Portugal continua demasiadas vezes a dizer:

quem administra merece o mercado internacional.

Quem produz tem de compreender as limitações nacionais.

O governador do Banco de Portugal não é o problema inteiro.

É apenas o símbolo perfeito.

Num país onde um trabalhador qualificado recebe cerca de 1.250 euros, 19.496 euros mensais no topo de uma instituição pública não são apenas um salário.

São também uma mensagem.

E talvez seja altura de perguntar que sociedade queremos que essa mensagem construa.

Porque uma democracia não vive apenas da igualdade perante a urna.

Vive também da convicção de que trabalho, competência e esforço ainda permitem subir na vida.

Quando essa convicção desaparece, podemos continuar todos com um voto.

Mas começamos a deixar de viver todos no mesmo país.

Nota Editorial

Esta crónica utiliza comparações salariais como instrumento de análise política e social. Os valores apresentados não são todos directamente comparáveis: alguns são médias, outros medianas; alguns referem-se a 2024, outros a tabelas de 2025 ou 2026; e as funções possuem responsabilidades, horários, qualificações e regimes remuneratórios diferentes.

A referência de 1.246,4 euros corresponde ao ganho médio mensal em 2024 dos trabalhadores por conta de outrem classificados como «trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices», segundo dados do GEP/MTSSS disponibilizados pela PORDATA. O indicador inclui remuneração base e outras componentes como horas extraordinárias, subsídios ou prémios.

A remuneração mensal de 19.496,39 euros do governador do Banco de Portugal corresponde à tabela actualizada em 2025 e divulgada quando Álvaro Santos Pereira assumiu funções. Multiplicada por catorze pagamentos, representa cerca de 272.949 euros anuais. A Lei Orgânica do Banco de Portugal determina que a remuneração do Conselho de Administração seja estabelecida por uma comissão de vencimentos composta pelo ministro das Finanças ou seu representante, pelo presidente do Conselho de Auditoria e por um antigo governador.

A comparação com a Reserva Federal é nominal e institucional, não uma equivalência de funções ou poder de compra. A tabela oficial norte-americana fixa o nível I do Executive Schedule em 253.100 dólares anuais para 2026. As responsabilidades do Banco de Portugal e da Reserva Federal são diferentes e o Banco de Portugal integra o Eurosistema, onde parte fundamental da política monetária é decidida colectivamente pelo Banco Central Europeu e pelos bancos centrais nacionais.

É igualmente relevante notar que levantamentos publicados sobre bancos centrais da Zona Euro colocaram a remuneração do governador português abaixo da média de vários pares europeus. Isto impede uma conclusão simplista de que o Banco de Portugal possui, por si só, a remuneração de topo mais elevada entre instituições congéneres.

Os dados finlandeses são usados para ilustrar uma estrutura salarial diferente, não para afirmar que a Finlândia é uma sociedade sem desigualdade. A Statistics Finland registou em 2024 uma mediana de remuneração total de 3.611 euros mensais para trabalhadores a tempo inteiro. A composição sectorial, impostos, custos de vida e produtividade são diferentes dos portugueses.

Portugal também não é o país mais desigual da União Europeia. Os indicadores do Eurostat mostram desigualdade de rendimento acima da média europeia, enquanto outros Estados-Membros apresentam valores superiores. A formulação correcta é que Portugal permanece relativamente desigual quando comparado com economias europeias como a Finlândia.

A tese desta crónica não é que os salários de topo devam ser simplesmente cortados. Uma estratégia de nivelamento por baixo não aumenta produtividade nem prosperidade. A questão central é a necessidade de aumentar o valor económico das competências técnicas e profissionais intermédias, aproximando remunerações, produtividade, formação e capacidade de construir património.

Por fim, democracia não implica igualdade salarial. A preocupação democrática surge quando desigualdade económica persistente se transforma em desigualdade de oportunidades, acesso a património, capacidade de assumir riscos e mobilidade social. É nesse sentido que a distância entre topo e base é tratada nesta crónica como um problema institucional e não apenas contabilístico.

Referências internacionais e fontes primárias

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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