A Guerra Já Está Cá Dentro

A Guerra Já Está Cá Dentro
Putin não precisa de tanques quando pode usar propaganda, dinheiro, sabotagem, espionagem e as próprias liberdades da democracia
Nota de abertura:
A guerra híbrida explora precisamente aquilo que torna uma democracia valiosa: liberdade de expressão, circulação de pessoas, pluralismo político, redes abertas e instituições acessíveis. A resposta não pode ser destruir essas liberdades. Tem de ser detectar, expor e punir espionagem, corrupção, sabotagem e ingerência estrangeira quando existam provas.
A Europa passou décadas a preparar-se para reconhecer uma guerra.
Tanques atravessariam uma fronteira.
Aviões apareceriam nos radares.
Mísseis seriam lançados.
Haveria uniformes, bandeiras, mapas militares e uma declaração, formal ou informal, de hostilidades.
Era uma imagem confortável.
O inimigo estaria do outro lado.
A Rússia de Vladimir Putin percebeu há muito que existe uma maneira muito mais barata de atacar uma sociedade.
Entrar nela.
Não necessariamente através de soldados.
Através da informação.
Do dinheiro.
Da corrupção.
Da espionagem.
Da sabotagem.
Dos ciberataques.
Dos partidos.
Dos meios de comunicação.
Das redes sociais.
Dos empresários.
Dos académicos.
Dos influenciadores.
Dos extremistas.
E, sobretudo, através das próprias divisões que já existem dentro das democracias.
A guerra híbrida começa exactamente onde termina a nossa imagem tradicional da guerra.
A Europa já não está a discutir se a ameaça existe
Isto deixou de ser matéria para romances de espionagem.
Em Março de 2026, o Conselho da União Europeia voltou a condenar campanhas híbridas persistentes dirigidas contra a União e os seus Estados-Membros, incluindo sabotagem contra infra-estruturas críticas, ciberactividades maliciosas, manipulação e ingerência informativa, interferência eleitoral e instrumentalização da migração.
O Serviço Europeu para a Acção Externa descreve igualmente um quadro que inclui incursões de drones, ciberataques, danos em cabos submarinos, dispositivos incendiários em aeronaves, violações do espaço aéreo, tentativas de assassinato e operações de manipulação informativa.
A NATO, em Julho de 2026, condenou formalmente actividades cibernéticas maliciosas russas persistentes contra infra-estruturas críticas e entidades governamentais dos Aliados e parceiros.
Portanto, convém acabar com uma ingenuidade particularmente europeia.
A guerra híbrida não é apenas a antecâmara da guerra. É já uma forma de confronto político, económico, informacional e clandestino.
A diferença é que permite ao agressor permanecer quase permanentemente abaixo do limiar que provocaria uma resposta militar convencional.
O agente infiltrado já não usa gabardina
A cultura popular deixou-nos uma imagem deliciosa do espião.
Fala pouco.
Usa sobretudo escuro.
Encontra-se com alguém num parque às duas da manhã.
Troca uma pasta por outra.
Depois desaparece num automóvel preto.
É uma forma um pouco antiquada de entender influência estrangeira.
O agente moderno pode continuar a ser um oficial de informações infiltrado.
Mas também pode ser um intermediário financeiro.
Um empresário.
Um consultor.
Um jornalista.
Um activista.
Um funcionário.
Um assessor político.
Um operador de comunicação.
Um responsável de uma associação.
Ou alguém com acesso privilegiado às pessoas certas.
Em Maio de 2025, o Conselho da UE sancionou, entre outros indivíduos, dois operacionais do GRU, a inteligência militar russa, por actividades destinadas a enfraquecer o processo político democrático na Estónia.
Portanto, os agentes existem.
Não são metáforas.
Mas há algo talvez ainda mais interessante.
Moscovo nem sempre necessita de possuir o agente.
Basta-lhe possuir a influência.
O agente de influência é mais valioso do que o propagandista russo
Um canal estatal russo dizendo que a NATO é culpada de todos os males possui credibilidade limitada entre grande parte do público europeu.
Um político português, francês ou alemão dizendo exactamente a mesma coisa possui outra legitimidade.
A narrativa deixou de parecer estrangeira.
Foi nacionalizada.
Recebeu rosto doméstico.
Sotaque local.
Currículo.
Mandato eleitoral.
Talvez até quinze minutos de televisão em horário nobre.
É uma transformação extraordinariamente poderosa.
A propaganda já não parece propaganda.
Parece opinião.
E aqui reside uma das grandes armas das operações de influência modernas:
lavar uma narrativa estrangeira através de instituições democráticas nacionais.
A Voice of Europe mostrou como se constrói uma rede
Não precisamos de imaginar este mecanismo.
Já aconteceu.
Em 2024, a União Europeia sancionou a plataforma Voice of Europe, concluindo que participava numa campanha internacional sistemática destinada a manipular informação e promover narrativas pró-Kremlin.
Mas o detalhe verdadeiramente importante é outro.
Segundo o próprio Conselho da União Europeia, a Voice of Europe foi utilizada como veículo para canalizar recursos financeiros destinados a remunerar propagandistas e construir uma rede destinada a influenciar representantes de partidos políticos europeus.
Pouco depois, o Parlamento Europeu afirmou existirem alegações credíveis de que alguns eurodeputados tinham sido pagos para difundir propaganda russa e pediu investigação e respostas políticas firmes.
É importante usar a linguagem correcta.
Alegações não são condenações.
Suspeitas não são provas judiciais.
Mas também seria uma ingenuidade quase profissionalmente cultivada fingir que nada disto possui significado.
Putin não precisa de comunistas. Nem de fascistas
Uma das características mais eficazes da estratégia russa é a sua extraordinária flexibilidade ideológica.
Moscovo não precisa de transformar europeus em putinistas.
Precisa apenas de encontrar aquilo que já os divide.
Num país explorará nacionalistas.
Noutro, movimentos anti-NATO.
Noutro, ressentimento económico.
Noutro, movimentos separatistas.
Noutro, hostilidade à imigração.
Noutro, ressentimento contra os Estados Unidos.
Noutro, teorias conspirativas.
O objectivo não é produzir coerência ideológica.
É produzir fragmentação.
O Kremlin não precisa que extrema-direita e extrema-esquerda concordem entre si.
Precisa apenas que ambas desconfiem suficientemente das instituições democráticas que as rodeiam.
A guerra híbrida é ideologicamente promíscua.
Tem essa vantagem.
O melhor agente pode nem saber que está a ajudar
E chegamos à zona cinzenta.
Nem toda a pessoa que repete uma narrativa russa é agente russo.
Seria absurdo afirmá-lo.
Uma pessoa pode acreditar genuinamente que a NATO provocou a guerra.
Pode considerar as sanções erradas.
Pode defender neutralidade.
Pode admirar Putin.
Pode detestar a União Europeia.
Pode achar tudo isso simultaneamente antes do almoço.
Continua a ter esse direito.
Mas há uma diferença fundamental entre perguntar:
«Esta pessoa trabalha para a Rússia?»
e perguntar:
«Esta pessoa está objectivamente a amplificar uma narrativa russa?»
A resposta à primeira exige provas.
Dinheiro.
Contactos.
Coordenação.
Instruções.
Infra-estrutura.
Comunicações.
Relações operacionais.
A segunda pode ser avaliada através do conteúdo e da sua circulação.
Confundir as duas coisas seria precisamente adoptar os métodos intelectuais da propaganda que pretendemos combater.
Mas a repetição continua a produzir efeitos
Imagine uma falsidade lançada por um aparelho de propaganda estatal.
É publicada num canal russo.
Passa para Telegram.
Surge numa página aparentemente independente.
É retomada por um influenciador europeu.
Depois por um comentador.
Depois por um político.
Finalmente aparece numa televisão nacional.
A determinada altura já ninguém sabe onde começou.
É exactamente essa a intenção.
A narrativa adquiriu múltiplas origens aparentes.
O cidadão pensa:
«Se tanta gente diz isto, alguma coisa deve haver.»
A repetição transformou propaganda em plausibilidade.
Não foi necessário convencer toda a sociedade.
Foi suficiente contaminar suficientemente o espaço informativo para tornar a verdade apenas mais uma opinião entre várias.
A mentira moderna não precisa de vencer
Este é talvez o aspecto mais sofisticado da desinformação.
Nem sempre é necessário convencer alguém de que uma falsidade é verdadeira.
Basta fazê-lo acreditar que:
ninguém sabe a verdade;
todos mentem;
os jornalistas mentem;
os governos mentem;
a ciência mente;
a União Europeia mente;
a NATO mente;
a Ucrânia mente;
a Rússia mente;
portanto nada merece confiança.
Quando chegamos aí, a propaganda venceu.
Porque uma democracia necessita de algum nível mínimo de realidade partilhada para funcionar.
Sem isso, cada cidadão passa a viver dentro da sua própria verdade privada.
Uma sociedade assim não precisa de ser conquistada.
Desmonta-se sozinha.
E Portugal não está imunizado
Existe em Portugal uma tentação muito confortável:
imaginar que estas coisas acontecem em Berlim, Bruxelas, Praga ou nos Estados bálticos.
Nós estamos aqui no extremo ocidental da Europa, protegidos pelo Atlântico e por uma certa fé histórica de que as grandes tragédias geopolíticas têm dificuldade em encontrar estacionamento em Lisboa.
Só que já tivemos uma demonstração extraordinária da fragilidade das nossas instituições.
Em 2021, o Município de Lisboa transmitiu à Embaixada da Rússia dados pessoais relativos a promotores de manifestações. A Comissão Nacional de Protecção de Dados considerou que esses dados eram especialmente sensíveis por revelarem opiniões e convicções políticas, filosóficas ou religiosas, e advertiu que o envio a representações estrangeiras podia colocar outros direitos fundamentais em risco.
Em Janeiro de 2026, o Tribunal Constitucional indeferiu uma reclamação do Município de Lisboa, mantendo-se a condenação da CNPD no processo relativo à transmissão de dados pessoais de manifestantes à Embaixada da Rússia.
Não existe prova pública de que esse episódio tenha resultado de infiltração russa.
E é precisamente isso que o torna inquietante.
Uma potência estrangeira nem sempre precisa de infiltrar uma instituição quando a própria instituição, por incompetência, falta de cultura de segurança ou automatismo burocrático, lhe entrega informação útil.
A estupidez administrativa é uma tecnologia de espionagem surpreendentemente económica.
Portugal precisa de deixar de pensar em contra-espionagem como assunto de filmes
Um Estado moderno precisa de saber quem influencia os seus processos políticos.
Quem financia determinadas estruturas.
Quem paga viagens.
Quem patrocina conferências.
Quem financia meios de comunicação.
Quem mantém organizações aparentemente independentes.
Quem oferece contratos.
Quem financia campanhas digitais.
Quem fornece conteúdos.
Quem cria redes coordenadas de contas falsas.
Quem estabelece relações duradouras com responsáveis políticos.
Não para criminalizar opiniões.
Para identificar relações ocultas de dependência.
Essa diferença é absolutamente essencial.
A democracia tem direito a conhecer quem paga a opinião
Se um cidadão português acredita sinceramente numa determinada posição pró-russa, essa posição está protegida pela democracia.
Mesmo que seja absurda.
A liberdade de expressão protege também o privilégio humano de dizer disparates com convicção.
Mas se a mesma pessoa recebe clandestinamente dinheiro de uma estrutura controlada pelo Kremlin para defender essa posição, a situação é completamente diferente.
Já não estamos apenas perante opinião.
Estamos perante influência estrangeira dissimulada.
E quando essa influência entra em instituições políticas, toca directamente na soberania.
A Europa começou finalmente a acordar
Em Junho de 2026, a comissão especial do Parlamento Europeu dedicada ao European Democracy Shield classificou a Rússia como a principal ameaça externa neste domínio e propôs instrumentos mais fortes contra ingerência estrangeira, ameaças híbridas e desinformação.
O Conselho continuou entretanto a sancionar pessoas e entidades envolvidas em manipulação informativa.
Em Abril de 2026 sancionou a Euromore, descrita como um retransmissor não oficial da arquitectura de informação pró-Kremlin, e a Pravfond, fundação criada e financiada pelo Estado russo e considerada instrumento da estratégia de influência externa de Moscovo.
Em Março e Junho de 2026, novas sanções abrangeram propagandistas e estruturas associadas a operações híbridas e à disseminação de propaganda estatal russa.
A NATO, por seu lado, condenou em Julho de 2026 actividades cibernéticas russas persistentes contra infra-estruturas e entidades governamentais aliadas.
Isto não é histeria.
É política de segurança.
DADOS ESSENCIAIS
- Em Março de 2026, o Conselho da UE voltou a condenar campanhas híbridas persistentes atribuídas à Rússia e seus proxies, incluindo sabotagem, ciberactividades maliciosas, manipulação informativa e interferência eleitoral.
- Em Maio de 2025, a UE sancionou dois operacionais do GRU por actividades destinadas a enfraquecer o processo político democrático na Estónia.
- A Voice of Europe foi sancionada pela UE por campanhas de manipulação informativa; o Conselho afirmou que a plataforma foi usada para canalizar recursos para propagandistas e construir uma rede de influência sobre representantes de partidos políticos europeus.
- Em Abril de 2026, a UE sancionou Euromore e Pravfond por actividades de propaganda e manipulação informativa ligadas à arquitectura de influência pró-Kremlin.
- Em Junho de 2026, a comissão especial do Parlamento Europeu para o European Democracy Shield classificou a Rússia como a principal ameaça externa nesta área.
- Em Julho de 2026, a NATO condenou formalmente actividades cibernéticas russas persistentes contra infra-estruturas críticas e entidades governamentais.
- Em Portugal, a condenação relacionada com a transmissão de dados pessoais de manifestantes à Embaixada da Rússia foi mantida após decisão do Tribunal Constitucional em Janeiro de 2026; este facto não constitui, por si só, prova de infiltração ou coordenação russa.
A infiltração verdadeira exige prova
Mas uma democracia que combate propaganda precisa de manter algo que a propaganda despreza:
rigor.
Não podemos decidir que alguém é agente russo porque discorda da NATO.
Não podemos ilegalizar partidos porque determinadas posições coincidem com Moscovo.
Não podemos transformar suspeita ideológica em prova criminal.
A solução seria pior do que o problema.
Precisamos de investigação séria.
Fluxos financeiros.
Comunicações.
Relações.
Coordenação.
Intermediários.
Infra-estruturas digitais.
Benefícios económicos.
Contactos operacionais.
Só quando esses elementos surgem podemos passar da crítica política para a acusação de colaboração.
Um Estado de direito não necessita de inventar culpados.
Necessita de saber encontrá-los.
A guerra híbrida aposta precisamente nos nossos exageros
Se reagirmos com censura generalizada, Putin ganha.
Se perseguirmos opiniões, ganha.
Se ilegalizarmos partidos sem provas, ganha.
Se transformarmos democracias em Estados policiais, ganha.
Porque uma das finalidades da guerra híbrida é precisamente degradar aquilo que o adversário pretende defender.
Mas se reagirmos com ingenuidade também ganha.
Se aceitarmos dinheiro opaco.
Se ignorarmos redes de influência.
Se tratarmos propaganda estatal como jornalismo normal.
Se deixarmos serviços de informações sem recursos.
Se aceitarmos que estruturas estrangeiras comprem influência política através de intermediários.
Então nem sequer precisa de trabalhar muito.
A liberdade precisa de contra-inteligência
Isto pode parecer contraditório.
Não é.
Uma sociedade aberta precisa de serviços de informações particularmente competentes precisamente porque é aberta.
Quanto maior a liberdade de circulação, associação, expressão e comunicação, maiores são as oportunidades para operações de influência.
A solução não é diminuir essas liberdades.
É aumentar a capacidade de detectar quem as utiliza clandestinamente ao serviço de uma potência estrangeira.
A democracia não precisa de menos liberdade.
Precisa de mais inteligência.
Em ambos os sentidos da palavra.
Portugal precisa de crescer depressa nesta matéria
A posição geográfica periférica não nos protege.
Pertencemos à NATO.
Pertencemos à União Europeia.
Temos infra-estruturas atlânticas.
Cabos submarinos.
Portos.
Telecomunicações.
Empresas estratégicas.
Instituições políticas.
Meios de comunicação.
Comunidades digitais.
E acesso à informação europeia e atlântica.
Somos parte do alvo porque somos parte do sistema que Moscovo procura enfraquecer.
Talvez a nossa maior vulnerabilidade não seja sequer tecnológica.
É cultural.
A tendência para considerar espionagem, influência externa e segurança nacional como assuntos distantes.
Até ao dia em que deixam de ser.
Putin não precisa de conquistar Lisboa
Esse é talvez o erro conceptual mais importante.
Putin não precisa de tropas russas no Terreiro do Paço.
Não precisa de ocupar Portugal.
Precisa apenas de uma Europa suficientemente dividida para não conseguir agir.
Uma NATO suficientemente fragmentada para não conseguir responder.
Eleitores suficientemente desconfiados para não acreditarem em instituição alguma.
Partidos suficientemente polarizados para preferirem derrotar o adversário doméstico a enfrentar a ameaça externa.
Governos suficientemente enfraquecidos para hesitarem.
Sociedades suficientemente saturadas de propaganda para já não distinguirem realidade de narrativa.
Esse é o campo de batalha.
Os melhores soldados desta guerra podem nunca vestir uniforme
Alguns saberão exactamente para quem trabalham.
Outros receberão dinheiro.
Outros acreditarão genuinamente na causa.
Outros procurarão apenas notoriedade.
Outros serão aquilo a que a linguagem política tradicional chamou «idiotas úteis».
Outros serão simplesmente cidadãos enganados.
E é precisamente essa mistura que torna a guerra híbrida tão difícil de combater.
Não existe uma linha clara entre frente e retaguarda.
O campo de batalha é também o espaço informativo.
A arma pode ser um vídeo.
Um pagamento.
Uma notícia falsa.
Um ataque informático.
Uma conta nas redes sociais.
Um político corrompido.
Um funcionário descuidado.
Um empresário comprado.
Um cabo submarino danificado.
Ou uma ideia repetida vezes suficientes até parecer nossa.
O aviso à Europa
A Rússia de Putin já demonstrou que está disposta a utilizar múltiplos instrumentos abaixo do limiar da guerra convencional para enfraquecer países que considera adversários.
A Europa não pode continuar a responder como se cada episódio fosse isolado.
Um ciberataque aqui.
Uma sabotagem acolá.
Um canal de propaganda noutro país.
Um político suspeito de receber dinheiro.
Um agente de inteligência descoberto.
Um cabo danificado.
Uma campanha eleitoral manipulada.
Separadamente parecem incidentes.
Juntos podem formar estratégia.
É isso que finalmente precisamos de compreender.
A guerra já atravessou a fronteira
Não chegou com tanques.
Chegou através de servidores.
Contas bancárias.
Meios de comunicação.
Redes sociais.
Organizações.
Propaganda.
Serviços secretos.
E relações políticas.
A resposta europeia não pode ser paranóia.
Mas também já não pode ser ingenuidade.
Precisamos de transparência financeira.
Serviços de contra-inteligência fortes.
Protecção das infra-estruturas.
Cibersegurança.
Cooperação europeia.
Fiscalização dos financiamentos políticos.
Literacia informativa.
Investigação independente.
E coragem para expor publicamente operações estrangeiras quando as provas o permitem.
Porque a primeira vitória numa guerra híbrida consiste em conseguir convencer a vítima de que não existe guerra nenhuma.
E talvez essa seja a mensagem que a Europa demorou demasiado tempo a compreender:
Putin não precisa de silenciar a democracia europeia. Basta-lhe conseguir que ela fale com a voz dele sem perceber de onde veio o texto.
A Europa não deve censurar quem discorda.
Deve descobrir quem paga.
Não deve proibir a crítica.
Deve revelar a coordenação clandestina.
Não deve perseguir opiniões.
Deve perseguir espionagem, corrupção e ingerência estrangeira.
Porque liberdade política é democracia.
Trabalhar secretamente para uma potência que procura enfraquecer essa democracia é outra coisa.
E nessa fronteira, finalmente, a Europa não pode continuar distraída.
Nota Editorial
Esta crónica é uma peça de opinião sobre a guerra híbrida conduzida pela Federação Russa contra países europeus e instituições euro-atlânticas. As referências a sabotagem, ciberataques, manipulação de informação, espionagem, interferência política e operações de influência assentam em declarações e medidas públicas da União Europeia, do Serviço Europeu para a Acção Externa, do Parlamento Europeu e da NATO.
A expressão «agente infiltrado» não é utilizada como acusação genérica contra políticos, partidos, jornalistas, activistas ou cidadãos que defendam posições coincidentes com interesses russos. Uma opinião pró-russa, anti-NATO ou crítica da União Europeia permanece protegida pela liberdade política e, isoladamente, não demonstra coordenação com Moscovo. A passagem de opinião para colaboração clandestina exige prova de elementos como financiamento, instruções, coordenação, benefícios, comunicações operacionais ou outras relações verificáveis.
O caso da Voice of Europe é referido porque o Conselho da UE afirmou explicitamente que a plataforma foi utilizada para canalizar recursos destinados a remunerar propagandistas e construir uma rede de influência sobre representantes de partidos europeus. As referências do Parlamento Europeu a pagamentos a eurodeputados são descritas como alegações credíveis e não como condenações judiciais individuais.
O episódio português de 2021 relativo ao envio, pelo Município de Lisboa, de dados pessoais de promotores de manifestações à Embaixada da Rússia foi objecto de processo da CNPD. Em Janeiro de 2026, o Tribunal Constitucional indeferiu uma reclamação do Município, mantendo-se a condenação. Esta crónica não apresenta esse episódio como prova de infiltração russa ou de colaboração deliberada; utiliza-o como exemplo documentado de vulnerabilidade institucional e insuficiente cultura de segurança.
Defender contra-inteligência, transparência financeira, investigação de ingerência estrangeira e protecção de infra-estruturas não significa defender censura política. O critério democrático deve permanecer simples: opiniões combatem-se com factos e argumentos; espionagem, sabotagem, corrupção e financiamento clandestino combatem-se com investigação, prova, tribunais e aplicação da lei.
Referências credíveis
- Council of the European Union — Council adopts conclusions on advancing the EU's capacity to counter hybrid threats, 16 March 2026
- European External Action Service — Countering Hybrid Threats, 19 March 2026
- Council of the European Union — Russian hybrid threats: further sanctions, including GRU operatives, 20 May 2025
- Council of the European Union — Voice of Europe and information manipulation, 27 May 2024
- European Parliament — New allegations of Russian interference in the European Parliament, 25 April 2024
- Council of the European Union — Euromore and Pravfond sanctioned over information manipulation, 21 April 2026
- European Parliament — European Democracy Shield: Russia identified as primary external threat, 23 June 2026
- NATO — Statement of condemnation of Russia's malicious cyber activities, 13 July 2026
- Comissão Nacional de Protecção de Dados — CNPD acusou Município de Lisboa, 1 July 2021
- Comissão Nacional de Protecção de Dados — Tribunal Constitucional mantém condenação no processo relativo à Embaixada da Rússia, 27 January 2026
- Euronews — Lisbon authorities handed data of anti-Kremlin activists to Russian Embassy, 13 June 2021
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News