BOX DE FACTOS

  • O Irão possui centenas de quilogramas de urânio enriquecido até 60%, nível tecnicamente próximo do grau militar.
  • A AIEA procura retomar inspecções em instalações nucleares iranianas como Isfahan, Natanz e Fordo.
  • Especialistas distinguem entre possuir material nuclear suficiente e possuir uma bomba operacional, mas reconhecem que o conhecimento técnico acumulado já não pode ser simplesmente apagado.
  • A aproximação estratégica entre China, Rússia, Irão e Coreia do Norte reforça a capacidade destes regimes para contornar sanções, partilhar tecnologia e desafiar a ordem internacional.
  • O erro cometido com a Coreia do Norte mostra que negociar indefinidamente com regimes determinados pode apenas dar-lhes o tempo necessário para se tornarem nuclearmente intocáveis.

O Irão, a Bomba e o Último Aviso ao Ocidente

O Ocidente pode discutir estilos, discursos, métodos e riscos. Mas há uma pergunta que já não pode adiar: será mais perigoso agir contra o programa nuclear iraniano, ou permitir que uma teocracia expansionista obtenha a sua própria apólice atómica?

O problema iraniano entrou numa fase em que a ambiguidade se tornou perigosa. Já não estamos perante uma hipótese distante, uma preocupação abstracta ou uma disputa técnica entre diplomatas. O regime de Teerão acumulou conhecimento, infra-estruturas, urânio altamente enriquecido, capacidade balística e uma rede regional de milícias que lhe permite projectar força muito para além das suas fronteiras.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica, citada pela Associated Press, o Irão possui cerca de 440,9 quilogramas de urânio enriquecido até 60%, material tecnicamente muito próximo do limiar de 90% geralmente associado a grau militar. A mesma informação indica que parte significativa desse material poderá permanecer em Isfahan, enquanto a AIEA procura retomar inspecções em instalações nucleares iranianas.

Isto não significa que o Irão tenha hoje uma bomba nuclear operacional. Uma arma nuclear exige mais do que material enriquecido: exige desenho, engenharia, conversão, miniaturização, integração num vector de lançamento e cadeia de comando. Mas significa algo igualmente grave: o regime já se encontra perigosamente perto do ponto em que a decisão política passa a ser mais importante do que a distância técnica.

O erro fatal: esperar demasiado

O Ocidente já viu este filme. Chamava-se Coreia do Norte. Durante anos houve acordos, promessas, violações, negociações, novas promessas, novas violações e uma interminável coreografia diplomática. O resultado está diante dos olhos do mundo: uma ditadura hereditária, brutal e empobrecida, protegida por armas nucleares.

Com o Irão, o erro seria ainda mais perigoso. A Coreia do Norte é uma prisão nuclear isolada. O Irão é uma potência regional com influência sobre milícias, rotas energéticas, conflitos no Médio Oriente, redes de procuração, capacidade de chantagem sobre o estreito de Ormuz e ligações crescentes ao eixo autoritário formado por Rússia, China e Coreia do Norte.

Uma bomba iraniana não seria apenas uma bomba. Seria uma licença de impunidade para toda a arquitectura de pressão, chantagem e destabilização que Teerão construiu ao longo de décadas.

A Tríade e o escudo chinês

A convergência entre Rússia, Irão e Coreia do Norte não é uma construção retórica. O CSIS tem analisado a crescente cooperação entre China, Rússia, Irão e Coreia do Norte como um eixo de desafio à ordem internacional, com dimensões económicas, diplomáticas e de segurança.

A Rússia recebe apoio militar e tecnológico dos seus parceiros autoritários. O Irão projecta influência através de milícias e tecnologia militar. A Coreia do Norte fornece homens, armas e obediência totalitária. A China, mais prudente, mais paciente e mais sofisticada, oferece cobertura estratégica, diplomática, económica e tecnológica, mantendo a aparência de potência responsável enquanto beneficia da erosão do poder ocidental.

Esta rede não precisa de entregar ao Irão uma bomba numa caixa. Basta-lhe fornecer tempo, componentes, rotas financeiras, tecnologia dual-use, protecção diplomática, evasão de sanções e oxigénio estratégico. Nas guerras modernas, a cumplicidade raramente vem com carimbo oficial. Vem em peças, chips, navios, bancos, empresas de fachada e votos silenciosos.

A coragem e o risco

É verdade que agir contra o programa nuclear iraniano comporta riscos: escalada regional, choque petrolífero, retaliação de milícias, ataques contra aliados, pressão sobre rotas marítimas e fracturas políticas internas no Ocidente. Ninguém sério deve fingir que a força não tem preço.

Mas não agir também tem preço. E pode ser muito maior.

Permitir que Teerão chegue à bomba significaria aceitar um Médio Oriente reorganizado em torno da chantagem nuclear. Significaria obrigar Israel, Arábia Saudita, Turquia e outros actores regionais a reverem toda a sua doutrina de segurança. Significaria abrir a porta a uma corrida nuclear regional. Significaria dar ao regime iraniano uma protecção estratégica semelhante à que hoje permite à Coreia do Norte sobreviver como prisão hereditária armada.

A pergunta, portanto, não é se há risco em agir. Há. A pergunta é se o risco de agir é maior do que o risco de permitir que uma teocracia expansionista, repressiva e ligada a uma rede autoritária global obtenha capacidade nuclear militar.

A resposta deveria ser óbvia para qualquer democracia que ainda tenha memória histórica.

A Europa e a anestesia do conforto

A Europa continua a hesitar como quem teme mais a factura da energia do que a factura da História. Fala em paz, mas evita perguntar quanto custa defender a paz. Fala em diplomacia, mas muitas vezes usa a diplomacia como almofada para não decidir. Fala em valores, mas treme quando esses valores exigem meios, força e sacrifício.

Esta é a doença ocidental: o conforto transformado em doutrina estratégica. A crença infantil de que todos os regimes podem ser convencidos com incentivos, fóruns, comércio e linguagem moderada. Mas regimes totalitários não interpretam hesitação como sabedoria. Interpretam-na como fraqueza.

E a fraqueza, na política internacional, raramente fica sem resposta.

O aviso

O Ocidente não precisa de ódio. Precisa de lucidez. Não precisa de cruzadas cegas. Precisa de estratégia. Não precisa de discursos histéricos. Precisa de compreender que há momentos em que adiar é colaborar com o perigo.

O Irão nuclearizado não seria apenas mais um problema regional. Seria a consolidação de um novo patamar de chantagem global, integrado numa constelação autoritária que já desafia a Ucrânia, o Médio Oriente, o Indo-Pacífico, a segurança energética, a liberdade marítima, a informação pública e a própria ideia de democracia liberal.

A História não costuma castigar apenas os tiranos. Castiga também os ingénuos que lhes deram tempo.

Se o Ocidente voltar a repetir com Teerão o erro cometido com Pyongyang, não poderá dizer que foi surpreendido. Poderá apenas confessar que viu o perigo, compreendeu o perigo, discutiu o perigo — e, ainda assim, preferiu esperar.

Entre o risco de agir e o risco de permitir a bomba, há uma diferença essencial: o primeiro pode ser contido por estratégia; o segundo transforma-se numa nova arquitectura do medo.

Referências internacionais

Fragmentos do Caos
Por Francisco Gonçalves
Com a colaboração editorial de Augustus Veritas.

Nota editorial — Trump pode ser rude, bruto, imprevisível e muitas vezes incoerente. Mas, ao pressionar o regime iraniano, está a tentar atingir um dos braços mais perigosos da engrenagem autoritária que ameaça o Ocidente. A sua estratégia pode correr mal; pode gerar escalada, choque energético e instabilidade regional. Mas não fazer nada, esperar, adiar e repetir a velha liturgia diplomática enquanto Teerão se aproxima da chantagem nuclear seria talvez um erro ainda maior.

O problema não é escolher entre risco e ausência de risco. Essa opção já não existe. O problema é escolher entre um risco activo, que ainda pode ser gerido por estratégia, e um risco passivo, que pode transformar-se numa nova arquitectura de medo. O regime iraniano compreende a linguagem da força muito melhor do que a linguagem dos comunicados europeus. E talvez seja precisamente por isso que a Europa se sente tão desconfortável quando alguém, mesmo de forma rude, decide tocar na ferida.

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