O Mundo Não Pode Depender do Temperamento de um Homem

O Mundo Não Pode Depender do Temperamento de um Homem
Guerra, poder pessoal e a responsabilidade das instituições que devem proteger os povos.
Nota de abertura:
A segurança dos povos exige instituições capazes de limitar, fiscalizar e responsabilizar quem governa. A concentração do poder e a erosão desses limites tornam a guerra mais difícil de prevenir e de terminar.
Nenhum povo devia ter de confiar a sua segurança ao temperamento de um governante. É essa a reflexão que se impõe: como impedir que a ambição, a vaidade ou o cálculo político de quem manda se transformem numa catástrofe para milhões de pessoas?
A minha preocupação tem fundamento nos dados. Em 2025, o programa de investigação de conflitos da Universidade de Uppsala registou 65 conflitos armados com participação de Estados, incluindo oito entre Estados — os números mais elevados desde o início da série, em 1946. Isto confirma uma deterioração grave da segurança internacional; não significa, por si só, que já estejamos numa guerra mundial ou perante uma destruição comparável à Segunda Guerra Mundial. [1] [5]
Putin tem uma responsabilidade directa na invasão da Ucrânia e na devastação que ela trouxe. Trump merece ser julgado pelas suas próprias decisões: o levantamento de sanções ao gasóleo russo, acompanhado da exigência de substituição de Zelensky e de pressão para que a Ucrânia deixe de atacar infra-estruturas petrolíferas russas, dá razões concretas para criticar a sua política. Na minha leitura, estas escolhas favorecem o agressor e enfraquecem a posição do país invadido. Mas os conflitos do mundo têm outros responsáveis e outras origens; reduzi-los a dois homens deixaria demasiado poder e demasiada violência fora do nosso campo de visão. [2] [3]
A questão mais profunda é a facilidade com que o poder se torna pessoal. Quando um dirigente confunde o Estado consigo próprio, a crítica passa a ser tratada como deslealdade, os especialistas tornam-se incómodos e os subordinados aprendem a dizer aquilo que o chefe deseja ouvir. Assim se perde uma capacidade essencial de qualquer governo: reconhecer um erro antes de o transformar numa tragédia.
Uma ditadura e uma democracia têm mecanismos diferentes. Numa ditadura, contestar o governante pode trazer repressão. Numa democracia, existem eleições, oposição e instituições capazes de limitar o executivo. Mas essas garantias precisam de pessoas dispostas a exercê-las. Um parlamento que abdica de fiscalizar, um partido que protege qualquer decisão do seu líder ou uma administração que pune quem contradiz o chefe ajudam a esvaziar os limites ao poder.
Por isso, a reflexão sobre a governação deve produzir exigências concretas: fiscalização parlamentar efectiva das decisões de guerra; tribunais independentes; transparência no financiamento político; protecção da imprensa e de quem denuncia abusos; obrigação de explicar os objectivos, os custos humanos e os critérios para terminar uma intervenção militar. O mandato eleitoral precisa de ser acompanhado por responsabilidade durante todo o seu exercício.
Esta necessidade torna-se ainda mais urgente perante armas nucleares. O SIPRI alertou este ano para o aumento dos riscos de erro de cálculo e escalada, num contexto de enfraquecimento do controlo de armamentos e dos canais de diálogo. A prevenção exige comunicação, diplomacia e capacidade de travar decisões precipitadas. [4]
Defender a paz exige também proteger os povos agredidos. Um acordo imposto à vítima, sem segurança nem possibilidade de decidir o seu futuro, pode apenas preparar a próxima guerra.
Quem governa deve poder ser contrariado, investigado e afastado pelos meios legítimos. A vida dos povos é demasiado preciosa para depender de um círculo de aduladores à volta de um homem convencido de que nunca se engana.
DADOS ESSENCIAIS
- Em 2025, o UCDP registou 65 conflitos armados com participação de Estados, o máximo da série iniciada em 1946. [1] [5]
- O número de conflitos entre Estados passou de dois, em 2023, para oito, em 2025. [1]
- O SIPRI assinalou, em Junho de 2026, riscos crescentes de erro de cálculo e escalada nuclear. [4]
Nota Editorial
Esta crónica é um texto de opinião, baseado nas publicações internacionais identificadas nas referências e na informação disponível em 11 de Outubro de 2026. As avaliações sobre as decisões dos dirigentes, o favorecimento estratégico da Rússia e a necessidade de reforçar os limites ao poder exprimem o juízo político dos autores.
Os dados sobre a frequência dos conflitos referem-se a 2025, o ano coberto pelos relatórios citados. O número de conflitos é uma medida distinta da sua intensidade e mortalidade. A comparação histórica com a série iniciada em 1946 exige esta precisão; o risco de alastramento deve ser analisado como um risco que a acção política e diplomática pode reduzir.
Referências credíveis
- [1] Universidade de Uppsala / UCDP — UCDP: record number of conflicts between states — 9 de Junho de 2026.
- [2] Nações Unidas / UN News — Guterres: 'Cracks have become canyons' as world faces four tests of power — 25 de Setembro de 2026.
- [3] Reuters — Trump calls for replacing Ukraine's Zelenskiy in tussle over diesel deal with Russia — 10 de Outubro de 2026.
- [4] SIPRI — Increasing focus on nuclear weapons amid heightened escalation risks — new SIPRI Yearbook out now — 8 de Junho de 2026.
- [5] Peace Research Institute Oslo / Siri Aas Rustad — Conflict trends: A global overview, 1946–2025 — PRIO Paper, 2026.
Francisco António dos Santos Gonçalves
Com a co-autoria de Augustus Veritas – AI Assistant
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News
11 de Outubro de 2026