BOX DE FACTOS

  • A Rússia assinalou, em 9 de Maio de 2026, mais um Dia da Vitória, em Moscovo, com uma parada militar reduzida e sob fortes medidas de segurança.
  • Vladimir Putin voltou a invocar a memória da luta soviética contra o nazismo para enquadrar politicamente a guerra contra a Ucrânia.
  • A narrativa russa da "desnazificação" da Ucrânia tem sido amplamente contestada por historiadores, instituições internacionais e observadores independentes.
  • A participação simbólica de forças norte-coreanas nas celebrações russas tornou ainda mais evidente a natureza autoritária das alianças que hoje rodeiam Moscovo.
  • A memória da Segunda Guerra Mundial, que pertence também a milhões de ucranianos mortos na luta contra Hitler, continua a ser usada pelo Kremlin como instrumento de legitimação imperial.

Putin e a Profanação da Memória: Quando a História é Usada Como Arma

Há homens que entram na História pela coragem. Outros entram pela tragédia. E há ainda aqueles que, não tendo grandeza para construir futuro, se entretêm a falsificar o passado. Vladimir Putin pertence a esta última família sombria: a dos governantes que transformam cemitérios em palanques e mortos em slogans.

A insistência de Vladimir Putin em comparar a sua invasão da Ucrânia com a luta da antiga União Soviética contra o nazismo não é apenas uma mentira política. É uma profanação histórica. É o acto de pegar numa das memórias mais dolorosas e grandiosas do século XX — a derrota do nazismo, paga com milhões de vidas — e usá-la como verniz moral para justificar uma guerra de agressão contra um país soberano.

A Rússia soviética teve, de facto, um papel gigantesco na derrota de Hitler. Ninguém sério o pode negar. Mas essa vitória não pertenceu apenas à Rússia. Pertenceu também aos ucranianos, aos bielorrussos, aos georgianos, aos arménios, aos tártaros, aos judeus soviéticos, aos povos inteiros esmagados entre duas monstruosidades: o nazismo alemão e o estalinismo soviético. Putin apaga essa complexidade e substitui-a por uma fábula imperial: a Rússia eterna, cercada por inimigos, obrigada a salvar o mundo pela força.

A máscara da "desnazificação"

Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, o Kremlin tem repetido a palavra "desnazificação" como se fosse uma fórmula mágica capaz de transformar tanques em libertadores, mísseis em argumentos e ruínas em justiça histórica. Mas a palavra, aqui, não esclarece: envenena.

A Ucrânia é uma democracia imperfeita, como tantas outras. Tem problemas, tensões, grupos extremistas marginais e feridas históricas, como qualquer sociedade saída de décadas de dominação imperial e soviética. Mas transformar isso numa justificação para invadir, bombardear, deportar, destruir cidades e anexar territórios é uma fraude moral. É como chamar cirurgia a um esfaqueamento.

A verdadeira função da palavra "nazismo", na boca de Putin, já não é descrever uma realidade. É activar uma memória emocional profunda na sociedade russa. É convocar os fantasmas da Grande Guerra Patriótica para impedir que os cidadãos russos vejam a realidade nua: o seu Estado não está a defender-se de Hitler; está a esmagar a Ucrânia porque não aceita que ela exista livremente fora da órbita de Moscovo.

O império que se disfarça de vítima

Todos os impérios decadentes desenvolvem, em certa fase, uma estranha arte de auto-comiseração. Já não dizem: "queremos dominar". Dizem: "estamos cercados". Já não dizem: "queremos possuir". Dizem: "estamos ameaçados". Já não dizem: "não aceitamos a liberdade dos outros". Dizem: "somos vítimas da conspiração mundial".

Putin tornou esta linguagem uma liturgia. A Rússia, potência nuclear, com o maior território do planeta, apresentada como pobre cordeiro cercado por lobos. A Ucrânia, país invadido, destruído e sangrado, apresentada como ameaça existencial. O agressor veste-se de mártir; a vítima é pintada como demónio. É o velho truque dos tiranos: partir o espelho e acusar o reflexo.

Nesta inversão moral está a essência do putinismo. Não é apenas autoritarismo. É autoritarismo com mitologia. É polícia política com canto épico. É repressão interna com bandeiras, hinos, santos ortodoxos, tanques e retratos de avós mortos na Segunda Guerra Mundial. Um regime assim não precisa apenas de controlar o presente. Precisa de possuir o passado.

O Dia da Vitória transformado em teatro de guerra

O Dia da Vitória deveria ser um momento de silêncio, memória e respeito pelos mortos. Deveria lembrar o preço terrível da guerra, não servir para glorificar novas guerras. Mas, sob Putin, a data foi progressivamente transformada num palco de mobilização nacionalista. A memória deixou de ser luto e passou a ser combustível.

Em 2026, a parada de Moscovo surgiu reduzida, vigiada, nervosa, sem o esplendor militar de outros anos. A simbologia permaneceu, mas o brilho pareceu gasto. Um império que precisa de desfilar a sua força todos os anos começa, talvez, a recear que alguém repare na sua fraqueza. Quando o poder precisa tanto de se exibir, é porque a dúvida já entrou no palácio.

O detalhe mais perturbador não é apenas a retórica. É a companhia. A presença e o apoio da Coreia do Norte ao esforço militar russo mostram até que ponto Moscovo se deslocou para uma constelação política sombria, onde autocracias se reconhecem mutuamente como animais da mesma noite. A Rússia que dizia combater o totalitarismo aproxima-se agora de um dos regimes mais fechados e brutais do planeta.

A doença moral do poder absoluto

Não é necessário fazer diagnósticos clínicos sobre Putin para reconhecer nele uma patologia política evidente. A doença que o corrói não é apenas individual. É a doença antiga do poder absoluto: o isolamento, a paranóia, a incapacidade de ouvir, a confusão entre a vontade pessoal e o destino nacional.

Os ditadores envelhecem mal porque acabam prisioneiros da própria ficção. Primeiro mentem aos outros. Depois obrigam os outros a repetir a mentira. Por fim, começam a acreditar nela. É nesse momento que se tornam perigosíssimos: quando a propaganda deixa de ser ferramenta e passa a ser mundo interior.

Putin fala de nazismo na Ucrânia porque precisa de um inimigo absoluto. Não lhe basta dizer que discorda de Kiev, que teme a NATO ou que pretende defender interesses russos. Precisa de convocar o Mal com maiúscula, porque só assim pode pedir ao seu povo obediência total, sacrifício permanente e silêncio cúmplice.

A História não absolverá esta fraude

A História é paciente, mas não é idiota. Pode demorar anos, décadas, por vezes gerações, mas acaba por separar os que defenderam a liberdade dos que a esmagaram em nome de palavras nobres. Putin poderá controlar televisões, prender opositores, manipular livros escolares e intimidar jornalistas. Mas não conseguirá transformar uma invasão numa libertação apenas porque repete a palavra "nazismo" mil vezes perante microfones obedientes.

A Ucrânia não é perfeita. Nenhum país o é. Mas hoje representa algo que Moscovo não tolera: a possibilidade de um povo eslavo, vizinho, historicamente ligado à Rússia, escolher outro caminho. Um caminho europeu, democrático, imperfeito, ruidoso, contraditório, mas livre. E é essa liberdade, mais do que qualquer batalhão, que aterroriza o Kremlin.

Porque uma Ucrânia livre é uma pergunta viva colocada à Rússia: se eles podem escolher, porque não podemos nós?

Epílogo — O passado como cadáver sequestrado

Há algo obsceno em ver um regime agressor desfilar diante dos mortos da Segunda Guerra Mundial como se estes lhe tivessem passado uma procuração moral. Os soldados soviéticos que morreram em Estalinegrado, Kursk, Leninegrado ou Berlim não morreram para que, oitenta anos depois, um autocrata usasse a sua memória para bombardear Kharkiv, Mariupol, Odessa ou Kiev.

A verdadeira homenagem aos mortos da guerra não é fabricar novas guerras. É impedir que os vivos voltem a cair na embriaguez dos impérios, das raças superiores, dos destinos históricos e dos chefes providenciais. Hitler também falava em destino. Mussolini também falava em grandeza. Estaline também falava em libertação. A linguagem dos monstros quase sempre vem perfumada de palavras nobres.

Putin poderá continuar a desfilar sob bandeiras vermelhas, cruzes ortodoxas, medalhas soviéticas e discursos inflamados. Mas a verdade, essa velha clandestina, atravessa paredes. E a verdade é simples: a Rússia de Putin não está a combater o nazismo na Ucrânia. Está a combater a liberdade da Ucrânia.

E quando um regime precisa de falsificar a História para justificar o presente, talvez seja porque já perdeu o futuro.

Referências internacionais consultadas

  • Associated Press — cobertura da parada russa do Dia da Vitória de 2026 e do seu carácter reduzido e fortemente securitário.
  • The Guardian — análise da tentativa de Putin de estabelecer uma linha directa entre a guerra soviética contra Hitler e a invasão da Ucrânia.
  • Reuters — informações sobre a aproximação estratégica entre Moscovo e Pyongyang no contexto da guerra.
  • The Moscow Times — relato do discurso de Putin no Dia da Vitória e da retórica contra uma alegada força "agressiva" apoiada pela NATO.
  • TIME — contextualização histórica da expressão "desnazificação" e da sua apropriação propagandística pelo Kremlin.

Texto: Francisco Gonçalves
Com apoio editorial e co-autoria de Augustus Veritas
Fragmentos do Caos News Team

Fragmentos do Caos — onde a memória ainda resiste à ferrugem dos impérios e a palavra tenta acender uma pequena lâmpada no nevoeiro.

Nota Final — A mentira como insulto à humanidade

A comparação feita por Vladimir Putin entre a sua invasão da Ucrânia e a luta histórica contra o nazismo não é apenas uma mentira torpe. É um insulto à humanidade.

Porque não se trata apenas de mentir sobre a Ucrânia. Trata-se de violar a memória dos que morreram a combater o verdadeiro nazismo. Trata-se de usar os cadáveres da História como degraus para uma nova guerra. É uma obscenidade moral.

Putin tenta vestir a agressão com farda de libertação. Mas por baixo dessa farda está o velho corpo do imperialismo: a vontade de dominar, apagar, subjugar, humilhar e reescrever a vida dos outros povos.

A mentira dele não é sofisticada. É brutal, primária, quase grotesca. Mas é perigosa porque é repetida por televisões, generais, burocratas, padres do regime e exércitos de servos digitais. A mentira, quando tem Estado, armas nucleares e polícia política, deixa de ser apenas mentira: torna-se máquina de esmagar realidade.

Mas há uma coisa que nem Putin controla: a memória futura.

E essa, silenciosa, paciente e implacável, saberá colocar cada monstro no lugar que lhe pertence: não no altar dos libertadores, mas no arquivo sombrio dos tiranos que tentaram transformar a História numa arma contra a verdade.

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