A Queda das Democracias — Quando o cidadão deixa de acreditar

FRAGMENTOS DO CAOS · CRÓNICA
A Queda das Democracias
Quando o cidadão deixa de acreditar
Há uma imagem demasiado confortável sobre a morte das democracias.
Imaginamos tanques nas ruas.
Militares a ocupar estações de televisão.
O Parlamento cercado.
Um general de voz grave anunciando solenemente que, devido às circunstâncias excepcionais, a Constituição ficará temporariamente suspensa.
É tranquilizador.
Porque assim saberíamos reconhecer o momento exacto em que a democracia morreu.
Infelizmente, o século XXI parece estar a ensinar-nos outra coisa.
Uma democracia pode começar a morrer enquanto o Parlamento continua aberto.
Pode haver eleições.
Pode haver partidos.
Pode haver jornais.
Pode haver debates televisivos, campanhas eleitorais, sondagens, comentadores e candidatos sorridentes a distribuir abraços pelas feiras.
E, apesar de tudo isso, alguma coisa essencial pode estar lentamente a desaparecer.
Não necessariamente a democracia formal.
Mas a confiança na democracia.
E quando desaparece essa confiança, começa a faltar oxigénio ao sistema.
Primeiro vem o cansaço
Em 2013 escrevi algumas notas particularmente pouco delicadas sobre o estado da democracia.
Achava então que tínhamos entrado num loop.
Treze anos depois descubro que talvez tenha sido demasiado optimista.
Um loop informático pode ser interrompido.
Nas democracias modernas desenvolvemos algo mais sofisticado:
o cidadão cansado.
Ele já ouviu todas as promessas.
Já assistiu às reformas.
À reforma da reforma.
À comissão criada para estudar a reforma.
Ao relatório da comissão.
À comissão criada para avaliar as conclusões da comissão anterior.
E finalmente à declaração solene de que agora, sim, chegou o momento de implementar uma verdadeira reforma estrutural.
O cidadão escuta.
Sorri.
E muda de canal.
Não porque tenha deixado de perceber.
Talvez precisamente porque começou a perceber demasiado bem o ritual.
As instituições também falharam
Existe uma explicação muito conveniente para a crise democrática:
os cidadãos tornaram-se irresponsáveis.
Não lêem. Não estudam. Acreditam em notícias falsas. Votam emocionalmente. Deixam-se seduzir por soluções simples. Preferem slogans.
Tudo isto pode acontecer.
Mas existe uma pergunta anterior:
o que fizeram as instituições para conservar a confiança desses cidadãos?
Porque confiança não é uma herança constitucional.
Não basta escrever «Estado de direito democrático» num documento e considerar o problema resolvido para as gerações seguintes.
A confiança precisa de manutenção.
Como uma ponte.
Como uma barragem.
Como um servidor.
Ignorem-se os avisos durante tempo suficiente e, um dia, aquilo que parecia sólido deixa de o ser.
Durante décadas, muitas democracias tiveram oportunidades para reforçar transparência, responsabilidade política, avaliação independente das políticas públicas, participação dos cidadãos e educação para o pensamento crítico.
Fizeram algumas dessas coisas.
Mas os resultados sugerem que permanece uma distância considerável entre cidadão e poder.
Em 2025, segundo a OCDE, 68% dos inquiridos nos países abrangidos consideravam que votar influencia aquilo que os governos fazem.
Parece reconfortante.
Até lermos a linha seguinte.
Apenas 31% consideravam que pessoas como elas tinham voz nas decisões governamentais.
Eis uma democracia estranha:
o cidadão acredita que o voto conta, mas não sente que ele próprio conte.
A democracia de quatro em quatro anos
Talvez tenhamos cometido um erro conceptual.
Reduzimos progressivamente a cidadania ao voto.
O cidadão comparece. Recebe o boletim. Escolhe. Dobra. Deposita. Missão cumprida.
— Obrigado pela sua participação democrática. Voltamos a contactá-lo daqui a quatro anos.
Entretanto, a complexidade da governação aumentou extraordinariamente.
Orçamentos. Regulação. Fundos europeus. Defesa. Energia. Migrações. Saúde. Alterações climáticas. Inteligência artificial. Mercados financeiros. Geopolítica. Cibersegurança.
O cidadão comum não pode dominar tudo isto.
Nem deveria ser obrigado a fazê-lo.
É precisamente por isso que existem instituições.
O problema surge quando essas instituições começam a parecer distantes, opacas ou incapazes de explicar claramente as suas decisões.
Nesse momento nasce uma pergunta extremamente perigosa:
«Para que servem?»
Depois chegam os vendedores de simplicidade
A política detesta o vazio.
Quando as instituições deixam problemas sem resposta durante demasiado tempo, alguém acabará por aparecer oferecendo uma.
Normalmente muito simples.
O problema é complexo? Excelente. Há um culpado.
A economia não cresce? Há um culpado.
A habitação tornou-se inacessível? Há um culpado.
A criminalidade preocupa? Há um culpado.
Os salários não acompanham o custo de vida? Há um culpado.
A sociedade mudou demasiado depressa? Também há um culpado.
É extraordinariamente reconfortante.
Séculos de economia, sociologia, história e ciência política podem finalmente ser substituídos por uma frase de quinze segundos.
Cabe perfeitamente num vídeo vertical.
E ainda sobra espaço para música.
A tecnologia descobriu as nossas fraquezas
Durante algum tempo acreditámos que a Internet produziria cidadãos mais informados.
Todo o conhecimento humano estaria disponível instantaneamente.
E estava.
Só não previmos que todo o disparate humano estaria igualmente disponível.
Nem que desenvolveríamos máquinas extraordinariamente eficientes em descobrir aquilo que nos irrita, assusta ou indigna.
A economia da atenção percebeu uma característica antiga do cérebro humano:
a serenidade é péssima para o envolvimento.
A indignação, pelo contrário, tem excelentes métricas.
Assim nasceu um espaço público no qual frequentemente não vence a ideia mais verdadeira.
Vence a que circula melhor. A que provoca. A que confirma aquilo em que já acreditávamos. A que transforma adversários em inimigos.
E agora acrescentámos inteligência artificial generativa à equação.
Pela primeira vez possuímos instrumentos capazes de produzir industrialmente texto, imagem, voz e vídeo plausíveis.
A velha recomendação dos nossos pais — «não acredites em tudo o que lês» — adquiriu uma actualização curiosa:
não acredites necessariamente naquilo que estás a ver com os teus próprios olhos.
É progresso.
Entretanto, os números começaram a falar
Não é apenas pessimismo de cronista.
O Democracy Report 2026 do V-Dem estima que, no final de 2025, existiam 92 autocracias e 87 democracias e que cerca de 74% da população mundial vivia em autocracias.
A Freedom House, utilizando uma metodologia diferente, registou em 2025 o vigésimo ano consecutivo de declínio da liberdade global: 54 países pioraram em direitos políticos e liberdades civis e 35 melhoraram.
Duas décadas.
Já começa a ser difícil chamar-lhe um mau ano.
Mas existe um dado que não deve ser omitido.
A mesma Freedom House observa também resiliência democrática significativa e regista países que melhoraram de estatuto em 2025.
Isto importa.
Porque a história não está escrita.
As democracias estão sob pressão.
Não estão condenadas.
A queda raramente começa com a queda
Talvez seja esse o erro que cometemos quando procuramos sinais de autoritarismo.
Esperamos pelo acontecimento espectacular.
Mas a erosão institucional pode ser muito mais banal.
Começa quando uma pequena violação das regras deixa de provocar escândalo.
Depois outra.
Quando aquilo que ontem seria considerado inadmissível hoje é explicado como excepcional.
Depois necessário.
Depois normal.
A linguagem muda.
Os adversários tornam-se inimigos.
Os jornalistas tornam-se obstáculos.
Os tribunais tornam-se incómodos.
Os especialistas tornam-se suspeitos.
Os factos tornam-se opiniões.
E a mentira deixa de precisar de ser verdadeira.
Precisa apenas de ser repetida.
A certa altura ninguém consegue recordar exactamente onde estava a antiga fronteira.
É assim que funciona a habituação.
O extraordinário transforma-se lentamente em quotidiano.
E o cidadão?
Aqui chegamos à parte mais incómoda.
Uma democracia não pode sobreviver indefinidamente apenas através das suas instituições.
Também necessita de cidadãos.
Não cidadãos perfeitos. Não especialistas em Direito Constitucional. Muito menos filósofos gregos a passear pela ágora depois do jantar.
Apenas cidadãos que conservem uma convicção elementar:
vale a pena participar.
Porque o cidadão indignado ainda acredita no sistema suficientemente para lhe exigir alguma coisa.
O cidadão que protesta ainda espera uma resposta.
O cidadão que escreve, investiga, fiscaliza, questiona ou participa ainda reconhece implicitamente a possibilidade de mudança.
Existe uma situação muito mais perigosa.
O cidadão que encolhe os ombros.
— São todos iguais.
— Não vale a pena.
— Isto nunca muda.
Nesse momento o sistema perdeu alguma coisa muito mais importante do que um voto.
Perdeu um participante.
A democracia dos espectadores
Talvez seja esta a transformação mais perigosa.
Passarmos de cidadãos a espectadores.
Assistimos à política como assistimos ao futebol.
Temos equipa. Temos adversários. Temos comentadores. Discutimos decisões do árbitro. Celebramos quando «os nossos» ganham. Ficamos furiosos quando ganham «os outros».
E na segunda-feira regressamos ao trabalho.
Mas democracia não é um campeonato.
O objectivo não deveria ser derrotar metade da sociedade.
É encontrar uma maneira imperfeita de continuarmos todos a viver dentro da mesma sociedade.
Essa distinção parece estar a perder-se.
Quando ninguém acredita em ninguém
Uma democracia consegue sobreviver a governos incompetentes.
Consegue sobreviver a crises económicas.
Consegue sobreviver a escândalos.
Consegue até sobreviver a líderes que testam os limites das instituições.
Aquilo que dificilmente consegue suportar indefinidamente é a destruição da confiança mínima necessária entre cidadãos, instituições e realidade factual.
Quando ninguém acredita nos políticos.
Quando ninguém acredita nos jornalistas.
Quando ninguém acredita nos tribunais.
Quando ninguém acredita nos especialistas.
Quando metade do país não acredita na outra metade.
E quando finalmente já ninguém consegue concordar sequer sobre aquilo que aconteceu ontem.
Nesse momento deixamos de ter apenas uma crise política.
Temos uma crise epistemológica.
Já não discutimos o que fazer perante a realidade.
Discutimos qual realidade existe.
A última ironia
Durante décadas preocupámo-nos com os inimigos externos da democracia.
Talvez devêssemos ter dedicado mais atenção às suas ferrugens internas.
Burocracia sem responsabilidade. Promessas sem consequências. Decisões sem explicação. Participação sem influência percebida. Informação sem conhecimento. Comunicação sem diálogo. Indignação sem acção. E eleições sem suficiente confiança entre umas eleições e as seguintes.
Depois, quando o cidadão se afasta, organizamos congressos sobre a crise da democracia.
Especialistas sobem ao palco. Apresentam gráficos. Debatem a falta de participação cívica.
E perguntam solenemente:
— Porque terão os cidadãos deixado de acreditar nas instituições?
Talvez alguém devesse abrir uma janela.
E perguntar cá para fora.
A democracia não morre necessariamente com um tiro
Pode morrer com um suspiro.
Com milhões de pequenos:
«Não vale a pena.»
Talvez seja esse o momento que devemos temer.
Não quando os cidadãos atacam a democracia.
Mas quando deixam de sentir que vale a pena defendê-la.
Porque nenhuma Constituição, por mais bela que seja, consegue substituir indefinidamente a vontade colectiva de viver segundo as suas regras.
As democracias não são eternas.
Nunca foram.
São construções humanas e, como todas as construções humanas, necessitam de manutenção, fiscalização e reparação.
Podem degradar-se.
Mas também podem corrigir-se.
Essa continua a ser talvez a sua característica mais extraordinária.
Uma autocracia precisa de convencer o cidadão de que o poder não pode ser mudado.
Uma democracia depende exactamente da ideia contrária:
de que ainda podemos mudar aquilo que fizemos mal.
Enquanto acreditarmos nisso — e enquanto as instituições demonstrarem que essa crença tem fundamento — a democracia ainda respira.
O verdadeiro perigo começa no dia em que perguntarmos:
— Ainda vale a pena?
E ninguém se der ao trabalho de responder.
Referências internacionais
- V-Dem Institute, Democracy Report 2026: Unraveling the Democratic Era?, University of Gothenburg, 2026 — https://www.v-dem.net/publications/democracy-reports/
- Freedom House, Freedom in the World 2026: The Growing Shadow of Autocracy, 2026 — https://freedomhouse.org/report/freedom-world
- OECD, OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results, OECD Publishing, Paris, 2026 — https://www.oecd.org/en/publications/oecd-survey-on-drivers-of-trust-in-public-institutions-2026-results_9eb63fec-en.html
- International IDEA, The Global State of Democracy 2025: Democracy on the Move, 2025 — https://www.idea.int/publications/catalogue/html/global-state-democracy-2025-democracy-move