O Nobel da Economia e o Grande Casino do Capitalismo

Fragmentos do Caos · Crónica de opinião
O Nobel da Economia e o Grande Casino do Capitalismo
Quando a ciência económica legitima um sistema que já não sabe distinguir riqueza, especulação e poder.
Há qualquer coisa de profundamente irónico numa civilização que atribui os seus mais prestigiados prémios científicos ao estudo dos mecanismos de uma economia que, ciclicamente, produz crises, destrói poupanças, concentra fortunas e exige aos cidadãos que paguem os prejuízos de decisões que nunca tomaram.
Chamamos-lhe economia de mercado. Chamamos-lhe capitalismo financeiro. Chamamos-lhe globalização.
Mas talvez Susan Strange tenha encontrado, em 1986, uma designação mais apropriada: capitalismo de casino.
Um gigantesco casino planetário onde se negoceiam moedas, dívidas, ações, derivados, matérias-primas e expectativas. Onde a riqueza pode multiplicar-se sem que uma única fábrica seja construída, uma única descoberta científica seja realizada ou um único trabalhador veja melhoradas as suas condições de vida.
E onde, ao contrário dos casinos tradicionais, os grandes jogadores dispõem frequentemente de uma vantagem extraordinária: quando as apostas correm mal e ameaçam todo o sistema, os Estados podem ser chamados a impedir a bancarrota.
Naturalmente, a conta acaba por chegar à sociedade.
I — O casino onde os jogadores não pagam todas as perdas
Em 2008, o mundo assistiu a uma das mais extraordinárias demonstrações das contradições do capitalismo financeiro contemporâneo.
Durante anos, instituições financeiras transformaram créditos hipotecários em produtos estruturados, distribuíram riscos por investidores internacionais e construíram uma arquitetura financeira cuja complexidade ultrapassava frequentemente a capacidade de fiscalização dos reguladores.
As agências de notação classificavam produtos. Os bancos negociavam-nos. Os investidores procuravam rendimentos. Os supervisores não conseguiram impedir a acumulação de riscos sistémicos.
Tudo parecia funcionar. Até deixar de funcionar.
Quando o edifício começou a ruir, milhões de cidadãos descobriram que os prejuízos de operações realizadas em mercados distantes podiam determinar o seu emprego, a sua habitação, os seus impostos e o futuro dos seus filhos.
A crise revelou uma assimetria moral fundamental: os benefícios da especulação eram frequentemente apropriados por agentes privados, enquanto parte dos custos da estabilização financeira recaía sobre o conjunto da sociedade.
A intervenção pública evitou consequências potencialmente ainda mais graves. Mas isso não elimina a questão de fundo.
Como pode um sistema proclamar a superioridade da disciplina do mercado e, simultaneamente, depender da intervenção do Estado quando essa disciplina ameaça destruir os seus principais protagonistas?
É uma contradição que nenhuma equação económica consegue, por si só, resolver.
II — Portugal: o pequeno laboratório das grandes contradições
Portugal oferece exemplos particularmente elucidativos.
O BPN, o BES e o BANIF representam histórias distintas, com diferentes responsabilidades, modelos de intervenção e consequências financeiras. Não seria rigoroso reduzi-los a uma única explicação.
Mas todos contribuíram para expor fragilidades na supervisão bancária, na governação financeira e na capacidade do Estado para proteger o interesse público sem transferir custos elevados para os contribuintes.
No caso do BPN, a nacionalização ocorreu em 2008, num contexto de graves problemas financeiros e irregularidades.
O BES colapsou em 2014, dando origem à resolução bancária e ao Novo Banco.
O BANIF foi objeto de uma medida de resolução em 2015, depois de dificuldades prolongadas e de intervenção estatal anterior.
Em diferentes momentos, os cidadãos foram confrontados com responsabilidades financeiras associadas a instituições que não administravam, não supervisionavam e cujas decisões não controlavam.
A questão ultrapassa a dimensão contabilística. É uma questão de democracia.
Porque a soberania popular perde substância quando decisões privadas podem criar obrigações públicas de enorme dimensão sem mecanismos proporcionais de responsabilização.
Os cidadãos elegem governos para administrar recursos coletivos, não para garantir que os erros de determinados agentes económicos sejam sistematicamente absorvidos pela sociedade.
E, contudo, esta tensão permanece no coração do sistema financeiro contemporâneo.
III — A Europa, o dinheiro russo e o preço da dependência
Durante décadas, importantes setores económicos europeus estabeleceram relações comerciais e financeiras com a Rússia. Parte dessas relações correspondia a atividades legítimas. Outra parte suscitou investigações sobre branqueamento de capitais, estruturas societárias opacas, corrupção e influência política.
A dependência energética europeia em relação à Rússia revelou-se particularmente problemática após a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
A economia tinha criado dependências que se converteram em vulnerabilidades estratégicas.
O capital, afinal, não circula necessariamente desligado dos interesses políticos. Pode transportar consigo influência, dependência e capacidade de pressão.
É precisamente aqui que a tese do capitalismo de casino adquire uma dimensão geopolítica.
Quando a origem do dinheiro é pouco transparente, quando os beneficiários efetivos se escondem atrás de sociedades sucessivas e quando determinados investimentos são utilizados para conquistar influência, o mercado deixa de ser apenas um mecanismo de afetação de recursos.
Pode transformar-se num instrumento de poder.
E uma democracia que não consegue identificar quem financia determinados interesses corre o risco de perder a capacidade de reconhecer quem condiciona as suas decisões.
IV — Os Estados Unidos: quando a política entra no mercado
Os Estados Unidos representam uma das maiores concentrações de poder financeiro, tecnológico e político da história.
São também uma democracia com instituições, mecanismos de fiscalização e uma tradição de debate público sobre o financiamento político.
Mas o peso dos grandes interesses económicos nas campanhas eleitorais, nas atividades de lobbying e na formulação de políticas públicas suscita uma questão legítima: até que ponto a capacidade financeira determina o acesso ao poder?
A presidência de Donald Trump torna especialmente relevante examinar as fronteiras entre interesses empresariais, decisões políticas e eventuais conflitos de interesses.
Essas questões exigem provas concretas e escrutínio institucional, não acusações indiscriminadas.
Mas existe um problema estrutural que transcende Trump.
Quando decisões governamentais podem alterar significativamente a valorização de empresas, setores económicos, moedas ou matérias-primas, a informação política transforma-se num ativo financeiro.
Quem dispõe de informação privilegiada, influência regulatória ou acesso antecipado a decisões pode encontrar oportunidades inacessíveis ao cidadão comum.
A política aproxima-se perigosamente da mesa de apostas. E a democracia corre o risco de se tornar um mercado de acesso diferenciado ao poder.
V — O dinheiro ilícito: o lado subterrâneo da economia global
O capitalismo financeiro contemporâneo não pode ser analisado ignorando as organizações criminosas transnacionais.
O narcotráfico, a corrupção, a fraude financeira, o tráfico de seres humanos e outras atividades ilícitas geram receitas que procuram entrar na economia formal.
O branqueamento de capitais permite transformar dinheiro de origem criminosa em património aparentemente legítimo.
Imobiliário, empresas, instrumentos financeiros e estruturas internacionais podem ser utilizados para ocultar a proveniência desses recursos.
É fundamental não confundir estes mecanismos criminosos com o funcionamento normal dos mercados. Mas também seria ingénuo imaginar que os dois universos nunca se cruzam.
Quando o dinheiro ilícito consegue comprar proteção, influenciar decisões administrativas ou corromper agentes judiciais, o problema deixa de ser exclusivamente económico. Passa a ser institucional.
Porque a justiça é a última barreira entre uma sociedade governada por leis e uma sociedade governada pela capacidade de comprar exceções.
E quando essa barreira falha, o dinheiro deixa de ser apenas um instrumento de troca. Transforma-se num instrumento de impunidade.
VI — O Nobel da Economia: a ciência que ensina a estabilizar o casino
E chegamos ao acontecimento que motivou esta reflexão.
Em 12 de outubro de 2026, a Academia Real das Ciências da Suécia anunciou a atribuição do Prémio de Ciências Económicas a Robert E. Hall e Michael Woodford, pelos seus contributos para os fundamentos microeconómicos da estabilização macroeconómica.
A investigação dos laureados ajudou a compreender como famílias e empresas respondem a expectativas económicas e como as políticas monetária e orçamental podem atenuar recessões e períodos de instabilidade.
São contributos científicos relevantes. Não existe fundamento para acusar os investigadores de promoverem corrupção, especulação criminosa ou captura institucional.
Mas é precisamente aqui que surge uma crítica mais interessante.
Será suficiente aperfeiçoar os mecanismos que estabilizam o sistema económico sem questionar suficientemente a distribuição do poder dentro desse mesmo sistema?
A investigação macroeconómica pode explicar como evitar uma recessão profunda. Pode ajudar os bancos centrais a controlar a inflação. Pode contribuir para preservar o emprego e reduzir os custos sociais das crises.
Mas não determina, por si só, se é justo que determinadas instituições financeiras acumulem influência desproporcionada, nem resolve os problemas de corrupção, desigualdade ou captura regulatória.
São questões que exigem também economia política, direito, sociologia e filosofia moral.
O Nobel integra, assim, o universo institucional da economia contemporânea. A sua autoridade científica pode contribuir para legitimar determinados instrumentos de governação económica.
Contudo, seria um salto injustificado concluir que o prémio foi concebido para legitimar a especulação ou proteger interesses financeiros.
A crítica pertinente é outra: uma ciência económica pode tornar-se extraordinariamente sofisticada na gestão das crises e continuar insuficiente na explicação das estruturas de poder que permitem a sua repetição.
VII — O Nobel que não nasceu com Alfred Nobel
Existe ainda um detalhe histórico revelador.
O Prémio de Ciências Económicas não fazia parte dos cinco prémios instituídos pelo testamento de Alfred Nobel.
Foi criado em 1968 pelo Sveriges Riksbank, o banco central da Suécia, e atribuído pela primeira vez em 1969.
A seleção dos laureados cabe à Academia Real das Ciências da Suécia, não ao banco central.
Este facto não retira mérito aos premiados. Mas permite compreender que o prémio nasceu num contexto institucional distinto daquele que deu origem às distinções originais.
A economia conquistou, através deste prémio, uma projeção pública e uma autoridade simbólica comparáveis às de outras ciências.
E é legítimo perguntar se essa autoridade não contribui, por vezes, para apresentar como inevitáveis determinadas opções económicas que são, na realidade, escolhas políticas e sociais.
Porque não existe uma única maneira de organizar a economia.
Não existe uma lei da natureza que determine que os ganhos financeiros devam ser distribuídos de uma forma e os custos das crises de outra.
Essas são decisões humanas. E aquilo que os seres humanos decidiram construir também podem decidir transformar.
VIII — A grande contradição: sabemos calcular o risco, mas não distribuir a justiça
A humanidade desenvolveu instrumentos matemáticos extraordinários para analisar mercados financeiros.
Conseguimos modelar probabilidades, calcular volatilidades, estimar riscos de crédito, construir cenários macroeconómicos e simular crises.
Mas a sofisticação matemática não substitui o julgamento moral.
Uma operação pode ser legal e socialmente prejudicial. Um investimento pode ser altamente rentável e contribuir pouco para a economia produtiva. Uma decisão pode estabilizar os mercados financeiros e, simultaneamente, distribuir os custos de forma profundamente desigual.
É esta a fronteira que a economia não deveria ignorar.
O produto interno bruto mede atividade económica, mas não mede integralmente a qualidade da democracia.
A capitalização bolsista mede o valor atribuído pelos mercados às empresas, mas não mede necessariamente o seu contributo para o bem-estar coletivo.
E a estabilidade financeira, embora indispensável, não constitui prova de justiça social.
Uma sociedade não é necessariamente mais civilizada porque os seus mercados valorizam. É mais civilizada quando a prosperidade económica se traduz em dignidade humana, oportunidades e instituições justas.
IX — Quando o Estado se transforma no garante do casino
O Estado moderno enfrenta uma contradição particularmente difícil.
Precisa dos mercados financeiros para financiar investimentos, gerir dívida pública e sustentar o funcionamento da economia.
Mas precisa também de regular esses mesmos mercados para impedir abusos, riscos sistémicos e concentrações excessivas de poder.
Quando a regulação falha, pode surgir a captura regulatória: as instituições encarregadas de fiscalizar determinados setores passam a responder, de forma desproporcionada, aos interesses daqueles que deveriam supervisionar.
Não é necessário imaginar uma conspiração universal.
Bastam incentivos desalinhados, relações de dependência, conflitos de interesses, insuficiência de recursos e mecanismos frágeis de responsabilização.
A corrupção pode agravar esse processo, mas a captura institucional também pode ocorrer através de práticas formalmente legais.
E talvez seja esta a característica mais inquietante do capitalismo contemporâneo.
Uma parte dos seus desequilíbrios não depende necessariamente da violação da lei. Pode resultar das próprias regras segundo as quais o sistema funciona.
X — A humanidade não nasceu para servir os mercados
O mercado é uma construção humana. A moeda é uma construção humana. Os bancos, as bolsas, os instrumentos financeiros e os bancos centrais são construções humanas.
Nenhuma dessas instituições possui uma finalidade superior à sociedade que as criou.
Devem existir para facilitar a produção, a inovação, a circulação de riqueza e o desenvolvimento humano.
Não para transformar a humanidade numa variável subordinada à rentabilidade financeira.
O problema não é a existência de investidores, empresários ou instituições bancárias. São componentes essenciais de uma economia moderna.
O problema surge quando o sucesso financeiro se torna o principal critério de avaliação de uma sociedade e quando os mecanismos democráticos deixam de conseguir impor limites ao poder económico.
A economia deve ser julgada não apenas pela sua capacidade de produzir riqueza, mas também pela forma como essa riqueza é criada, distribuída e utilizada.
Uma economia verdadeiramente desenvolvida não pode considerar o cidadão apenas como consumidor, contribuinte, trabalhador ou devedor.
Antes de tudo, é um ser humano.
Epílogo — O prémio, o casino e a conta final
O Nobel da Economia de 2026 reconhece investigação destinada a tornar as economias mais estáveis. Esse objetivo merece reconhecimento.
Mas a estabilidade não deve tornar-se um substituto da justiça.
Podemos construir modelos cada vez mais sofisticados para compreender os ciclos económicos, enquanto continuamos a tolerar estruturas de poder que permitem a concentração extrema de riqueza, a circulação de capitais ilícitos e a transferência de custos privados para a sociedade.
Podemos atribuir prémios à excelência matemática e continuar incapazes de responder a uma pergunta elementar:
A economia existe para servir a humanidade ou a humanidade existe para sustentar a economia?
Talvez o grande desafio do século XXI não seja descobrir uma fórmula capaz de impedir todas as crises financeiras.
Talvez seja construir instituições capazes de impedir que a prosperidade de alguns dependa sistematicamente da vulnerabilidade de muitos.
Porque um casino pode funcionar com regras matematicamente impecáveis e continuar a ser um lugar onde os resultados são profundamente desiguais.
E uma democracia não se mede apenas pela liberdade de votar. Mede-se também pela capacidade dos cidadãos de impedir que o poder económico se transforme em poder absoluto.
No grande casino do capitalismo, o problema não é existirem jogadores que ganham. É existirem jogadores suficientemente poderosos para transferirem as suas perdas para quem nunca se sentou à mesa.
E, enquanto essa assimetria persistir, nenhum prémio científico, por mais prestigiado que seja, poderá substituir a necessidade de reformar as instituições.
Referências e leituras
- Academia Real das Ciências da Suécia — Nobel da Economia 2026
- Reuters — Hall e Woodford recebem Nobel 2026
- Reuters Breakingviews — Limites do paradigma macroeconómico premiado
- Euronews — História e atribuição do prémio
- Parlamento Europeu — Alegações de interferência russa
- Sveriges Riksbank — Origem do prémio
- Susan Strange, Casino Capitalism (1986).
- John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money (1936).
- Hyman P. Minsky, Stabilizing an Unstable Economy (1986).