BOX DE FACTOS

  • A guerra lançada por Vladimir Putin contra a Ucrânia continua sem uma vitória estratégica clara para Moscovo.
  • A narrativa da "desnazificação" da Ucrânia tem sido amplamente contestada por historiadores, analistas e verificadores de factos.
  • Relatos recentes apontam para reforço da segurança em torno de Putin e para receios de ataques com drones e ameaças internas.
  • Apesar das sanções, parte da elite económica russa adaptou-se ao regime de guerra, mas ficou também mais dependente do Kremlin.
  • O regime russo continua perigoso, repressivo e militarmente activo, mas a imagem de invulnerabilidade de Putin está hoje muito mais ferida.

Putin, a Guerra e o Fim da Lenda do Homem Invencível

A Rússia de Putin ainda não caiu. Mas já não parece marchar com a confiança fria de um império. Parece antes uma fortaleza armada, vigiada por dentro, onde a música patriótica toca cada vez mais alto para esconder o ruído das fendas.

Vladimir Putin entrou na guerra contra a Ucrânia como quem julgava estar a escrever mais um capítulo da mitologia imperial russa. Imaginou talvez uma operação rápida, uma Ucrânia ajoelhada, um Ocidente dividido, uma Europa assustada e uma Rússia de novo projectada como potência inevitável. Mas as guerras, como a História tantas vezes recorda aos homens que se julgam acima dela, têm o mau hábito de não obedecerem aos delírios dos seus autores.

Quatro anos depois da invasão em larga escala de 2022, Putin não parece mais próximo da glória. Parece mais próximo da jaula que construiu para si próprio. A sua guerra contra os "nazis" imaginários da Ucrânia tornou-se uma prisão política, militar, económica e moral. A ficção propagandística que serviu para justificar a agressão transformou-se agora no labirinto onde o próprio regime se move, sem saída limpa, sem vitória clara e sem uma narrativa que não cheire já a mofo imperial.

A mentira fundadora: os "nazis" como desculpa imperial

A palavra "desnazificação" foi usada por Putin como uma chave emocional para abrir os cofres profundos da memória russa da Segunda Guerra Mundial. Não foi uma análise histórica; foi uma arma semântica. O objectivo era simples: vestir a Ucrânia independente com o uniforme fantasmagórico do inimigo absoluto da Rússia soviética. Transformar uma agressão imperial numa suposta missão libertadora.

Mas a tese sempre foi intelectualmente grotesca. A Ucrânia é um Estado soberano, com instituições próprias, pluralidade política, eleições e uma sociedade civil que resistiu precisamente porque não queria ser engolida pelo vizinho imperial. Acresce que Volodymyr Zelensky, eleito presidente da Ucrânia, é judeu, o que torna a caricatura propagandística de Moscovo ainda mais absurda. Historiadores e verificadores independentes têm classificado a linguagem de "desnazificação" como uma distorção manipuladora da História.

A mentira, contudo, teve utilidade interna. Serviu para anestesiar consciências, mobilizar ressentimentos, calar dúvidas e oferecer ao cidadão russo comum uma narrativa simples: não estamos a invadir, estamos a salvar; não estamos a destruir, estamos a purificar; não estamos a matar civis, estamos a combater fantasmas. A propaganda é isto: uma fábrica de nevoeiro moral.

A guerra que já não cabe na parada

Durante anos, o Dia da Vitória em Moscovo foi o grande teatro político de Putin. Tanques, mísseis, generais, veteranos, bandeiras, música marcial e o presidente no centro da encenação: a Rússia eterna, invencível, herdeira da vitória sobre o nazismo, projectada sobre o presente como se a História fosse uma propriedade privada do Kremlin.

Mas quando um regime tem de reforçar extraordinariamente a segurança em torno do seu líder e reduzir símbolos militares numa cerimónia construída precisamente para projectar força, alguma coisa mudou. Relatos recentes sobre a preparação das comemorações em Moscovo apontaram para preocupações com ataques de drones, segurança reforçada e menor exposição de equipamento militar pesado. O símbolo é poderoso: o império que queria desfilar como aço começou a desfilar como receio.

A guerra moderna trouxe para dentro da Rússia aquilo que Putin julgava poder manter longe do olhar doméstico. Os drones, as explosões em infra-estruturas, os ataques a alvos estratégicos e a vulnerabilidade da própria capital criaram um novo ambiente psicológico. A guerra deixou de ser apenas um espectáculo distante nos ecrãs da propaganda; começou a projectar sombras sobre Moscovo.

A paranóia como arquitectura do poder

Os regimes autoritários vivem de uma contradição permanente: precisam de parecer invulneráveis, mas sabem que são vulneráveis exactamente porque concentram demasiado poder numa só figura. Quando tudo depende do chefe, tudo teme pelo chefe. E o chefe, por sua vez, começa a temer todos.

Relatos recentes de reforço da segurança pessoal de Putin, incluindo receios de ataques com drones ou conspirações internas, devem ser lidos com prudência. Há sempre ruído, propaganda cruzada, serviços secretos a insinuar mais do que sabem e analistas a preencher vazios com hipóteses. Mas mesmo com essa prudência, o quadro geral é coerente: Putin está mais protegido, mais isolado e mais dependente dos aparelhos de segurança.

A paranóia não é um acidente nos regimes autocráticos; é quase uma consequência física da concentração de poder. O governante que destruiu instituições independentes deixa de ter mediadores fiáveis entre si e a realidade. Ouve bajuladores, silencia críticos, prende opositores, corrompe informações e, ao fim de algum tempo, começa a habitar uma sala de espelhos. Vê inimigos em todo o lado porque foi ele próprio que transformou a política num campo minado.

Os oligarcas: fartos, mas algemados ao cofre

É provável que muitos oligarcas russos estejam cansados de Putin. Mas o cansaço dos oligarcas raramente é uma emoção moral; é, quase sempre, uma irritação patrimonial. Não se trata necessariamente de indignação perante os mortos ucranianos, as cidades destruídas ou os jovens russos enviados para a máquina de moer carne. Trata-se de contas congeladas, iates apreendidos, mobilidade internacional reduzida, negócios condicionados e medo de cair em desgraça.

Ainda assim, a ironia é cruel: a guerra que lhes retirou parte do acesso ao Ocidente também os tornou mais dependentes do Kremlin. Muitos perderam espaço de manobra fora da Rússia e ficaram presos a um sistema onde a proximidade ao poder continua a ser a principal apólice de sobrevivência. A jaula pode ser dourada, mas continua a ser jaula.

Ao mesmo tempo, nem todos perderam. Alguns sectores ligados à economia de guerra, à substituição de empresas ocidentais e aos contratos públicos encontraram novas formas de enriquecimento. Isto ajuda a explicar a estabilidade relativa do regime: há medo, sim; há desgaste, sim; mas há também interesses que continuam a alimentar a máquina.

O regime ainda é perigoso

Seria um erro confundir sinais de desgaste com colapso iminente. A Rússia de Putin continua a ser um Estado nuclear, repressivo, com serviços de segurança fortes, capacidade militar considerável e uma sociedade submetida a propaganda, censura e medo. O Kremlin continua a prender, intimidar, manipular e comprar lealdades.

A economia russa, apesar das sanções e da pressão de guerra, não colapsou. Adaptou-se parcialmente, redireccionou fluxos comerciais, aproximou-se ainda mais da China e manteve receitas relevantes através da energia e da produção militar. Mas adaptação não é saúde. Uma economia cada vez mais militarizada pode sobreviver durante algum tempo, mas paga o preço em inovação civil, liberdade produtiva, investimento futuro e qualidade de vida.

A questão central não é saber se Putin cai amanhã. A questão é perceber que tipo de Rússia está a ser fabricada por esta guerra: uma sociedade mais fechada, mais militarizada, mais brutalizada, mais desconfiada e menos capaz de imaginar futuro fora da lógica imperial.

O fim possível de Putin

Putin talvez tenha perdido a possibilidade de uma reforma dourada. Antes da guerra, poderia imaginar-se uma saída controlada: uma sucessão cuidadosamente encenada, imunidade garantida, fortuna protegida, velhice vigiada por médicos e seguranças, e uma estátua moral erguida pela propaganda. Depois da Ucrânia, tudo ficou mais difícil.

O seu destino está agora ligado à guerra. Se recua, admite o erro. Se continua, aprofunda o desastre. Se congela o conflito, deixa uma ferida aberta no centro da Europa. Se intensifica, arrisca maior isolamento, maior desgaste e maior imprevisibilidade. É o velho dilema dos ditadores em guerras mal concebidas: quanto mais cara se torna a derrota, mais tentador é prolongar a catástrofe.

A comparação com Hitler, encerrado no bunker, pertence ao território das imagens históricas fortes. Mas a História não se repete como teatro perfeito. Putin pode não acabar num bunker físico; pode acabar num bunker político, rodeado por seguranças, médicos, chefes de serviços, oligarcas assustados e generais cansados. Pode morrer no poder. Pode ser substituído por uma decisão palaciana. Pode ver o sistema produzir outro rosto para salvar a arquitectura. Pode ainda sobreviver muitos anos, como sobrevivem por vezes as estruturas apodrecidas, sustentadas por medo, dinheiro e inércia.

Mas uma coisa parece cada vez mais clara: a lenda do homem invencível está ferida. E nos regimes de medo, quando a lenda começa a sangrar, todos reparam. Mesmo os que continuam a aplaudir.

A fortaleza iluminada por dentro

A Rússia de Putin parece hoje uma fortaleza com holofotes acesos, guardas duplicados, portas trancadas por dentro e música patriótica a tocar demasiado alto. Vista de fora, ainda impressiona. Vista com atenção, revela nervosismo.

A guerra contra a Ucrânia não devolveu à Rússia a grandeza imperial. Devolveu-lhe antes os fantasmas mais sombrios da sua História: o culto do chefe, a mentira como doutrina, o medo como método, a violência como linguagem e a obediência como moral de Estado.

Putin quis vencer a História. Acabou por ficar prisioneiro dela. Inventou nazis para justificar uma guerra. Criou inimigos para alimentar o poder. Transformou a Rússia numa máquina de cerco. Mas todos os cercos têm uma ironia final: quem cerca durante tempo suficiente acaba muitas vezes cercado pela própria guerra.

O império ainda respira. Ainda ameaça. Ainda mata. Ainda mente. Mas já não respira como destino. Respira como medo.

Fragmentos do Caos
Por Francisco Gonçalves, com apoio editorial de Augustus Veritas.

Uma crónica sobre o poder quando começa a temer a própria sombra — e sobre os impérios que confundem propaganda com eternidade.

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