Quando o Conhecimento se Tornou Quase Gratuito — e Continuámos a Fabricar Ignorância

Quando o Conhecimento se Tornou Quase Gratuito — e Continuámos a Fabricar Ignorância
Treze anos depois de uma nota sobre software aberto, aprender tornou-se mais acessível do que nunca. O problema já não é apenas chegar ao conhecimento — é querer conquistá-lo.
Nota de abertura:
Em 7 de Setembro de 2013 escrevi uma pequena nota intitulada «Ferramentas de aprendizagem abertas e gratuitas!». Defendia que os cidadãos deveriam firmar-se no saber e no saber fazer, aproveitando recursos abertos e acessíveis. Treze anos depois, a tecnologia tornou essa possibilidade incomparavelmente maior — e tornou também mais evidente que acesso à informação não é sinónimo de conhecimento.
Em Setembro de 2013 escrevi uma pequena nota intitulada «Ferramentas de aprendizagem abertas e gratuitas!».
Defendia então uma ideia bastante simples: abrir a mente aos princípios do software aberto e de uma sociedade mais transparente, onde a paixão por aprender e fazer tivesse maior importância do que a simples condição de consumidor.
Escrevi também que os cidadãos deveriam procurar «firmar-se no saber e no saber fazer», aproveitando recursos abertos e acessíveis a todos.
Passaram treze anos.
E aquilo que então parecia uma possibilidade transformou-se numa oportunidade histórica.
Nunca existiu tanto conhecimento disponível para tantas pessoas.
E talvez nunca tenhamos desperdiçado tanto conhecimento disponível.
A maior biblioteca da história humana cabe numa secretária
Hoje, uma pessoa com um computador relativamente modesto e uma ligação à Internet possui acesso a recursos que fariam inveja às melhores universidades do mundo de há poucas décadas.
Pode aprender matemática. Física. Programação. Electrónica. Astronomia. Biologia. História. Filosofia. Economia. Música. Línguas.
Pode consultar artigos científicos. Assistir a aulas universitárias. Ler documentação técnica. Estudar código escrito por alguns dos melhores programadores do mundo.
Pode instalar gratuitamente Linux, Python, PostgreSQL, LibreOffice, Blender, GIMP e milhares de outras ferramentas.
Pode descarregar o código-fonte. Pode estudá-lo. Pode modificá-lo. Pode construir sobre ele.
E, mais recentemente, pode até instalar modelos de inteligência artificial no seu próprio computador e conversar com uma máquina capaz de explicar conceitos, analisar documentos, ajudar a programar e acompanhar processos de aprendizagem.
Aquilo que durante séculos foi escasso — o acesso ao conhecimento — tornou-se abundantemente disponível.
Não completamente gratuito. Não universal. Não igualmente acessível. Mas numa escala sem precedentes na história humana.
O software aberto foi muito mais do que software
Durante muito tempo olhou-se para o movimento open source como uma curiosidade de programadores.
Foi um erro.
O que estava ali a nascer era uma ideia social muito mais profunda:
o conhecimento pode crescer quando é partilhado.
Um programa tradicional dizia: «Podes utilizar isto nas condições que eu determinar.»
O software aberto acrescentou: «Podes utilizar. Podes estudar. Podes modificar. Podes melhorar. E podes partilhar.»
Essa diferença aparentemente técnica encerra uma filosofia.
O utilizador deixa de ser apenas consumidor. Pode tornar-se participante.
E é precisamente essa transição que continua a interessar-me treze anos depois.
De consumidor a construtor
Uma das transformações mais silenciosas das últimas décadas foi a progressiva conversão do cidadão em consumidor tecnológico.
Compramos dispositivos que não podemos reparar. Utilizamos serviços cujo funcionamento desconhecemos. Guardamos os nossos dados em sistemas que não controlamos. Aceitamos contratos que ninguém lê. Dependemos de algoritmos que não compreendemos. Pagamos subscrições por ferramentas que deixam de funcionar no momento em que deixamos de pagar.
E habituámo-nos a considerar isto inevitável.
Não é.
Existe outra cultura tecnológica.
É a cultura de quem pergunta:
Como funciona?
Posso aprender?
Posso construir?
Existe uma alternativa aberta?
Posso controlar os meus próprios dados?
Preciso realmente deste intermediário?
Estas perguntas parecem técnicas.
Na realidade, são perguntas sobre autonomia.
Saber fazer é uma forma de liberdade
Foi talvez isto que eu procurava dizer em 2013 quando escrevi sobre a necessidade de nos firmarmos no saber e no saber fazer.
Conhecimento não é apenas acumular informação. É adquirir capacidade.
Uma pessoa que sabe programar não possui apenas conhecimentos de programação. Possui a capacidade de transformar uma ideia num instrumento.
Quem compreende electrónica consegue reparar, modificar ou construir. Quem compreende redes consegue criar infra-estruturas. Quem conhece sistemas operativos consegue administrar os seus próprios computadores. Quem possui literacia financeira compreende melhor as decisões que afectam o seu dinheiro. Quem sabe pesquisar e avaliar fontes torna-se menos vulnerável à manipulação.
O conhecimento aumenta o espaço de decisão individual.
E por isso existe uma relação profunda entre conhecimento e liberdade.
Então chegou a inteligência artificial
A inteligência artificial introduziu agora algo ainda mais extraordinário.
Durante décadas, a grande barreira ao conhecimento disponível na Internet não foi apenas encontrá-lo. Foi compreendê-lo.
Um manual podia ser gratuito e continuar incompreensível para um principiante. Uma aula podia estar disponível e partir de conhecimentos que o aluno ainda não possuía. Um artigo científico podia ser acessível e exigir anos de formação para ser interpretado.
A IA começou a funcionar como uma nova camada entre o indivíduo e esse enorme reservatório de conhecimento.
Podemos perguntar. Pedir outra explicação. Pedir um exemplo. Simplificar. Aprofundar. Comparar. Simular. Programar. Testar. Errar. Voltar atrás. Perguntar novamente.
É potencialmente um professor disponível vinte e quatro horas por dia.
Naturalmente, erra. Pode inventar. Exige espírito crítico. Não substitui professores, livros, experiência nem conhecimento especializado.
Mas reduz dramaticamente o custo de começar a aprender.
E isso pode representar uma transformação educativa gigantesca.
A ironia do nosso tempo
Chegamos então ao paradoxo.
Temos mais conhecimento disponível. Temos melhores ferramentas. Temos computadores extraordinariamente poderosos. Temos bibliotecas abertas. Temos cursos gratuitos. Temos software livre. Temos inteligência artificial.
E simultaneamente preocupamo-nos com dificuldades de leitura, défices de atenção, desinformação, superficialidade e perda de capacidade crítica.
Nunca foi tão fácil encontrar informação.
Mas encontrar informação não significa adquirir conhecimento.
E adquirir conhecimento não significa desenvolver pensamento.
Podemos possuir acesso à maior biblioteca alguma vez construída e passar a tarde inteira a deslizar vídeos de quinze segundos num ecrã.
Essa talvez seja uma das grandes ironias civilizacionais do nosso tempo: resolvemos parcialmente a escassez de informação e descobrimos a escassez de atenção.
A verdadeira desigualdade digital
Durante anos falámos da divisão digital entre quem tinha e quem não tinha computador ou Internet.
Essa divisão continua a existir e não deve ser ignorada.
Mas está a surgir outra. Muito mais subtil.
A diferença entre quem utiliza tecnologia apenas para consumir e quem a utiliza para aprender, criar e produzir.
Duas crianças podem possuir exactamente o mesmo computador.
Uma utiliza-o essencialmente para entretenimento.
A outra aprende Python, utiliza ferramentas de IA, constrói um pequeno robot, estuda inglês, explora astronomia e começa a compreender como funciona o mundo digital.
Possuem o mesmo hardware. Mas estão a construir futuros completamente diferentes.
A nova desigualdade tecnológica poderá não ser determinada apenas pelo acesso às máquinas.
Será também determinada pela qualidade da utilização que fazemos delas.
O conhecimento aberto não é inimigo da economia
Há uma ideia da minha nota de 2013 que hoje formularia de maneira diferente.
Na altura associei estes princípios a uma crítica muito abrangente à economia e aos mercados.
Hoje faria uma distinção.
Os mercados não são necessariamente incompatíveis com conhecimento aberto.
A história recente demonstrou precisamente o contrário.
Grande parte da economia digital mundial funciona sobre tecnologias abertas: Linux, Python, PostgreSQL, Git, Kubernetes, bibliotecas científicas, protocolos abertos e milhares de projectos mantidos por comunidades, universidades, fundações e empresas.
O verdadeiro conflito não é necessariamente entre mercado e conhecimento aberto.
É entre autonomia e dependência.
Entre sistemas que permitem compreender, modificar e escolher e sistemas construídos deliberadamente para aprisionar o utilizador.
Entre tecnologia que capacita e tecnologia que apenas captura.
Uma política de educação para o século XXI
Se aceitarmos isto, então ensinar tecnologia não pode continuar a significar apenas ensinar crianças a utilizar aplicações.
Uma criança não se torna tecnologicamente competente porque sabe tocar num ecrã.
Isso é como afirmar que alguém compreende automóveis porque sabe conduzir.
Precisamos de ensinar como as coisas funcionam.
Programação. Lógica. Dados. Redes. Segurança. Inteligência artificial. Fontes. Probabilidade. Pensamento crítico.
E, sobretudo, a extraordinária capacidade humana de aprender autonomamente.
A pergunta educativa fundamental deveria deixar de ser apenas:
«O que sabe este aluno?»
E passar também a ser:
«Este aluno sabe aprender aquilo que ainda não sabe?»
Porque num mundo onde o conhecimento se transforma continuamente, essa será provavelmente uma das competências mais importantes de todas.
Uma sociedade de construtores
Continuo, portanto, a acreditar na essência daquela pequena nota escrita em Setembro de 2013.
Talvez ainda mais do que acreditava então.
Uma sociedade tecnologicamente desenvolvida não é aquela onde todos possuem o último telefone. Nem aquela onde existem mais subscrições digitais. Nem sequer aquela onde toda a gente utiliza inteligência artificial.
É aquela onde existe uma massa crítica de cidadãos capaz de compreender as ferramentas que utiliza. Questioná-las. Adaptá-las. Construí-las. Melhorá-las. E criar outras.
Uma sociedade de consumidores depende sempre de alguém que produza.
Uma sociedade de cidadãos capazes de produzir conhecimento possui muito mais possibilidades de determinar o próprio futuro.
Treze anos depois
Em 2013 escrevi:
«Firmarem-se no saber e no saber fazer.»
Treze anos depois mudaram as máquinas. Mudaram as ferramentas. Mudou a Internet. Chegou a inteligência artificial.
Mas aquela frase continua a parecer-me válida.
Talvez hoje acrescentasse apenas algumas palavras:
saber, saber fazer, saber aprender e saber pensar.
Porque ferramentas abertas não produzem automaticamente sociedades abertas.
Informação abundante não produz automaticamente cidadãos informados.
Inteligência artificial não produz automaticamente inteligência humana.
E conhecimento gratuito não serve de muito a quem perdeu a vontade de aprender.
Construímos uma civilização onde uma parte extraordinária do conhecimento humano está finalmente ao alcance dos dedos.
Agora falta resolver a parte mais difícil:
fazer com que volte a existir fome de o alcançar.
Nota Editorial
Este artigo desenvolve uma nota pessoal escrita por Francisco António dos Santos Gonçalves em 7 de Setembro de 2013. A formulação original defendia ferramentas de aprendizagem abertas e gratuitas, software aberto, transparência e a valorização do «saber e saber fazer».
A versão de 2026 mantém essa tese central, mas distingue conhecimento aberto de uma oposição genérica aos mercados e incorpora a transformação provocada pela inteligência artificial. Esta actualização é coerente com a evolução internacional: a UNESCO adoptou em 2019 uma Recomendação sobre Recursos Educativos Abertos, promovendo acesso, reutilização, adaptação e redistribuição de materiais sob licenças abertas; o seu relatório GEM de 2023 sublinha simultaneamente oportunidades e riscos da tecnologia na educação.
A OCDE, no Digital Education Outlook 2026, salienta que a IA generativa pode apoiar aprendizagem, pensamento crítico e tutoria quando existe intenção pedagógica, mas alerta que melhorar o desempenho numa tarefa com IA não produz necessariamente ganhos reais de aprendizagem. A tecnologia é, portanto, instrumento; aprendizagem, autonomia e pensamento crítico continuam a exigir participação humana.
Referências credíveis
- UNESCO — Recommendation on Open Educational Resources (OER), 2019
- UNESCO — Global Education Monitoring Report 2023: Technology in education — A tool on whose terms?
- UNESCO — Recommendation on Open Science, 2021
- OECD — Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education
- Comissão Europeia — Plano de Acção para a Educação Digital 2021–2027
Francisco António dos Santos Gonçalves
Co-autoria e investigação: Augustus Veritas — AI Assistant
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