Portugal — Onde Discordar Ainda é uma Ofensa

Quando a crítica é confundida com ataque pessoal, o erro deixa de ser corrigido e passa a ser protegido.

Nota de abertura:
Uma sociedade que não sabe receber crítica perde um dos seus principais mecanismos de correcção. Discordar de uma ideia não é atacar quem a formulou; é submetê-la ao teste indispensável da razão.

Há países onde uma crítica abre uma discussão.

Em Portugal, demasiadas vezes, abre uma guerra.

Critica-se uma decisão e alguém sente que lhe insultaram a inteligência. Questiona-se uma estratégia e o responsável interpreta a pergunta como desafio à autoridade. Aponta-se um erro e, em vez de se analisar o erro, começa-se imediatamente a analisar quem teve a ousadia de o apontar.

É um pequeno vício cultural com consequências enormes.

Nas empresas, o funcionário aprende depressa que existem ideias que podem ser discutidas e outras que pertencem ao chefe. Na administração pública, questionar procedimentos pode ser confundido com insubordinação. Na política, criticar uma decisão transforma-se rapidamente numa declaração de pertença ao campo adversário.

E assim nasce uma das instituições informais mais resistentes do país:

O silêncio prudente.

Quem percebe o problema cala-se.
Quem discorda adapta-se.
Quem poderia melhorar alguma coisa aprende a não incomodar.

Depois organizamos conferências sobre inovação.

A ironia seria deliciosa se não fosse cara.

Porque inovar significa precisamente admitir que aquilo que fazemos hoje pode ser feito melhor amanhã. A ciência funciona assim. A engenharia funciona assim. As melhores organizações funcionam assim. Uma hipótese é apresentada para ser atacada, testada e, se necessário, destruída.

Uma boa ideia não deve precisar de protecção. Deve sobreviver à crítica.

Quando uma organização elimina a discordância, não elimina os erros. Elimina apenas as pessoas que os denunciam.

E os erros continuam tranquilamente sentados à mesa das reuniões.

Talvez parte do atraso português não esteja apenas na falta de capital, tecnologia, produtividade ou qualificação. Talvez exista também um problema mais profundo: a dificuldade cultural em aceitar que alguém possa dizer «estás errado» sem estar a dizer «não vales nada».

Uma sociedade adulta distingue pessoas de ideias.

E percebe uma coisa elementar:

A crítica não é inimiga da competência. É um dos seus instrumentos.

Portugal não precisa apenas de aprender a inovar.

Precisa primeiro de aprender a discordar.

Porque uma sociedade que castiga quem aponta os seus erros acaba, mais cedo ou mais tarde, governada por eles.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e não pretende atribuir a uma única causa cultural os problemas de produtividade ou inovação em Portugal.

A investigação internacional mostra, contudo, que ambientes de trabalho onde existe segurança psicológica, autonomia, aprendizagem e circulação de conhecimento favorecem a aprendizagem organizacional e a inovação. A OCDE tem igualmente identificado fragilidades nas práticas de gestão e delegação nas empresas portuguesas.

A tese defendida é deliberadamente simples: quando uma cultura dificulta a crítica, reduz também a sua capacidade de detectar e corrigir erros. E uma sociedade que corrige mal os seus erros dificilmente poderá inovar depressa.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves & Augustus Veritas — AI Assistant
Fragmentos do Caos
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