Inovação falhada em Portugal: dinheiro público desperdiçado

📷 "Décadas de conversa, zero produtos" — o INESC e a máquina da inovação que não inova.
A farsa da inovação: como o Estado português queima dinheiro público sem criar futuro
Ensaio sobre as agências de inovação, o desperdício de fundos e a necessidade de um Estado que motive — e não sufoque — o empreendedorismo privado
Portugal fala de inovação e tecnologia há décadas. Cria agências, lança estratégias, faz conferências, gasta milhões. A Agência Nacional de Inovação (ANI), a Portugal Ventures, o sistema de incentivos do IAPMEI, as incubadoras financiadas, os pólos tecnológicos, o Portugal 2020, o PRR — uma infinidade de siglas e programas que prometem transformar o país num "hub de inovação". O resultado? Mais Estado, mais burocracia, mais relatórios, mais consultores, e menos resultados concretos. O dinheiro público arde em salários de gestores, em estudos intermináveis, em projetos que nunca saem do papel. E o verdadeiro motor da inovação — o empreendedor privado, o pequeno empresário com uma ideia na cabeça e medo de a pôr em prática — continua travado por impostos, licenciamentos, incerteza jurídica e um Estado que se quer tutor, não facilitador.
Enquanto o Estado insistir em ser o protagonista da inovação, em vez de criar as condições de fundo para que o setor privado se desenvolva, o fracasso está garantido. O modelo português de inovação é um modelo de subsídio-dependência, não de competitividade. E a prova está nos números: reduzido número de startups de alto impacto, emigração de talento, baixo investimento privado em I&D, e uma economia que continua refém do turismo e dos serviços de baixo valor acrescentado.
O diagnóstico: mais Estado, menos inovação
🏛️ As agências que produzem burocracia, não empresas
A ANI, a Portugal Ventures, as CCDR, o IAPMEI — todas estas entidades foram criadas com o discurso de "promover a inovação". Na prática, transformaram-se em máquinas de preencher formulários. Os empreendedores passam meses a candidatar-se a fundos, a justificar despesas, a cumprir critérios muitas vezes absurdos. O tempo que devia ser gasto a desenvolver produtos ou a conquistar mercados é gasto com gestores de projetos, auditorias e relatórios intermináveis. O Estado quer ser "parceiro", mas acaba por ser tutor e carcereiro.
💰 O dinheiro público desperdiçado
Entre fundos comunitários e PRR, Portugal já canalizou milhares de milhões para a inovação. O retorno? Baixo. Casos não faltam: startups que fecham assim que acaba o apoio, projetos de I&D que só servem para encher currículos de académicos, incubadoras transformadas em espaços de co-working com meia dúzia de empresas que vivem de subsídios. Falta de avaliação de impacto, falta de transparência, falta de exigência. O dinheiro aparece, a máquina estatal distribui, e ninguém é responsabilizado pelos maus resultados.
Há que chamar os bois pelos nomes. O INESC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores) é um dos mais antigos e bem financiados institutos públicos de investigação em Portugal. Criado nos anos 80, com dezenas de milhões de euros canalizados através de fundos comunitários e do Orçamento do Estado, o INESC tem uma presença institucional fortíssima. Tem polos no Porto, em Coimbra, em Lisboa. Tem centenas de investigadores, dezenas de projetos, parcerias académicas e papers científicos aos montes. Mas quando se pergunta: "Que produtos? Que serviços? Que empresas spin-off de sucesso?" — o silêncio instala-se.
Agora, o INESC agarrou-se à moda da Inteligência Artificial (IA). Faz conferências, lança "laboratórios de IA", forma doutorados na área. Mas, mais uma vez, a pergunta incómoda persiste: onde estão as aplicações práticas? Onde está o software que possa ser comercializado? Onde está o impacto mensurável na produtividade das empresas portuguesas? A resposta é: em lado nenhum. O INESC é o símbolo máximo do modelo de inovação português: um ecossistema que privilegia a publicação académica e o preenchimento de relatórios em detrimento da criação de valor real. Enquanto se financia este tipo de institutos com dinheiros públicos sem lhes exigir contrapartidas tangíveis, o país continuará a ser um cemitério de ideias — um lugar onde se fala muito de inovação, mas onde raramente ela acontece.
Como bem resumiu um reputado investigador da Universidade do Minho, citado pelo Público em 2024: "O INESC tem muito boa gente, mas o modelo de governação e de incentivos está desenhado para produzir ciência, não para produzir riqueza. E enquanto assim for, o retorno do investimento público será sempre baixíssimo."
📉 O ambiente hostil ao empreendedor privado
Enquanto o Estado se gaba de apoiar startups, o ambiente económico e fiscal para quem quer arriscar é profundamente adverso. Impostos elevados, burocracia infernal, justiça lenta, mercado pequeno, dificuldade de acesso ao crédito, e uma cultura que penaliza o fracasso (e, por isso, desencoraja o risco). O resultado é que muitos dos melhores empreendedores portugueses — os que têm ideias verdadeiramente inovadoras — emigram para países onde o Estado lhes facilita a vida, em vez de a complicar.
O que falha na abordagem portuguesa
Confundir inovação com subsídio. A inovação não se compra com dinheiros públicos. Cria-se um ecossistema onde o empreendedor tem vantagem em arriscar. Em Portugal, o risco é todo do empreendedor, e o Estado leva uma fatia enorme do bolo se ele tiver sucesso (via impostos). A lógica está ao contrário.
Foco nas grandes empresas em detrimento das pequenas. Os incentivos andam à volta de projetos de I&D de grandes grupos económicos, que muitas vezes usam os fundos para o que já fariam de qualquer forma. As pequenas empresas, que são a verdadeira espinha dorsal da inovação, afogam-se em burocracia.
Ausência de uma estratégia nacional de talento. De que serve formar doutorados se depois não há indústria para os absorver? De que serve dar bolsas de investigação se os bolseiros são empurrados para estágios não remunerados? O talento português é um recurso que o país desperdiça sistematicamente.
O remédio (amargo, mas necessário)
O papel do cidadão: exigir resultados, não relatórios
Enquanto a opinião pública e os media continuarem a aplaudir a criação de mais uma "agência para a inovação" sem avaliar o que as anteriores fizeram, o sistema manter-se-á. É preciso exigir indicadores de impacto reais: quantas empresas de alto crescimento foram criadas? Quantos empregos de qualidade? Quanto investimento privado foi alavancado? E, acima de tudo, é preciso responsabilizar os gestores públicos que desperdiçam milhões em projetos falhados — incluindo os dirigentes do INESC e de institutos similares.
A inovação não se constrói com comunicados de imprensa. Constrói-se com um ambiente onde quem arrisca tem vantagem em fazê-lo em Portugal, em vez de o fazer na Holanda, na Irlanda ou na Estónia. Enquanto isso não acontecer, a "inovação portuguesa" continuará a ser uma falácia — e o país, um exportador de talento e um importador de subsídios.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.