BOX DE FACTOS

  • Portugal tinha condições naturais, humanas, históricas e geográficas para se transformar numa nação moderna, próspera e respeitada.
  • O 25 de Abril abriu uma esperança real de liberdade, desenvolvimento, justiça social e internacionalização.
  • A democracia portuguesa foi progressivamente capturada por aparelhos partidários, carreiras internas, clientelas e interesses particulares.
  • O mérito foi frequentemente substituído pela obediência, pela fidelidade partidária e pela esperteza táctica.
  • O sonho de uma geração foi sendo corroído por décadas de mediocridade política, nepotismo, oportunismo e ocupação partidária do Estado.

O Sonho Roubado da minha Geração

Portugal não falhou por falta de mar, de sol, de povo ou de talento. Falhou porque entregou demasiadas vezes o seu destino a aparelhos medíocres, oportunistas e incapazes de imaginar grandeza.

Portugal tinha tudo para ser um grande país. Tem um oceano imenso pela frente, um clima excelente, muito sol, uma geografia atlântica privilegiada, uma história antiga e um povo fantástico, resistente, generoso, trabalhador e capaz de uma ternura rara mesmo nos momentos mais difíceis.

O que Portugal nunca teve, ou teve poucas vezes, foi uma classe política à altura da sua possibilidade. Desde há muito que o país tem sido governado por gente medíocre, oportunista, frequentemente corrupta ou conivente com a corrupção, incapaz de pensar para além do ciclo eleitoral, da intriga partidária, do lugar prometido, da nomeação conveniente ou do negócio familiar à sombra do Estado.

Recordo bem a minha juventude de estudante no interior, na Beira Baixa. Apesar da ditadura, havia naquele povo uma humanidade que ainda hoje guardo como uma luz antiga. Era um povo adorável, simples, digno, pobre muitas vezes, mas capaz de uma grandeza moral que não vinha dos discursos nem das instituições. Vinha da vida, da palavra dada, da vizinhança, do trabalho e da amizade.

Estudava, lia muito, tentava perceber o mundo. Aos dezassete anos, quando terminei o secundário, acreditava que o futuro estava próximo. Não era uma ideia abstracta. Era uma espécie de claridade no horizonte. Lia, observava, discutia, pensava, e sabia que a ditadura estava a chegar ao fim. O país parecia prestes a acordar de uma longa noite.

Havia em mim, como em tantos da minha geração, a convicção de que Portugal podia finalmente sorrir. Podia abrir-se ao mundo. Podia desenvolver-se. Podia tornar-se mais justo, mais culto, mais próspero, mais livre. Havia uma esperança quase física, como se o futuro estivesse já a bater à porta.

A manhã de Abril e a promessa de um país novo

Poucos meses depois chegou o 25 de Abril. Veio a euforia da liberdade, as ruas abertas, a palavra solta, o povo a descobrir que podia respirar sem pedir autorização. Foi um momento imenso, quase poético, quase impossível de descrever a quem não tenha vivido aquele tempo com a idade da esperança no sangue.

Portugal parecia finalmente entrar na História pela porta da frente. A censura caíra, o medo recuava, a política entrava nas conversas, os jornais multiplicavam vozes, as pessoas discutiam futuro como quem aprende uma língua nova. Havia excesso, ingenuidade, confusão, paixão, ruído, mas havia vida. Havia essa coisa rara e preciosa: a sensação de que tudo podia ainda ser construído.

Depois veio também a vertigem. A revolução precipitou um período de confusão, radicalismo, luta pelo poder, medo e instabilidade. Durante algum tempo, o sonho pareceu transformar-se em pesadelo. A liberdade, recém-nascida, corria o risco de ser capturada por outros dogmas, outras ortodoxias, outras formas de imposição.

Felizmente, esse pesadelo terminou ao fim de pouco mais de um ano. E de novo o futuro pareceu florescer. A democracia parecia encontrar o seu caminho. Uma Constituição democrática, eleições livres, instituições em formação, um país para desenvolver e internacionalizar, um mundo cheio de oportunidades. Portugal parecia pronto para ter futuro.

Quando os partidos começaram a ocupar o horizonte

Mas quando os partidos começaram a tornar-se o horizonte quase exclusivo da democracia, algo me pareceu desde cedo estranho. Havia uma dissonância. Uma espécie de ruído moral por detrás dos discursos grandiosos.

Via os aparelhos partidários a crescerem, e com eles crescia uma fauna que não me inspirava confiança. Os mais oportunistas aderiam rapidamente. Os colaboradores de cartazes eram quase transformados em heróis de campanhas políticas. Os que tinham mais vocação para a esperteza de falar muito sem dizerem nada começavam a ganhar lugar. Os que tinham falhado nos estudos, mas possuíam ambições imensas a partir do nada, encontravam na política uma escada conveniente.

Tudo aquilo me soava a falso. Não via ali a nobreza da cidadania. Via já os primeiros sinais de uma máquina. Uma máquina de promoção, fidelidade, obediência, favores, recompensas e carreiras internas. A militância partidária começava a parecer menos uma entrega ao bem comum e mais uma forma de subir na vida através da subserviência.

Afastei-me da política partidária desde logo. Aquilo não era comigo. A obediência partidária, a disciplina acrítica, a veneração dos chefes, a repetição de slogans, a troca de pensamento próprio por possibilidades de ascensão — tudo isso me parecia moralmente pobre e intelectualmente sufocante.

Eu acreditava na liberdade, na democracia, na cidadania, no pensamento crítico, na exigência, na responsabilidade pública. Mas não acreditava naquela forma de tribalismo organizado que começava a tomar conta do espaço democrático.

A partidocracia como lenta ocupação do Estado

O que começou nos anos oitenta como uma deformação ainda disfarçada acabou por cavar a sepultura de Portugal. Os mais medíocres, os mais oportunistas e os mais hábeis na sobrevivência interna foram tomando conta das direcções partidárias. A política deixou progressivamente de ser serviço e passou a ser carreira. Deixou de ser visão e passou a ser aparelho. Deixou de ser projecto nacional e passou a ser gestão de interesses.

O nepotismo instalou-se. Os negócios de família floresceram. Os lugares públicos tornaram-se moeda de troca. O Estado foi sendo transformado num imenso negócio das máquinas partidárias. Empresas públicas, institutos, fundações, câmaras municipais, assessorias, consultorias, gabinetes, administrações e reguladores foram sendo ocupados por redes de influência, fidelidade e conveniência.

Os interesses da nação e dos portugueses foram demasiadas vezes desprezados em favor de interesses partidários e particulares. Até à náusea. Até ao ponto em que a democracia formal continuou de pé, mas o seu espírito foi sendo lentamente sequestrado.

O mérito perdeu terreno para a confiança política. A competência cedeu lugar à fidelidade. A coragem foi substituída pela prudência carreirista. A inteligência passou a incomodar. A mediocridade encontrou finalmente o seu paraíso: um sistema onde se podia subir sem grande obra, permanecer sem grande talento e decidir sem grande visão.

Tudo esteve sempre à vista

O mais grave é que tudo isto esteve sempre à vista de todos. Não foi uma conspiração escondida num subterrâneo obscuro. Foi uma ocupação lenta e pública. Foi crescendo ano após ano, legislatura após legislatura, governo após governo, câmara após câmara, congresso partidário após congresso partidário.

Vimos os sinais. Vimos os nomes repetidos. Vimos as famílias políticas. Vimos os círculos de influência. Vimos os negócios cruzados. Vimos as promessas traídas. Vimos os incompetentes promovidos. Vimos os capazes afastados. Vimos os jovens obrigados a emigrar. Vimos o interior abandonado. Vimos a escola perder exigência. Vimos a administração pública transformar-se, demasiadas vezes, numa muralha contra a inteligência.

E, no entanto, o país foi-se habituando. Habituou-se ao escândalo. Habituou-se à desculpa. Habituou-se ao "é assim". Habituou-se ao cinismo. Habituou-se à ideia terrível de que nada mudaria verdadeiramente.

Assim se destrói uma nação: não apenas com grandes crimes, mas com pequenas capitulações diárias. Com silêncios. Com conformismos. Com carreiras feitas de obediência. Com cargos atribuídos por conveniência. Com cidadãos cansados demais para protestar. Com jovens inteligentes demais para ficar.

O sonho traído da minha geração

Foi assim que se destruiu o sonho da minha geração. E, com ele, o sonho das gerações seguintes. Não era um sonho impossível. Não era uma fantasia ingénua. Portugal podia, de facto, ter-se transformado numa nação de futuro: mais próspera, mais justa social e economicamente, mais culta, mais tecnológica, mais respeitada internacionalmente.

Podíamos ter aproveitado melhor o oceano, a ciência, a educação, a tecnologia, a Europa, a lusofonia, a posição atlântica, o talento dos nossos jovens, a energia do nosso povo, a inteligência dispersa por tantos portugueses que nunca encontraram lugar num sistema fechado sobre si mesmo.

Mas Portugal preferiu demasiadas vezes a pequenez organizada. Preferiu administrar a sobrevivência em vez de construir grandeza. Preferiu premiar os úteis ao aparelho em vez dos úteis ao país. Preferiu a esperteza de curto prazo à inteligência estratégica. Preferiu a conservação dos poderes instalados ao risco do futuro.

O país que tinha o oceano diante dos olhos acabou governado por homens de aquário. Gente capaz de disputar a posse da água parada, mas incapaz de imaginar mar alto.

A liberdade não bastou

Esta é talvez a lição mais dolorosa: a liberdade não bastou. Foi necessária, foi bela, foi sagrada, mas não bastou. Porque a liberdade, sem exigência cívica, pode ser capturada. A democracia, sem cultura moral, pode ser ocupada. Os partidos, sem ética, podem transformar-se em máquinas de carreira. O Estado, sem vigilância cidadã, pode tornar-se propriedade informal de quem o deveria servir.

O 25 de Abril abriu a porta. Mas os que vieram depois nem sempre souberam construir a casa. Muitos limitaram-se a dividir os quartos, controlar as chaves, distribuir lugares e garantir que os seus tinham sempre cama feita.

E assim, pouco a pouco, a promessa de Abril foi sendo gasta em nomeações, favores, negócios, carreiras e discursos vazios. Não morreu a liberdade. Morreu, ou foi gravemente ferida, a esperança de que a liberdade produziria automaticamente grandeza.

Portugal não falhou por impossibilidade.
Falhou por captura. Falhou por mediocridade organizada. Falhou porque demasiados dos que deviam servir a nação acabaram por servir-se dela.

Epílogo — A memória como resistência

Hoje, ao recordar esse tempo, sinto que revisito um sonho de juventude. Um sonho luminoso, talvez ingénuo, mas profundamente digno. O sonho de um país que podia ter sido melhor. O sonho de uma geração que acreditou que a democracia abriria caminho à justiça, à cultura, à prosperidade e à dignidade colectiva.

Esse sonho foi roubado. Não por um inimigo externo. Não por falta de recursos naturais. Não por ausência de povo. Foi roubado por décadas de oportunismo, mediocridade, corrupção, nepotismo e captura partidária do Estado.

Mas há algo que ainda não foi completamente destruído: a memória de que Portugal podia ter sido diferente. E enquanto essa memória existir, ainda há julgamento. Ainda há palavra. Ainda há denúncia. Ainda há luz.

Mesmo que essa luz incomode os que fizeram da sombra uma carreira.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
Crónica autobiográfica, reflexão, memória e resistência contra a anestesia colectiva de toda a nação portuguesa.

Nota final — A memória de um cidadão

Este texto é também a memória de um cidadão que acredita que uma nação sem moral nem ética pode continuar a existir nos mapas, pode manter bandeira, hino, parlamento, governos e cerimónias oficiais, mas perde lentamente a sua alma colectiva.

Uma nação não se destrói apenas quando perde território, riqueza ou influência. Destrói-se quando perde a vergonha. Quando já não distingue serviço público de negócio privado. Quando confunde esperteza com inteligência, obediência com mérito, propaganda com verdade e poder com responsabilidade.

Portugal não precisa apenas de reformas económicas, administrativas ou tecnológicas. Precisa de uma profunda reconstrução moral. Precisa de voltar a respeitar a competência, a honestidade, o trabalho sério, a palavra dada, a exigência e o bem comum.

Porque sem ética, a democracia transforma-se em teatro. Sem moral pública, o Estado transforma-se em presa. Sem cidadãos exigentes, a liberdade transforma-se em paisagem. E sem memória, até os sonhos mais belos acabam vendidos em saldo nos corredores do poder.

- Francisco Gonçalves (2026)
Como lição a aprender pelas novas gerações, fica aqui o pensamento político e o aviso de Bertolt Brecht (1898–1956) :

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Fonte: [ https://citacoes.in/topicos/politica/ ]

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