O século XXI e a erosão do humano

O século XXI e a erosão do humano
Entre o poder de transformar o mundo e a responsabilidade de preservar a dignidade humana.
Nota de abertura:
Esta crónica parte de uma inquietação humana: que futuro estamos a construir quando a capacidade técnica cresce sem uma exigência equivalente de responsabilidade, consideração e respeito pelo próximo?
Há uma inquietação que atravessa a experiência de quem foi educado a respeitar a palavra dada, a cumprir compromissos e a reconhecer no próximo alguém merecedor de consideração. Ao observar a mentira transformada em estratégia, a humilhação convertida em divertimento ou a violência exibida como demonstração de poder, essa pessoa pergunta-se o que aconteceu ao mundo. A pergunta contém uma preocupação que ultrapassa a saudade: que espécie de humanidade estamos a ensinar a quem vem depois de nós?
A dramática transformação humana do século XXI pode ser pensada a partir deste desfasamento: a expansão das nossas capacidades não garante uma expansão equivalente da nossa responsabilidade. Conseguimos fazer cada vez mais. Continua por decidir o que devemos fazer, em benefício de quem e com que limites. O progresso técnico amplia o alcance da acção; a ética deve responder pela direcção que lhe damos.
A palavra, a confiança e a dignidade
Na memória de muitas famílias, a palavra dada representava um vínculo. Cumpri-la sustentava a credibilidade de uma pessoa; faltar-lhe exigia explicação e reparação. Esse ideal nunca foi realizado por todos. Contudo, tinha valor como referência: permitia distinguir o comportamento digno daquele que merecia censura. Uma comunidade não precisa de ser composta por pessoas irrepreensíveis para reconhecer a honestidade como virtude.
É nessa referência que se situa a inquietação contemporânea. Quando o oportunismo recebe admiração, a falta de escrúpulos se apresenta como competência e a responsabilidade pode ser afastada por influência ou riqueza, a sociedade transmite uma lição perigosa. A conduta passa a ser avaliada pelo proveito que proporciona. A pergunta sobre a justiça do acto cede lugar ao cálculo da vantagem.
Não é necessário concluir que a maioria dos seres humanos se tornou má para reconhecer a gravidade desse mecanismo. Uma minoria pode exercer enorme influência se controlar recursos, ocupar lugares de autoridade ou definir os exemplos mais visíveis. A normalização da crueldade depende também daquilo que os outros toleram, desculpam e recompensam. A ausência de reacção pode tornar-se uma autorização prática.
Aqui, a filosofia exige precisão. Uma sensação de degradação moral não demonstra, por si só, que todas as sociedades se tornaram mais violentas ou que todos os indicadores pioraram. Mas essa prudência não elimina a questão ética. Mesmo onde existem avanços materiais ou jurídicos, continua a ser legítimo perguntar se os modos de convivência protegem a dignidade, se a verdade conserva valor e se o sofrimento alheio encontra resposta.
A dignidade oferece um critério que resiste à lógica do sucesso. A Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece a igualdade dos seres humanos em dignidade e direitos. [1] Levado a sério, esse princípio impede que o valor de alguém dependa da sua utilidade, riqueza, popularidade ou capacidade de se defender. Uma pessoa conserva o direito ao respeito quando está doente, envelhece, perde rendimento ou deixa de interessar aos outros.
A desumanização começa precisamente quando essa condição é esquecida. O trabalhador reduzido a custo, o idoso tratado como incómodo, a criança usada como instrumento de conflito ou a vítima convertida em imagem consumível são exemplos de uma mesma falha moral: a pessoa desaparece por detrás da função que lhe atribuímos. O outro passa a contar apenas enquanto serve um objectivo.
A atenção, a violência e os limites morais
As tecnologias de comunicação acrescentam uma dimensão própria a este problema. Um estudo publicado na Science Advances, em 2021, encontrou, nas condições analisadas, que o retorno social positivo dado a expressões de indignação aumentava a probabilidade de novas expressões semelhantes. [2] A indignação pode defender causas justas; o estudo não demonstra um aumento geral da maldade. Mostra, contudo, como a expressão pública pode ser moldada por recompensas. A leitura filosófica que aqui proponho é que devemos examinar os ambientes que favorecem a reacção e perguntar que espaço deixam à reflexão.
Quando a humilhação rende atenção, existe um incentivo para a repetir. Quando uma mentira traz vantagem e a correcção chega sem alcance comparável, a verdade fica em desvantagem prática. A responsabilidade individual permanece, mas deve acompanhar-se de uma responsabilidade sobre as estruturas: que comportamentos favorecemos, que danos permitimos e que mecanismos de reparação oferecemos?
A violência gratuita torna esta interrogação especialmente dolorosa. A agressão usada como divertimento ou afirmação de domínio revela uma relação em que a dor do outro perde peso. Há ainda uma responsabilidade do espectador: quem transforma o sofrimento em espectáculo participa na criação de um público para a crueldade. A distância de um ecrã não apaga a existência de quem sofre.
Compreender as condições que favorecem a violência — exclusão, aprendizagem de comportamentos agressivos, experiências de abuso ou outros factores — é necessário para a prevenir. Essa compreensão deve servir a protecção e a intervenção. Responsabilizar o agressor e reconhecer a dignidade da vítima são exigências compatíveis com a recusa de desumanizar quem cometeu o dano. Uma justiça digna precisa de firmeza, proporcionalidade e possibilidade de reparação.
Também a empatia, por si só, é insuficiente. Podemos comover-nos com quem nos é próximo e permanecer indiferentes perante quem pertence a outro grupo. A ética exige que o respeito ultrapasse a simpatia. Os direitos de uma pessoa não podem depender de gostarmos dela, de partilharmos as suas opiniões ou de reconhecermos na sua vida uma imagem da nossa.
As instituições e a responsabilidade perante o futuro
O problema alcança então as instituições. A confiança deteriora-se quando as regras parecem ter pesos diferentes conforme a posição de quem as viola. Uma instituição ensina através das suas decisões: quem protege, a quem pede contas, que erros admite e que privilégios permite. Exigir honestidade aos cidadãos implica criar condições públicas em que a honestidade não seja uma desvantagem sistemática.
A dimensão temporal dessa responsabilidade foi trabalhada por Hans Jonas. Ao reflectir sobre o poder tecnológico, o filósofo defendeu uma ética capaz de considerar consequências distantes e as condições de existência das gerações futuras. [3] O alcance das nossas decisões obriga-nos a incluir pessoas que ainda não podem participar nelas. A ausência dessas pessoas no presente não diminui a obrigação que temos perante elas.
A herança que deixamos inclui o ambiente físico e os recursos materiais, mas também formas de relação. Uma criança aprende o significado da palavra, da autoridade e da justiça observando como os adultos agem. Se ouve elogios à honestidade e vê premiada a fraude, encontra uma contradição que terá de interpretar. Se vê um adulto admitir um erro e repará-lo, recebe uma demonstração concreta de responsabilidade.
A educação moral deve, por isso, desenvolver discernimento. Ensinar respeito implica ensinar a reconhecer o abuso, a contestar uma ordem injusta e a distinguir autoridade de arbitrariedade. A recuperação de valores merece ser pensada à luz da liberdade e da igualdade. Um costume antigo pode preservar sabedoria; pode também perpetuar exclusão. Cabe à reflexão ética examinar ambos, em vez de conceder legitimidade automática à tradição ou à novidade.
A tecnologia e a humanidade que queremos deixar
Esse trabalho aplica-se igualmente à tecnologia. A inteligência artificial, os sistemas de informação e as ferramentas de comunicação podem apoiar o conhecimento, o cuidado e a cooperação. O seu valor humano depende também dos objectivos que orientam a concepção e o uso, dos interesses que servem e das possibilidades que oferecem a quem é afectado. A eficiência de um sistema não dispensa a avaliação da justiça dos seus efeitos.
Perante isto, a resignação seria uma escolha com consequências. Dizer que tudo está perdido pode acabar por dispensar-nos de agir. A presença da crueldade exige resistência, e essa resistência assume formas concretas: proteger uma vítima, corrigir uma falsidade, cumprir um compromisso, exigir prestação de contas, recusar uma vantagem obtida à custa da vulnerabilidade de alguém. A coerência quotidiana ganha força quando encontra instituições que a sustentam.
A questão decisiva do século XXI é, assim, o uso moral do poder que acumulámos. Que limites aceitamos quando poderíamos ultrapassá-los? Que obrigações reconhecemos perante quem não pode retribuir-nos? Que custos estamos dispostos a suportar para preservar a justiça? As respostas revelam-se sobretudo nas decisões em que a conveniência entra em conflito com a dignidade.
O futuro humano permanecerá aberto enquanto houver capacidade de reconhecer esse conflito e vontade de responder por ele. Podemos construir sociedades em que a confiança seja protegida, a liberdade inclua responsabilidade e a fragilidade encontre cuidado. Isso exige escolhas pessoais, educação e organização colectiva.
Uma criança que chega ao mundo precisa de alimento, abrigo e conhecimento. Precisa também de descobrir que uma promessa pode ser cumprida, que a sua dor merece atenção e que ninguém perde o direito ao respeito por ter menos força.
É perante essa criança que o nosso progresso terá de prestar contas.
Elementos centrais
- A dignidade e os direitos de uma pessoa não dependem da sua utilidade ou posição social. [1]
- O reforço social pode favorecer a repetição de expressões de indignação nas condições estudadas. [2]
- O estudo da PNAS associa referências a adversários políticos a maior partilha nas publicações analisadas; o seu âmbito é específico. [4]
- O alcance do poder tecnológico exige considerar a responsabilidade perante as gerações futuras. [3]
Nota Editorial
Esta crónica é um ensaio filosófico de opinião, desenvolvido a partir da reflexão de Francisco António dos Santos Gonçalves sobre a palavra dada, a dignidade e a violência gratuita. O seu argumento central é normativo: uma sociedade deve avaliar o progresso também pela forma como trata as pessoas e pelas condições de vida que deixa às gerações futuras.
As referências científicas sustentam mecanismos específicos de expressão e envolvimento nas redes sociais. Não constituem uma demonstração de que a maioria das pessoas se tornou má, de que a violência aumentou em todo o mundo ou de que exista uma evolução moral uniforme entre países e épocas. A indignação pode ser legítima; a crítica dirige-se aos incentivos que favorecem a humilhação, a desinformação e a indiferença.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos fornece o enquadramento da dignidade; Hans Jonas fundamenta a reflexão sobre a responsabilidade perante o futuro. A interpretação e os juízos editoriais pertencem aos co-autores. Co-autoria: Francisco António dos Santos Gonçalves e Augustus Veritas — AI Assistant.
Referências credíveis
- [1] Nações Unidas — Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), artigo 1.º
Referência normativa à igualdade em dignidade e direitos. - [2] Science Advances — Brady, W. J., McLoughlin, K., Doan, T. N. e Crockett, M. J. (2021), How social learning amplifies moral outrage expression in online social networks
Volume 7, n.º 33, eabe5641. Estudos observacionais e experiências sobre a aprendizagem e o reforço da expressão de indignação. - [3] Social Research — Jonas, H. (1973), Technology and Responsibility: Reflections on the New Tasks of Ethics
Volume 40, n.º 1, pp. 31–54. Texto filosófico sobre a responsabilidade decorrente do poder tecnológico; reprodução acessível na referência [5]. - [4] PNAS — Rathje, S., Van Bavel, J. J. e van der Linden, S. (2021), Out-group animosity drives engagement on social media
Volume 118, n.º 26, e2024292118. Leitura complementar sobre referências a adversários políticos e envolvimento em publicações de contas noticiosas e de congressistas dos EUA. - [5] INTERS — Hans Jonas, Technology and Responsibility: Reflections on the New Tasks of Ethics
Reprodução do ensaio, apresentado em 1972 e incluído em Philosophical Essays (1980).
Francisco António dos Santos Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas — AI Assistant
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