Montenegro numa sala de aula a falar de ética

📷 Montenegro na escola onde estudou: a ensinar ética a quem ainda tem a chance de a aprender.

A aula de ética do primeiro-ministro: quando o professor é o exemplo que falta

Crónica sobre a iniciativa «Dias da Integridade e Anticorrupção», o regresso de Montenegro à escola onde estudou e o país que assiste, incrédulo, à lição

Há imagens que dispensam comentários. E há imagens que exigem um comentário, precisamente porque dispensavam. Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, regressou esta quarta-feira à Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Laranjeira, em Espinho — a escola onde foi aluno — para dar uma aula sobre ética, integridade e prevenção da corrupção[citation:1][citation:2].

A iniciativa chama-se «Dias da Integridade e Anticorrupção», é promovida pelo Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC) e pelos ministérios da Educação e da Justiça, e vai levar mais de 200 palestrantes a cerca de 250 escolas, atingindo 40 mil alunos[citation:1][citation:2]. No papel, é a maior acção de sensibilização sobre integridade alguma vez realizada em Portugal. No espírito, é uma piada que se escreve sozinha.

O primeiro-ministro que vai falar de ética aos jovens é o mesmo que, há mais de um ano, arrasta o caso Spinumviva — a empresa familiar que prestava serviços a clientes como a Solverde (casinos) enquanto o Governo preparava alterações à lei dos solos[citation:3]. É o mesmo que viu o Tribunal Constitucional rejeitar o seu recurso para impedir a divulgação da lista de clientes da empresa[citation:17]. É o mesmo cujo Ministério Público abriu um novo inquérito sobre a construção da sua casa em Espinho, por alegada discrepância entre o custo da obra e as facturas emitidas[citation:14].

🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto atinge o seu expoente máximo quando quem prega a ética é o primeiro a não a praticar.

O contexto que torna a lição insustentável

🏛️ O «padrão Spinumviva»

Eduardo Cabrita, antigo ministro da Administração Interna do PS, cunhou uma expressão que ficou: Montenegro estabeleceu um «padrão Spinumviva» no Governo[citation:7]. Ou seja, ao degradar os padrões éticos da governação para se proteger a si próprio, o primeiro-ministro criou um precedente que se aplica a todos os ministros — incluindo Luís Neves.

O ministro da Administração Interna, recorde-se, está sob investigação por suspeitas relacionadas com obras na sua propriedade em Odemira, por um atrelado apreendido que apareceu nas instalações da empresa que fez essas obras, e por usar uma viatura apreendida em regime de comodato[citation:4][citation:8]. O Chega pediu a sua exoneração. Montenegro manteve a confiança. E agora vai falar de ética aos alunos do secundário.

📉 A degradação que ninguém esconde

A Visão, num artigo de opinião recente, descreveu a governação de Montenegro como «um penoso exemplo de como é possível degradar a confiança nas virtualidades das instituições democráticas», com um primeiro-ministro «patrocinado por empresas amigas» e uma liderança «que se arrasta com uma limitada legitimidade democrática meramente formal»[citation:11].

É este o homem que vai explicar aos jovens o que é a integridade.

A pergunta que os alunos podiam fazer

Imaginemos que um aluno de 16 anos, na plateia da Escola Dr. Manuel Laranjeira, decide fazer a pergunta óbvia. Não uma pergunta de retórica, mas uma pergunta simples, directa, quase ingénua:

«Senhor primeiro-ministro, o senhor tem uma empresa familiar que recebia avenças mensais de casinos enquanto o seu Governo mudava leis que podiam beneficiar esses negócios. Isso é ético?»

Não haveria resposta. Ou haveria uma daquelas respostas que os políticos dão quando são apanhados: uma frase genérica sobre «escrutínio», «transparência» e «confiança nas instituições», dita num tom que finge convicção e apenas denuncia o vazio.

O secretário de Estado da Educação, num rasgo de honestidade involuntária, disse algo revelador: «É diferente ouvir o primeiro-ministro ou ouvir o director da Polícia Judiciária»[citation:13]. Tem razão. É diferente. Mas não pelo motivo que ele pensa. É diferente porque o director da PJ fala de ética sem ter uma empresa familiar a receber avenças de casinos. O primeiro-ministro, não.

🗣️ «Ensinar ética é fácil. Difícil é não precisar de a aprender. E mais difícil ainda é ter a coragem de a praticar quando se está no poder.» — Sombra de Dúvida

A lição que fica

A iniciativa «Dias da Integridade e Anticorrupção» é, no papel, meritória. Levar magistrados, inspectores e advogados às escolas para falar de ética é útil. Mas convidar o primeiro-ministro para dar a primeira aula é um erro de casting que transforma a iniciativa numa comédia involuntária.

Montenegro não é o professor. É o contra-exemplo. E os alunos, que não são parvos, vão perceber isso. Vão olhar para o homem de fato que lhes fala de integridade e lembrar-se-ão das notícias: a empresa, os casinos, os inquéritos, o Tribunal Constitucional, a casa em Espinho. A lição que vão retirar não é a que o primeiro-ministro pretende dar. É outra: em Portugal, a ética ensina-se nas escolas, mas não se pratica no Governo.

E talvez seja essa a maior lição de todas.

Sombra de Dúvida
nem todas as certezas merecem descanso

✍️ Crónica publicada em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (anterior ao AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.

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