BOX DE FACTOS

  • Vladimir Putin voltou a afirmar que a guerra na Ucrânia estaria "a chegar ao fim" e mostrou abertura para conversações sobre a arquitectura de segurança europeia.
  • Putin indicou o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder como figura preferida para um eventual papel de mediação ou coordenação de contactos com a Europa.
  • O Governo alemão reagiu com cepticismo, considerando a proposta pouco credível enquanto Moscovo não alterar as suas condições de fundo.
  • Gerhard Schröder é há muito criticado na Alemanha e na União Europeia pela sua proximidade política e económica à Rússia de Putin.
  • Schröder esteve ligado à Rosneft, à Gazprom e ao universo Nord Stream, símbolos da dependência energética europeia em relação à Rússia.
  • A Ucrânia e vários governos europeus continuam a defender que qualquer negociação séria deve incluir Kiev e não pode legitimar a agressão russa.

A Fraude do Diálogo: Putin, Schröder e a Paz Administrada por Moscovo

Putin fala de diálogo como quem mostra uma pomba branca numa mão enquanto mantém a outra sobre o gatilho. A Europa, se ainda conserva alguma memória, deve aprender a distinguir negociações de armadilhas, paz de submissão, e mediação de infiltração política.

Vladimir Putin voltou a vestir o velho fato da diplomacia. Disse que a guerra na Ucrânia estaria a aproximar-se do fim, insinuou disponibilidade para conversações sobre a segurança europeia e, como quem escolhe cuidadosamente o cenário da próxima peça, sugeriu Gerhard Schröder como figura aceitável para um eventual papel de mediação com a Europa.

À primeira vista, a palavra "diálogo" parece sempre nobre. Tem uma música civilizada, quase terapêutica. Evoca mesas compridas, copos de água, tradutores discretos, dossiers alinhados e fotografias oficiais com expressão grave. Mas no caso de Putin, a palavra diálogo raramente significa abertura sincera. Significa, demasiadas vezes, tempo ganho, cansaço induzido, divisão criada e agressão apresentada como mal-entendido geopolítico.

A guerra contra a Ucrânia não nasceu de uma falha de comunicação. Nasceu de uma invasão. Nasceu de uma decisão imperial. Nasceu da recusa russa em aceitar que um povo europeu pudesse escolher livremente o seu destino político, democrático e estratégico. Chamar a isto "questão de segurança" é já aceitar metade da narrativa do agressor.

A retórica da paz como continuação da guerra

Putin domina uma arte antiga: transformar a linguagem da paz em instrumento de guerra. Fala de negociações enquanto mantém exigências que equivalem à mutilação política e territorial da Ucrânia. Fala de arquitectura de segurança europeia como se a Europa devesse pedir desculpa por existir, por se alargar democraticamente, por permitir que os povos do Leste se libertassem da sombra imperial soviética.

É uma inversão moral cuidadosamente construída. A Rússia invade, destrói, ocupa e deporta; depois apresenta-se como vítima de cerco. A Ucrânia resiste; depois é acusada de prolongar a guerra. A Europa apoia uma nação agredida; depois é acusada de hostilidade. A NATO recebe países que pedem protecção; depois é apresentada como ameaça expansionista.

Este teatro não é novo. É a velha escola da propaganda imperial: criar o incêndio, queixar-se do fumo, e depois oferecer-se para negociar a instalação dos extintores — naturalmente, sob administração do incendiário.

Schröder: uma ponte ou um corredor de influência?

A escolha de Gerhard Schröder não é inocente. O antigo chanceler alemão foi, durante anos, uma das figuras europeias mais associadas à aproximação estratégica e energética entre a Alemanha e a Rússia. O seu percurso posterior ao cargo político ficou marcado por ligações a estruturas energéticas russas e por uma proximidade persistente a Putin, mesmo depois de a Rússia ter mergulhado a Europa na maior guerra em solo europeu desde 1945.

Schröder não é, portanto, uma figura neutra. Pode conhecer Moscovo, pode conhecer Putin, pode conhecer os corredores onde se cruzaram gás, poder e dinheiro. Mas precisamente por isso não deve ser confundido com um mediador limpo. A sua utilidade para Putin não está na imparcialidade; está na ambiguidade. E a ambiguidade, em política internacional, é muitas vezes o idioma preferido da manipulação.

Colocar Schröder no centro de eventuais conversações seria oferecer a Moscovo uma ponte simbólica para entrar no debate europeu por uma porta lateral. Não seria necessariamente um gesto de paz. Poderia ser uma operação de influência com rosto europeu, sotaque alemão e agenda russa.

Berlim percebeu o perigo. A reacção céptica do Governo alemão é importante porque revela que, pelo menos desta vez, a Alemanha parece menos disposta a repetir a ingenuidade que marcou a sua dependência energética em relação à Rússia. O gás barato saiu caro. Muito caro. Saiu em soberania, lucidez estratégica e credibilidade moral.

A Europa não pode negociar contra a Ucrânia

Há uma tentação perigosa nas capitais europeias: a tentação do cansaço. A guerra prolonga-se, os custos acumulam-se, as opiniões públicas cansam-se, os populismos crescem, os orçamentos tremem e a paz começa a parecer sedutora a qualquer preço. Mas uma paz comprada com a rendição parcial da Ucrânia não seria paz. Seria apenas uma pausa administrativa entre duas agressões.

A Europa não pode negociar sobre a Ucrânia sem a Ucrânia. Não pode decidir fronteiras alheias em salas confortáveis de Bruxelas, Berlim, Paris ou Viena. Não pode transformar a vítima em incómodo diplomático e o agressor em parceiro inevitável. Não pode, sobretudo, aceitar a ideia de que a Rússia tem direito natural a zonas de influência, como se os povos da Europa de Leste fossem mobília histórica a arrumar entre impérios.

A soberania ucraniana não é uma formalidade. É o centro moral e jurídico desta guerra. Retirá-la da equação seria repetir os piores reflexos da diplomacia europeia: a paz dos fortes à custa dos fracos, com canetas elegantes e consequências brutais.

Putin procura fissuras, não pontes

A sugestão de Schröder deve ser lida como uma tentativa de criar fissuras dentro da Europa. Putin sabe que a União Europeia tem sensibilidades diferentes, memórias diferentes, dependências diferentes e medos diferentes. Sabe que há países que compreendem a ameaça russa porque a viveram na pele, e outros que ainda preferem vê-la como um problema de "equilíbrio estratégico".

A Rússia joga precisamente nesse tabuleiro: dividir Leste e Oeste, separar Estados Unidos e Europa, contrapor interesses económicos a princípios políticos, alimentar partidos extremistas, explorar redes de desinformação, usar a energia como laço e a nostalgia como veneno.

Schröder seria, neste quadro, menos um mediador e mais uma memória viva do erro europeu: a crença de que se podia domesticar o autoritarismo russo através de contratos, gasodutos e jantares diplomáticos. A Europa confundiu interdependência com paz. Putin confundiu essa dependência com fraqueza. E a Ucrânia pagou o preço em sangue.

A paz exige força moral e força material

Ninguém sensato deseja a guerra. A guerra é sempre uma derrota da humanidade, mesmo quando a resistência é justa. Mas há momentos em que a recusa de enfrentar a agressão não produz paz; produz apenas submissão. E a submissão, quando oferecida a impérios, costuma ser apenas o prefácio de novas exigências.

A Europa precisa de diálogo, sim. Mas de diálogo ancorado na realidade. Precisa de diplomacia, mas não de ingenuidade. Precisa de pontes, mas não de corredores de infiltração. Precisa de uma paz justa, não de uma paz redigida no Kremlin e carimbada por intermediários convenientes.

A paz verdadeira implica cessar a agressão, respeitar a soberania, devolver dignidade às vítimas e impedir que a violência seja recompensada. Tudo o resto é teatro. E, neste teatro, Putin é actor, encenador e censor. A Europa não deve aceitar o papel de figurante.

Conclusão: a paz não pode ser uma fraude com boas maneiras

O problema não está em falar com a Rússia. Um dia será necessário falar. Todas as guerras, por mais terríveis que sejam, acabam por encontrar uma mesa, um documento, uma fronteira, uma garantia, uma ferida por fechar. O problema está em falar nos termos de Putin, com os interlocutores preferidos de Putin, sobre uma guerra iniciada por Putin, como se a Rússia fosse apenas uma das partes de um desentendimento abstracto.

Gerhard Schröder, pelo seu passado e pelas suas ligações, não representa uma mediação europeia equilibrada. Representa a memória de uma Europa que preferiu gás barato a lucidez estratégica. Representa a época em que se confundiu comércio com confiança, contratos com paz, e proximidade pessoal com moderação política.

Putin quer diálogo quando o diálogo lhe permite continuar a guerra por outros meios. Quer negociações quando estas ajudam a dividir os adversários, cansar a Ucrânia e transformar conquistas militares em factos diplomáticos. Quer paz, sim — mas a paz dos cemitérios ocupados, dos territórios amputados e das nações obrigadas a pedir licença para existir.

A Europa, se quiser sobreviver como espaço político livre, não pode cair novamente na ilusão. A paz exige coragem. A diplomacia exige memória. E a liberdade exige uma coisa que por vezes assusta os espíritos confortáveis: capacidade de resistência.

Porque há diálogos que salvam vidas. E há diálogos que apenas dão tempo ao agressor para recarregar as armas.

Nota editorial

A paz é o mais nobre dos objectivos de uma sociedade civilizada. Mas a História demonstra, com demasiada frequência e demasiados mortos, que a paz não sobrevive apenas com boas intenções, discursos piedosos ou confiança ingénua na bondade dos outros. Para preservar a paz, muitas vezes é necessário estar preparado para enfrentar a guerra. Não por desejo de combate, nem por culto da força, mas porque uma nação incapaz de se defender fica sempre dependente da vontade alheia — e, por vezes, da agressividade dos que confundem pacifismo com fraqueza.

Preparar cidadãos para a defesa não é glorificar a guerra. É proteger a liberdade, a dignidade humana, o território, a democracia e a vida comum. Uma paz sem defesa é apenas uma promessa frágil. Uma defesa sem ética é apenas violência organizada. O desafio de uma democracia madura é justamente esse: estar preparada para o pior, sem deixar de servir o melhor.

Fontes consultadas

Fragmentos do Caos
Artigo de Francisco Gonçalves, com co-autoria editorial de Augustus Veritas.

Nota editorial

A Rússia de Putin representa hoje uma afirmação ditatorial que, em espírito imperial, desprezo pela soberania dos povos, culto da força, manipulação da verdade e negação da liberdade, se aproxima perigosamente dos grandes extremismos que conduziram a Europa à tragédia da Segunda Guerra Mundial. Não se trata de confundir contextos históricos diferentes, nem de reduzir a História a paralelos fáceis. Trata-se de reconhecer um padrão antigo: quando um poder autoritário decide que a vontade de um império vale mais do que a vida de uma nação livre, a paz transforma-se numa palavra decorativa e a guerra torna-se instrumento de destino.

Putin não representa a alma profunda do povo russo, povo de cultura imensa, literatura grandiosa, sofrimento histórico e dignidade humana. Representa, isso sim, a captura autoritária desse povo por uma elite imperial, securitária e cleptocrática, que transformou a Rússia numa máquina de medo interno e agressão externa. O nacionalismo armado, a mentira oficial, a repressão política e a expansão territorial são sempre sinais de uma doença antiga da História: a crença de que a força pode substituir a justiça.

A Europa tem o dever moral de não repetir a ingenuidade dos anos em que muitos preferiram negociar com o perigo, alimentar o perigo, comprar energia ao perigo e fingir que o perigo se tornaria moderado por conveniência comercial. A paz não se constrói com submissão. Constrói-se com lucidez, firmeza, memória e capacidade de resistência. Porque perante regimes que confundem diálogo com rendição, a fraqueza raramente evita a guerra — apenas a adia em piores condições.

Francisco Gonçalves
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